O insuportável Custo Brasil

*JOSÉ ANTONIO RIBAS JÚNIOR

O Brasil construiu uma das mais sofisticadas, eficientes e seguras cadeias de produção de proteína animal do planeta. Dispõe de escala, tecnologia, sanidade, disponibilidade de matérias-primas, capacidade empresarial e acesso a praticamente todos os grandes mercados consumidores. Essa posição, entretanto, não constitui patrimônio irrevogável. Competitividade não se herda nem se preserva por decreto: conquista-se todos os dias. E o País começa a cobrar da própria produção uma conta demasiadamente elevada.

O paradoxo é evidente. Somos competitivos dentro das granjas e das indústrias, mas perdemos eficiência entre a porteira, a fábrica, a estrada, o porto e o sistema financeiro. Aquilo que o produtor e a agroindústria conquistam com genética, manejo, tecnologia e escala é parcialmente consumido por impostos, juros, infraestrutura deficiente, burocracia, insegurança jurídica e custos logísticos.

A tributação é uma das faces mais perversas dessa equação. As cadeias de aves e suínos são extensas e complexas: começam na genética, passam pelos grãos, pela fabricação de rações, pela produção animal e pelo processamento industrial até chegar ao consumidor. Essa integração permite rastreabilidade, controle sanitário e segurança dos alimentos. Entretanto, a sucessão de etapas também amplia a exposição ao sistema tributário.

A reforma tributária traz a perspectiva de simplificação, mas a transição exige atenção. O Brasil já iniciou em 2026 o período de teste da CBS e do IBS e avançará para novas etapas a partir de 2027. O desafio será impedir que exceções, regimes específicos e regulamentações sucessivas reconstruam, sob novos nomes, a complexidade que se pretende eliminar.

Há uma distorção conceitual que precisa ser enfrentada: agregar valor não pode significar simplesmente agregar impostos. Um país que pretende industrializar sua produção, gerar empregos qualificados e exportar produtos de maior valor precisa premiar a transformação, não penalizá-la. Caso contrário, torna-se racional exportar matéria-prima enquanto outros países capturam a renda da industrialização.

A questão trabalhista também merece racionalidade econômica. A reoneração gradual da folha já alcança setores antes beneficiados, o que acrescenta pressão a atividades intensivas em trabalho. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam dificuldades concretas para preencher seus quadros. Qualquer alteração adicional nas jornadas e escalas precisa considerar produtividade, disponibilidade de trabalhadores e custo final. Não existe mecanismo econômico capaz de transformar aumento permanente de custo em benefício gratuito. Em algum ponto da cadeia, a conta aparecerá — na margem das empresas, no investimento, no emprego ou no preço dos alimentos.

Talvez nenhum gargalo revele tão claramente nossas contradições quanto a logística. Grande parte da produção brasileira de suínos e aves está concentrada no Sul, justamente onde a indústria convive com déficit estrutural de milho. Essa insuficiência chega a cerca de 7 milhões de toneladas apenas de milho mesmo em anos favoráveis e produz um custo logístico superior a R$ 10 bilhões.

Transportamos por rodovias grandes volumes que poderiam percorrer longas distâncias por ferrovias. Depois, enfrentamos estradas congestionadas, infraestrutura portuária limitada e custos para colocar nossos produtos no mercado internacional. É uma extraordinária demonstração de eficiência produtiva submetida a uma infraestrutura incapaz de acompanhá-la.

Enquanto soluções estruturantes não avançam, alternativas imediatas precisam ser exploradas. O Sul possui áreas disponíveis no inverno que podem produzir trigo, triticale e outros cereais destinados à alimentação animal. É necessário ampliar o seguro rural para dar previsibilidade ao produtor e facilitar o ingresso de grãos de países vizinhos, especialmente Argentina e Paraguai. Não substituem ferrovias e infraestrutura moderna, mas reduzem a vulnerabilidade de uma cadeia que não pode esperar décadas.

O crédito constitui outro freio severo. Investimentos em granjas, plantas industriais, automação, eficiência energética, biosseguridade e sustentabilidade exigem capital de longo prazo. Quando o dinheiro se torna excessivamente caro, projetos economicamente necessários deixam de ser financeiramente possíveis. O resultado é perverso: posterga-se a modernização, perde-se produtividade e aumenta-se a distância dos concorrentes internacionais.

Não se trata de defender subsídios permanentes. O Brasil precisa criar condições para que o capital privado financie sua expansão produtiva. Isso requer equilíbrio fiscal, segurança jurídica, menos burocracia e juros compatíveis com investimentos cuja maturação se mede em décadas, não em meses.

Há ainda um ativo que precede todos os demais: a sanidade animal. Sem ela não há mercado externo, eficiência fabril ou vantagem cambial que salve uma cadeia exportadora. Influenza aviária, peste suína e enfermidades associadas à população de animais asselvajados exigem vigilância permanente. Sanidade não é despesa acessória. É infraestrutura econômica.

A próxima fronteira será digital. Inteligência artificial, ciência de dados, automação e capacidade preditiva redefinirão a produtividade da agroindústria. Mas não existe transformação digital competitiva sem conectividade rural, tecnologia acessível e desenvolvimento nacional de soluções. Permanecer dependente de equipamentos, sistemas e conhecimento importados significa acrescentar outra camada de custo à produção.

O Brasil possui vantagens comparativas extraordinárias. O erro está em imaginar que elas bastam. Países concorrem por empresas, capitais, mercados e talentos. Investimentos migram para onde há previsibilidade, infraestrutura e ambiente econômico racional.

A agroindústria brasileira não pede proteção contra a concorrência. Pede condições para enfrentá-la. Produzir dentro da fábrica e da granja com eficiência mundial enquanto se convive, do lado de fora, com custos incompatíveis com essa eficiência é desperdiçar uma vantagem construída durante décadas.

O País precisa decidir se deseja apenas ser grande produtor de commodities ou também uma potência industrial de alimentos. A diferença entre uma coisa e outra está menos na capacidade de quem produz do que na capacidade do Brasil de deixar de punir quem investe, transforma, emprega e exporta.

A tese sobre competitividade segue diretamente a advertência do material-base: a vantagem comparativa brasileira precisa ser convertida em vantagem competitiva, sob risco de o País perder espaço por deficiências criadas internamente.

*Presidente do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados em Santa Catarina (Sindicarne)

Texto: MB comunicações

Foto: Divulgação

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