*Por Rone Borges
A genética, a nutrição e a tecnologia avançaram na pecuária de leite, mas um dos maiores gargalos produtivos ainda permanece dentro das fazendas, especialmente na criação de bezerras.
Altas taxas de morbidade e mortalidade na fase inicial continuam comprometendo a eficiência dos sistemas de produção. Parte desse problema está relacionada a um fator decisivo para a saúde das bezerras e que nem sempre recebe a atenção necessária: a qualidade do colostro e o manejo da colostragem.
Diferentemente de outras espécies, os bovinos apresentam uma estrutura placentária que impede a transferência de anticorpos maternos para o feto durante a gestação. Dessa forma, as bezerras nascem praticamente desprovidas de imunoglobulinas circulantes, tornando a ingestão de colostro nas primeiras horas de vida essencial para a aquisição da imunidade passiva e a proteção contra agentes infecciosos no período neonatal.
Além de anticorpos, o colostro fornece proteínas, vitaminas e outros componentes importantes para o desenvolvimento e a maturação intestinal. Garantir seu fornecimento adequado é, portanto, um dos primeiros investimentos na saúde e no futuro produtivo do animal.
A dimensão desse desafio pode ser observada nos indicadores sanitários da criação. Entre o nascimento e o desmame, a morbidade por diarreia neonatal pode chegar a 23%. Pneumonias atingem cerca de 21,9% das bezerras e a mortalidade gira em torno de 3,5%, com pico nas primeiras semanas de vida. Em muitos casos, essas perdas estão associadas à falha na transferência de imunidade passiva.
Mas o impacto vai além da fase de cria. Estudos demonstram que bezerras bem colostradas apresentam maior produção de leite na vida adulta. Isso significa que falhas no início da vida podem comprometer o potencial produtivo futuro desses animais.
Um aspecto que merece maior atenção é que a qualidade do colostro começa a ser construída antes do nascimento da bezerra. A chamada colostrogênese ocorre no final da gestação e é fortemente influenciada por fatores como nutrição da vaca, condição sanitária, idade, raça e manejo durante o período seco.
Isso significa que não basta se preocupar com a colostragem após o parto. É necessário preparar a matriz para produzir um colostro de qualidade, por meio de um planejamento que contemple nutrição, sanidade e manejo adequado no pré-parto.
A implementação de programas sanitários e protocolos de imunização das matrizes durante o período pré-parto constitui uma estratégia relevante para otimizar a transferência de imunidade passiva aos neonatos. A vacinação, quando realizada com antígenos apropriados e respeitando os intervalos necessários para a resposta imunológica, pode elevar os títulos de anticorpos específicos no colostro contra agentes de importância sanitária, incluindo Escherichia coli, rotavírus bovino e determinados agentes respiratórios e clostridiais, conforme a composição das vacinas utilizadas. A adequada ingestão e absorção dessas imunoglobulinas contribuem para a proteção neonatal, a redução da morbidade e da mortalidade e a melhoria das condições sanitárias durante a fase de cria.
A nutrição também precisa fazer parte dessa estratégia preventiva. Minerais e vitaminas desempenham papel central na qualidade do colostro. Elementos como zinco, cobre, selênio, manganês e vitaminas A e E atuam diretamente na resposta imunológica e na qualidade da secreção colostral. A deficiência desses nutrientes pode comprometer a proteção oferecida às bezerras, tornando-as mais vulneráveis aos desafios sanitários.
Além da produção de colostro de boa qualidade pela matriz, cuja avaliação pode ser realizada por meio de refratômetro de Brix, considerando valores iguais ou superiores a 22% como referência, o sucesso da transferência de imunidade passiva depende diretamente do manejo realizado após o nascimento. Recomenda-se o fornecimento precoce de colostro, impreterivelmente, nas primeiras duas horas de vida, em volume equivalente a 10% do peso corporal da bezerra, seguido de uma segunda administração, que pode corresponder a 5% do peso vivo, conforme o protocolo adotado. Complementarmente, a avaliação da transferência de imunidade passiva 48 horas após o nascimento, por meio da mensuração de proteínas séricas totais ou da refratometria de Brix, permite verificar a eficiência do manejo colostral e identificar possíveis falhas na aquisição de anticorpos maternos.
Mais do que cumprir uma rotina, essas medidas devem fazer parte de um programa estruturado de criação de bezerras. A construção da imunidade desde a origem exige uma abordagem estratégica e integrada, que combine programas vacinais bem definidos para vacas no pré-parto, suplementação adequada de minerais e vitaminas e a adoção de protocolos sanitários consistentes.
Quando essas práticas são implementadas de forma planejada, é possível elevar a qualidade do colostro, reduzir os índices de morbidade e mortalidade na fase de cria e favorecer o desenvolvimento das bezerras, com reflexos na produtividade leiteira ao longo da vida.
Em um cenário no qual cada litro de leite importa, investir na saúde das matrizes e na qualidade da colostragem não é apenas uma medida preventiva, mas uma decisão que influencia diretamente a eficiência e a rentabilidade da atividade.
O futuro produtivo de uma vaca não começa na primeira lactação. Ele é construído ainda antes do nascimento e depende das decisões sanitárias e de manejo tomadas desde a gestação.
*Por Rone Borges, coordenador de Território Pecuarista Minas Gerais da Biogénesis Bagó
Foto: Divulgação


