Especialistas defendem que ciência é fundamental para orientar escolhas de consumidores

Em um mundo dominado pelo excesso de informações, o consumidor fica cada vez mais perdido na hora de escolher os alimentos que podem ou não prejudicar a saúde. Ingredientes que sempre fizeram parte da dieta passaram, de repente, a ser tratados como vilões. Entre eles estão o glúten, a lactose, aditivos e produtos industrializados. Mas até que ponto o excesso de informação pode se transformar em desinformação? Para especialistas da Embrapa e de outras instituições públicas e privadas que atuam na área, a ciência é fundamental para oferecer bases seguras às escolhas alimentares dos consumidores.

A Embrapa, inclusive, possui em seu escopo de pesquisa e desenvolvimento um portfólio exclusivamente voltado ao protagonismo do consumidor. Segundo a presidente desse portfólio, a pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), Maria do Socorro Bastos, entre as atribuições estratégicas está a elaboração de notas técnicas para subsidiar posicionamentos da Empresa em temas relacionados ao consumo de alimentos. Um exemplo recente foi o apoio científico a projetos de lei relacionados à composição e à rotulagem de chocolates, com base em pesquisas sobre o teor de cacau nos produtos.

A equipe, que reúne 14 pesquisadores de 13 centros de pesquisa da Embrapa em diferentes regiões brasileiras, oferece ainda subsídios a políticas públicas voltadas à alimentação. “Para nós, o consumidor não é o destino final da ciência; é o ponto de partida”, destaca.

O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, Clenio Pillon, reforça que o objetivo do portfólio é orientar as escolhas de consumo para além de preço e produto, levando em conta também critérios como saudabilidade, conveniência, sustentabilidade, ética, rastreabilidade e procedência. “Por isso, a proposta é incorporar essas demandas desde o desenvolvimento das nossas soluções tecnológicas”, afirma. De acordo com ele, a Empresa trabalha hoje com agendas preditivas para o futuro, considerando as demandas alimentares dos próximos 20 a 30 anos.

Desmistificando rótulos

Para a engenheira de alimentos Giovanna Pisanelli, que trabalha na equipe do aplicativo “Desrotulando”, o excesso de informações midiáticas, internet e redes sociais aterroriza o consumidor atual com dados muitas vezes inverídicos ou exagerados sobre os produtos alimentares.

Nesse sentido, ela defende que o recado é claro: não basta olhar as informações em destaque na frente da embalagem; é preciso consultar também a tabela nutricional, que fica no verso. E esse é justamente o objetivo do aplicativo, que permite ao consumidor escanear os produtos e ter acesso de forma clara e objetiva à lista de ingredientes e aos valores de nutrientes presentes em sua composição.

O perfil do Desrotulando no Instagram, que tem hoje mais de 900 mil seguidores, também cumpre o papel de tirar dúvidas dos usuários sobre o que é fato ou falso.
Um dos exemplos são os aditivos que, segundo explica Pisanelli, estão entre os maiores temores dos consumidores hoje.

Ela explica que existem mais de 200 aditivos regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que seu uso, nas condições autorizadas, não deve ser confundido com risco à saúde.

A engenheira de alimentos desmistifica ainda outra frase atual, que diz “descasque mais e desembale menos”. “É claro que a intenção é boa e o cenário é ideal, mas há que se pesar na balança o tempo e o poder aquisitivo dos consumidores. Nem sempre os alimentos processados são os vilões e, por isso, não é saudável demonizá-los. O segredo está em uma alimentação variada e equilibrada”, observa.

Outro mito é dizer que qualquer alimento com mais de cinco ingredientes é ultraprocessado.  “A granola, por exemplo, possui 22”, conta.

Pisanelli destaca as lupas (símbolos de advertência frontal colocados nas embalagens para indicar o alto teor de nutrientes que devem ser consumidos com moderação) como um dos maiores avanços regulatórios dos últimos tempos.

Mas, ao mesmo tempo, lembra que ainda são de difícil visualização. Por isso, já estão no radar de revisão da Anvisa.

Aspectos históricos, culturais e sociais que impactam o consumo

Leticia Moreira Casotti, professora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que o consumidor é fruto dos aspectos históricos, culturais e sociais que definem as sociedades. Segundo ela, as nossas escolhas carregam significados construídos historicamente e socialmente, muitos deles tão naturalizados que nem percebemos.

A frase “eu sou o que eu como” é muito simplista para avaliar um sistema complexo como o que define o consumo. “São inúmeras variáveis que mudam de acordo com as comunidades e com o próprio tempo”, diz.

Ela cita como exemplo os coletores menstruais, cuja aceitação entre as mulheres cresceu nos últimos anos. “Essa é uma mudança relevante na sociedade que imputa naturalidade e praticidade a um fenômeno antes olhado com nojo e preconceito”, pontua.

Ela enfatiza que para a Embrapa é fundamental estar próxima aos consumidores e, acima de tudo, tentar compreender os seus hábitos e as camadas escondidas que os pautam. A adoção de uma inovação não depende apenas de características objetivas do produto — preço, durabilidade, sustentabilidade ou segurança. Ela esbarra em valores, tabus e na relação cultural com os produtos.

“O consumo é um movimento efervescente. Não basta dar protagonismo ao consumidor, mas entender o porquê de suas escolhas. Hoje é fundamental que as soluções tecnológicas oferecidas ao mercado sejam cocriadas entre ciência e população”, enfatiza.

Canetas emagrecedoras e seus efeitos no consumidor

Hellen Maluly, professora das Faculdades Oswaldo Cruz (FOC), aponta uma nova tendência que também altera o consumo: os medicamentos agonistas de GLP-1 – como semaglutida, liraglutida e tirzepatida -, mais conhecidos como “canetas emagrecedoras”.

Utilizados no tratamento de diabetes e, em alguns casos, da obesidade, eles começam a aparecer também como força capaz de modificar padrões de consumo de alimentos.

Maluly explica que esses medicamentos não atuam apenas sobre fome e saciedade, mas podem interferir na experiência sensorial e no sistema cerebral de recompensa ligado à comida.

Os efeitos podem ser divididos em quatro pilares: sensorial, neurobiológico, econômico/comportamental e identidade. Ou seja, a mudança provocada pelo medicamento percorre uma cadeia que começa na percepção do alimento, passa pelo desejo de comê-lo e chega às compras e à própria relação emocional do consumidor com a comida.

Na parte sensorial, esses medicamentos podem resultar em alterações de paladar, olfato e até percepção de textura. Podem ocorrer redução ou alteração da sensibilidade gustativa e olfativa e mudanças na sensação tátil dos alimentos na boca. “Isso significa que a consequência não é apenas comer menos, mas comer diferente”, diz a professora.

A questão que conversa diretamente com o conceito de “consumidor protagonista” é se essas demandas já são grandes o suficiente para influenciar o desenvolvimento de novos alimentos “GLP-1 friendly” pela indústria e pela pesquisa. Mas, pelas discussões atuais, ainda são necessários estudos de longo prazo para avaliar essa tendência.

 

Da ciência à experiência dos consumidores

Fabio Ribeiro dos Santos

Marcos Botton e Mauro Celso Zanus, da Embrapa Uva e Vinho, destacam as cultivares BRS Vitória (foto) e BRS Lorena como exemplos concretos de entregas da Embrapa ao mercado consumidor.

A BRS Vitória é uma uva de mesa sem sementes, hoje comercializada por diferentes marcas e apreciada no varejo pelos atributos de doçura, aroma, crocância e ausência de sementes.

Já a BRS Lorena é destinada ao processamento, o que os pesquisadores classificam como mercado silencioso, uma vez que a uva é usada na elaboração de produtos aromáticos, de fácil consumo e com baixo teor alcoólico.

As cultivares são, majoritariamente, produzidas por pequenos produtores e vinícolas familiares, o que mostra possibilidades de mercado para diferentes escalas de produção.

Apesar da inserção no mercado, os pesquisadores lembram que o desenvolvimento de boas cultivares não encerra o trabalho. Existem ainda desafios relacionados ao ponto de colheita e à relação entre preço e volume produzido.

Ou seja: a inovação agrícola não termina na lavoura nem na qualidade intrínseca do produto. A apresentação, o posicionamento, a experiência e a percepção também interferem na adoção pelo mercado.

Outra experiência é a Taça Oficial do Espumante Brasileiro, um desenvolvimento conjunto entre a Embrapa, a Associação Brasileira de Enologia (ABE) e a loja de cristais Strauss.

O produto agrega elementos de reputação, como indicação geográfica e terroir, para valorizar o espumante brasileiro. É um resultado de pesquisa que chega à experiência sensorial de consumo e mostra que não basta pesquisar o produto, é importante compreender também a maneira como o consumidor o experimenta.

P&D em Debate

As discussões ocorreram durante o debate “Ciência e consumidor na era da (des) informação”, que reuniu cerca de 400 pessoas on-line no dia 7 de outubro de 2026.

O evento faz parte do “P&D em Debate”, iniciativa capitaneada pela Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DEPD) da Embrapa para debater temas relevantes relacionados à inteligência estratégica de PD&I no País.

O próximo encontro ocorrerá no dia 29 de outubro e abordará o tema transformação ecológica.

Texto: Embrapa

Foto: Adobe Stock

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