Nova leguminosa da Embrapa controla pragas do solo, recupera pastagens e oferece forragem de qualidade para bovinos na seca
A leguminosa Guandu BRS Guatã, lançada recentemente pela Embrapa Pecuária Sudeste, tem a capacidade de promover a sustentabilidade da agricultura brasileira. A cultivar oferece benefícios significativos para a produção agropecuária, ao mesmo tempo em que contribui para a saúde do solo e à redução da dependência de insumos químicos.
O Guandu BRS Guatã destaca-se, principalmente, pelo potencial no controle natural de cinco espécies de nematoides, pragas que causam prejuízos bilionários à agricultura brasileira anualmente. Também, ao reduzir a necessidade de defensivos químicos para combater esses parasitas, apresenta-se como uma alternativa conservacionista e econômica.
As pesquisas revelaram que a variedade apresenta baixos fatores de reprodução para os nematoides Pratylenchus brachyurus; P. zeae, Meloidogyne javanica e M. incognita, com grande ocorrência, principalmente, na soja e na cana-de-açúcar. Um estudo mais recente demonstrou que o Heterodera glycines também tem fator de reprodução baixo para o Guatã.
Os nematóides afetam significativamente a produção. De acordo com a Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), esses vermes pequenos são responsáveis por um prejuízo anual de R$35 bilhões. Eles parasitam as plantas retirando substâncias nutritivas e injetando elementos tóxicos no interior da célula vegetal.
A variedade, além de ajudar o produtor a conter os nematoides no solo, ainda é uma boa opção para alimentar os bovinos durante a época seca e para recuperar pastagens degradadas.
A utilização dessa cultivar mostra-se bastante promissora em algumas regiões do Brasil (Sudeste e Centro-Oeste) para a intensificação equilibrada e inteligente da pecuária, conciliando produtividade e preservação ambiental.

Comida na seca
No caso da alimentação animal, o guandu é uma leguminosa rica em proteína e com alto poder de fixação de nitrogênio no solo. A BRS Guatã é apresentada como uma alternativa de baixo custo para a suplementação volumosa de bovinos durante a seca. O uso para esta finalidade permite aumentar a taxa de lotação por hectare e reduzir a escassez de forragens, comum no período seco, resultando em maior ganho de peso dos animais.
Segundo a pesquisadora Patrícia Anchão Oliveira, da Embrapa Pecuária Sudeste, a BRS Guatã demonstrou ser uma alternativa para a produção de cobertura morta e adubação verde em rotação com outras culturas. Em testes, a cultivar produziu três toneladas de massa seca por hectare na condição de sequeiro e 3,3 toneladas por hectare com irrigação. Essa diferença pequena ainda evidencia a alta tolerância dessa leguminosa ao déficit hídrico.
Vantagens competitivas
A nova leguminosa apresenta ciclo vegetativo mais curto em comparação a outras cultivares de guandu, como a BRS Mandarim. O pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste Frederico Pina da Matta, explica que essa característica permite um melhor aproveitamento da janela de plantio e antecipa a disponibilidade de forragem para os animais. Ela floresce cerca de 30 dias antes do que o Mandarim e tem boa velocidade de implantação no campo.
Outra característica interessante, segundo Matta, é o porte intermediário com caules mais finos e flexíveis, facilitando os tratos culturais.
Integrada à cultura da soja, a variedade não é um bom hospedeiro para a Phakopsora pachyrhizi Syd. & P. Syd., agente da ferrugem da soja. Também possui resistência moderada à Macrophomina phaseolina, fungo causador da podridão do caule.
Algumas outras características podem ser associadas ao guandu BRS Guatã e impactam na produtividade das pastagens ou culturas anuais, como a alta quantidade de matéria seca. A decomposição da biomassa libera nutrientes importantes para o solo, como nitrogênio, fósforo e potássio, beneficiando o cultivo subsequente. O Guatã fornece até 79,3 kg de nitrogênio por hectare através da adubação verde, liberando nutrientes importantes para o solo. Além do que, pode servir de alternativa como planta de proteção e sombreamento para implantação de outras culturas (café e frutíferas, por exemplo).
Outra observação feita pelos pesquisadores diz respeito à biomassa na parte aérea dessa leguminosa. Segundo Matta, quanto mais planta na parte aérea, maior é a quantidade de Nitrogênio aportado.
Com todos esses benefícios, a leguminosa representa um avanço significativo para a agricultura brasileira, oferecendo uma solução integrada para o manejo de pragas, a produção de alimentos e a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Mudanças Climáticas
Algumas características agronômicas da cultivar podem ser bastante importantes em condições desafiadoras, como as mudanças climáticas.
A variedade demonstrou alta tolerância ao déficit hídrico, produzindo tanto em secas, como irrigadas.
Essa resiliência é vantajosa em um cenário adverso, onde eventos extremos, como secas, tendem a ser mais frequentes e intensos. A capacidade de produção em condições de baixa disponibilidade de água a torna uma cultura estratégica para a adaptação da agricultura e da pecuária às mudanças climáticas.
Como qualquer leguminosa, o Guatã possui a capacidade de fixar nitrogênio atmosférico no solo. Essa característica contribui para a redução da necessidade de fertilizantes nitrogenados, cuja produção é altamente dependente de combustíveis fósseis e emissão de gases de efeito estufa.
Assim, a cultivar destaca-se como uma cultura com alto potencial para a sustentabilidade da pecuária.
Essas aptidões estão alinhadas à agenda da Embrapa no que diz respeito aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, principalmente às metas de combate às mudanças climáticas e segurança alimentar.
Aquisição de sementes
O Guatã está sendo vendido por empresas e produtores de sementes parceiros da Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras – Unipasto (61) 3274-0784.
Gisele Rosso (MTb/3091)
Embrapa Pecuária Sudeste


