Zoneamento agrícola e alertas fitossanitários reduzem riscos e orientam a expansão sustentável da citricultura
Diante dos inúmeros problemas enfrentados por produtores, com o avanço do huanglongbing (HLB ou greening), na principal região brasileira produtora de citros, chamada de Cinturão Citrícola, formada pelos estados de São Paulo (à exceção do litoral) e Minas Gerais (Triângulo Mineiro e sudoeste), muitos citricultores estão migrando para uma nova região produtora, denominada Cinturão Citrícola Expandido (CCE), que fica localizada em áreas dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, além do Distrito Federal.

Pesquisas realizadas pela Embrapa e pelo Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) – que indica os riscos climáticos envolvidos na produção agrícola em diferentes regiões brasileiras –, os alertas fitossanitários e a indicação de diversas medidas de manejo, têm como missão apoiar o produtor na difícil tomada de decisão pela mudança de endereço dos plantios, com vistas à preservação dos pomares e sua consequente sustentabilidade comercial e financeira.
O Zarc considera riscos de até 20, 30 e 40% para a perda da produção associados a todas as fases de desenvolvimento dos frutos, desde a floração, passando pela frutificação, até a colheita. “Com os resultados de risco climático, em nível municipal, para o Brasil inteiro gerados pelo Zarc, conseguimos separar essas regiões que são limítrofes do Cinturão Citrícola existente e fazer um diagnóstico das possibilidades de risco climático e do planejamento da citricultura nessas regiões de expansão”, explica Mauricio Coelho, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA), coordenador do Zarc Citros e um dos autores da publicação “Expansão do cinturão citrícola – Quais as aptidões e os riscos climáticos?”. Os outros autores são Alécio Moreira, Eduardo Girardi, Francisco Laranjeira, Eduardo Monteiro e Daniel Victoria (Embrapa) e Renato Bassanezi (Fundecitrus).
Segundo Coelho, a publicação é norteadora para os citricultores. “A partir do momento em que se expande a citricultura, pode-se entrar em locais com riscos climáticos mais elevados, o que está acontecendo em algumas regiões, como Triângulo Mineiro e Alto Parnaíba, no oeste paulista, que têm alguma limitação, um risco climático um pouco maior, principalmente relacionado ao déficit hídrico, e temperaturas elevadas no período de floração”, ressalta o especialista em irrigação.

Zoneamento específico
Uma das tecnologias em desenvolvimento é o zoneamento específico para o psilídeo vetor da bactéria associada ao HLB e o zoneamento de ocorrência da podridão floral dos citros (PFC) que, em complemento ao Zarc elaborado em 2021, pretende obter mapas com indicação de favorabilidade à ocorrência no CCE, além de servir como base para futuros zoneamentos para outras pragas e doenças dentro do CCE.
O projeto “Zoneamento de favorabilidade à ocorrência de psilídeo e de podridão floral dos citros no cinturão citrícola brasileiro expandido em cenários de mudanças climáticas” é liderado por Alécio Moreira, analista da Embrapa Mandioca e Fruticultura, e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) até 2026.
Para além do clima, observou-se a importância de zonear o risco fitossanitário, no caso, de ocorrência de Diaphorina citri, que é o vetor da bactéria associada ao HLB, e de podridão floral, pela elevada dependência do clima para ocorrência com danos elevados. A podridão floral é uma doença importante, que afeta as flores e, consequentemente, a produção de frutos. “Essas informações são importantes para que os citricultores tenham maior segurança na tomada de decisão sobre a produção em novas áreas em cenários atual e futuro de mudanças climáticas”, explica Alécio. Tal qual o Zarc tradicional, o projeto vai usar modelos matemáticos e computacionais para estimar esses riscos e a expectativa é que os mapas que indicarão a ocorrência de psilídeo estejam disponibilizados ainda em 2025.
De acordo com Coelho, o produtor precisa ter informações simples, de forma dinâmica, e trabalhar com tecnologias digitais. “É preciso realizar o monitoramento do pomar para estar antenado às mudanças que possam favorecer o desenvolvimento do fungo ou a maior incidência do inseto e atuar com prevenção, fazendo o controle integrado (químico, físico, biológico e/ou cultural) mais ajustado à realidade local e aos riscos climáticos associados”, afirma.
O projeto vai considerar elementos climáticos e características da PFC e do HLB. “Vamos estudar variáveis climáticas, desenvolvimento da podridão floral e do HLB e questões da planta, como florada e brotações, e, então, gerar modelos que possam produzir essas informações de riscos para ocorrência da podridão floral e psilídeo no Cinturão Citrícola”, salienta Coelho.
O pesquisador explica que o controle tem que ser contínuo: “Existem condições ideais para o desenvolvimento tanto do microrganismo quanto do vetor, ou seja, há períodos naturalmente limitantes para esses organismos, como os de baixas temperaturas. No atual Cinturão Citrícola, as baixas temperaturas restringem o crescimento das plantas e o desenvolvimento do fungo, especialmente, quando associadas ao período mais seco do ano. Isso resulta na falta de crescimento vegetativo e na ausência de floração natural”.

Migração crescente
Segundo o Fundecitrus, a migração dos pomares iniciou em 2023 e continua em ascensão. “Em 2024, os produtores começaram, com maior intensidade, a buscar novas regiões em áreas livres ou com baixa incidência do greening”, informa o pesquisador, Renato Bassanezi.
Em curto prazo, a previsão é o aumento da doença no estado de São Paulo. “Felizmente, em 2024, o aumento foi de 38% para 44%, bem menor do que no ano anterior, que tinha sido de 24% para 38%, e a redução em si já deu uma acalmada no setor. A verdade é que o produtor tinha negligenciado um pouco a rotação de inseticidas, o que levou a populações de insetos resistentes aos principais inseticidas usados, que eram os mais baratos”, explica Bassanezi, que destaca que os citricultores procuram regiões com boa disponibilidade de água ou vão precisar usar a irrigação. “Para fugirem da temperatura alta no pegamento dos frutos no Mato Grosso do Sul, por exemplo, vão ter que antecipar a florada com irrigação e manter essa irrigação”, destaca.
A relevância do zoneamento é atestada por Danilo Yamane, da FortCitrus Consultoria e membro do Grupo de Consultores em Citros (GConci). “O trabalho da Embrapa tem sido bastante importante na seleção das áreas de expansão, com clima menos adverso e com condição mais adequada para o desenvolvimento da planta de citros. É uma informação estratégica bastante importante para mitigarmos o risco do investimento”, ressalta.
Para Yamane, os produtores enfrentam três desafios. “O primeiro é o clima. As condições são bastante diversas, caracterizadas por temperaturas muito altas, em que a planta de citros acaba não sendo adequada fisiologicamente, o que causa muitas vezes problemas. O segundo desafio seria a localização geográfica. São mais dificuldades logísticas, uma vez que não só o mercado consumidor da fruta fresca está em São Paulo, mas também praticamente todas as processadoras de suco, o que aumenta o custo do transporte. E o terceiro, a falta de mão de obra para trabalhar nas fazendas, inclusive na colheita, porque são áreas que não têm a laranja como cultura tradicional”, enumera.

Foto: Eduardo Girardi
Alinhamento aos ODS
O Zarc Citros está alinhado ao compromisso da Embrapa com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda mundial adotada durante a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em 2015, com a missão de construir e implementar políticas públicas que visam guiar a humanidade até 2030 (Agenda 2030). Atende, inicialmente, ao Objetivo número 2 “Fome zero e agricultura sustentável”, que consiste em erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável.

