Remineralizadores de Solo: importância para o manejo da fertilidade de solos agrícolas tropicais

Por Éder de Souza Martins, presidente do Conselho Técnico da ABREFEN e pesquisador da Embrapa Cerrados

Os Remineralizadores de Solo (REM) são insumos agrícolas derivados de rochas silicáticas ricas em bases (cálcio, magnésio e potássio), que passaram apenas por processos de diminuição de tamanho de partículas e, assim, fornecem nutrientes e elementos benéficos para a biota do solo e das plantas, melhoram a eficiência de uso de nutrientes do solo e contribuem com a formação de minerais com elevada superfície específica e capacidade de guardar nutrientes. O Brasil foi o primeiro país a regulamentar estes insumos por meio da Lei 12.890/2013 e da Instrução Normativa 05/2016 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

Os REM apresentam papel fundamental em recompor deficiências comuns em solos tropicais altamente intemperizados, como é o caso das bases e micronutrientes. Estes solos apresentam altas concentrações de alumínio trocável e baixas reservas de nutrientes. Os minerais presentes nos REM são transformados nos solos agrícolas, liberando os nutrientes desses insumos e aumentando a eficiência de uso de nutrientes que já estão no solo. Contribui, ainda, com o aumento do pH do solo, o que é relevante para diminuir o impacto do alumínio tóxico para o desenvolvimento das plantas que cultivamos.

O silício liberado dos REM reage com os minerais de ferro e de alumínio presentes no solo, aumentando a disponibilidade de fósforo ao solo e às plantas. Ao mesmo tempo, o silício acumulado no tecido das plantas aumenta a resistência contra pragas e doenças, melhora a arquitetura das plantas, regula a evapotranspiração e estimula o desenvolvimento de raízes.

Nos manejos de solos com baixas entradas de insumos, como é o caso da agricultura familiar, a reposição lenta promovida pelos REM é estratégica, criando uma base de fertilidade de longo prazo sem depender exclusivamente de fertilizantes sintéticos caros. A combinação com outros insumos locais e regionais, como estercos, pode ser integrada e utilizada na propriedade rural na forma de adubos e biofertilizantes pelo processo da compostagem e outros processos de fermentação.

Importante para a eficiência do manejo da fertilidade do solo é a manutenção deste sempre coberto por espécies de serviço, que fornecem e reciclam nutrientes, mantêm o solo protegido e realizam a disponibilidade de nutrientes por demanda das plantas de interesse para a produção de alimentos.

Milho safrinha produzido com REM. Foto: Quele Ribeiro Pereira

A escolha dos REM deve ser realizada pela disponibilidade destes insumos registrados no MAPA e, principalmente, pelas propriedades/características dos mesmos que podem ser observadas em sua análise química, física e mineralógica. A escolha de produtos registrados no MAPA garante a segurança de uso, uma vez que eles passam por processos rigorosos de avaliação, eliminando os riscos para o agricultor. Atualmente, estão disponíveis 105 produtos registrados no país em praticamente todos os estados. O uso, a partir de produtos locais e regionais, diminui os custos de transporte dos REM até as propriedades rurais.

A aplicação pode ser realizada a partir de 2 toneladas por hectare por ano da maioria dos tipos de REM, mas podem ser aplicadas doses maiores, a depender do produto, manejo e recomendação agronômica. Os manejos devem ser realizados pela demanda do solo e das culturas. A combinação com fontes orgânicas por meio de processos de fermentação é uma forma eficiente de fornecer nutrientes no curto, médio e longo prazo para o sistema produtivo.

Além dos benefícios para o produtor e para o solo, devido aos REM possuírem uma diversidade grande de micronutrientes, estes, em integração com o manejo do produtor, contribuem também para a melhoria da densidade nutricional dos alimentos, sendo potenciais biofortificadores naturais. Esta característica vem sendo estudada e é muito importante, principalmente quando falamos de agricultura familiar, que é a agricultura que abastece parte dos alimentos que levamos para as nossas mesas diariamente.

Cenouras cultivadas com remineralizadores. Foto: Quele Ribeiro Pereira

A melhor estratégia é desenvolver a integração dos REM no manejo da fertilidade pela aquisição coletiva realizada pelas associações e cooperativas dos agricultores. As práticas podem ser acompanhadas pelos agricultores junto com a extensão rural, para o desenvolvimento e otimização das práticas de manejo da fertilidade. Essa estratégia aumenta a sustentabilidade econômica deste processo, reduzindo os custos e aumentando a resiliência do manejo da fertilidade do solo. A diminuição das perdas de nutrientes pelo manejo integrado aumenta a quantidade e a estabilidade da matéria orgânica e melhora a eficiência de todo o processo de produção, com conservação ambiental.

Muito importante para o sucesso do manejo dos REM é o desenvolvimento de programas de extensão que ofereçam recomendações customizadas e acompanhamento dos resultados do manejo ao longo do tempo para permitir os ajustes e garantir um processo de construção e melhora da fertilidade do solo.

As políticas públicas de crédito subsidiado para acesso aos insumos regionais devem ser incentivadas para aumentar a resiliência da agricultura de base familiar, como é o caso do PRONAF, para favorecer as cadeias de valor sustentáveis.

Pode-se concluir que os REM são ferramentas valiosas no manejo sustentável da fertilidade em solos tropicais, sobretudo para a agricultura familiar. A seleção dos REM e das práticas de manejo integrados com outros insumos locais e regionais promove a recuperação de reservas minerais do solo, aumenta a resiliência das culturas e reduz a dependência de insumos externos. A adoção realizada pela assistência técnica e cooperação entre propriedades rurais é a melhor estratégia para o uso adequado destes insumos, fortalece as comunidades rurais e desenvolve alimentos saudáveis para toda a população.

Além disso, promove autonomia do agricultor e potencializa cadeias locais de produção de insumos naturais, fortalecendo as comunidades rurais.

Fontes de dados:

Remineralizadores de solo registrados: 

embrapa.br/macrologistica/sistema/logistica-de-nutrientes

Revista Novo Solo: abrefen.org.br/revista-novo-solo

Sobre o autor: 

  • Éder de Souza Martins é pesquisador da Embrapa Cerrados e presidente do Conselho Técnico da Associação Brasileira de Produtores de Remineralizadores de Solo e Fertilizantes Naturais (ABREFEN). E-mail: eder.martins@embrapa.br
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