Em meio à maior transformação do setor automotivo na história, o essencial é ter visão de futuro e foco

Por Igor Calvet, presidente da Anfavea

Nas últimas três décadas, o setor automotivo brasileiro passou por grandes mudanças, que antecederam as profundas transformações atualmente em curso. Vivenciamos a abertura comercial dos anos 1990, a consolidação da indústria nacional, a chegada de novos fabricantes, a internacionalização da produção, a digitalização dos processos e o avanço rumo à mobilidade conectada. Cada uma dessas etapas exigiu reinvenção, capacidade de adaptação e um forte compromisso com a sociedade brasileira.

Hoje, somos um dos maiores mercados e produtores de veículos e máquinas autopropulsadas do mundo. A indústria automotiva emprega diretamente mais de 120 mil pessoas e indiretamente outras 1,3 milhão, com participação relevante do PIB nacional. Mas o que nos trouxe até aqui não é suficiente para nos levar adiante. Os desafios do futuro exigem uma nova mentalidade.

Vivemos um momento de inflexão. A descarbonização da mobilidade, a digitalização dos veículos, a automação, os novos modelos de consumo e as mudanças no comportamento das novas gerações de consumidores estão redefinindo o papel da indústria automotiva. Em meio à maior transformação da história do setor e da mobilidade, muitas vezes é difícil enxergar o todo — mas é justamente nesse cenário de incertezas que precisamos manter clareza de propósito e visão de futuro.

Ao contrário de outros países, que caminham para a eletrificação total, o Brasil tem a chance de oferecer ao mundo um exemplo de solução limpa, acessível e viável. O etanol, o biodiesel, o HVO e outras fontes renováveis de energia nos colocam na vanguarda de uma transição energética justa, adaptada às realidades socioeconômicas e ambientais dos países de renda média, sem deixar de avançar na eletrificação da frota nacional.

O programa Mover representa um marco nesse sentido. Combinando incentivos à inovação com critérios ambientais, ele promove uma verdadeira reindustrialização verde, focada na competitividade e na sustentabilidade, desde a concepção dos veículos até a sua reciclagem. É uma política de Estado que oferece previsibilidade e horizonte para os investimentos — condição essencial para que a indústria automotiva continue gerando empregos, renda e desenvolvimento. O total de investimentos da cadeia já se aproxima de R$ 200 bilhões, incluindo as fabricantes de máquinas agrícolas.

No entanto, não podemos enfrentar esse futuro sozinhos. A transformação que se impõe exige uma forte articulação entre governo, setor privado e sociedade. Precisamos de infraestrutura para os novos modais, de políticas públicas integradas, de qualificação profissional e de segurança jurídica. Precisamos, sobretudo, de coragem para dialogar e construir soluções coletivas.

Nos próximos anos, será fundamental fortalecer as parcerias internacionais, ampliar nosso papel nas cadeias globais de valor e posicionar o Brasil como protagonista em inovação e sustentabilidade. Temos talentos, temos mercado, temos criatividade — e, acima de tudo, temos uma trajetória que nos dá credibilidade.

À frente da Anfavea, tenho guiado nossa atuação por um tripé claro: localização da produção para fortalecer a nossa cadeia como um todo; redução de custos para aumentar a competitividade; tecnologia para garantir inovação e sustentabilidade. É com esse compromisso que seguimos construindo o futuro da mobilidade, do transporte e da produção agrícola no Brasil.