‘Agricultura familiar é a espinha dorsal da estrutura econômica rural’

“Setor contribui de forma decisiva para a economia de pequenos municípios e para a segurança alimentar nacional. Segmento é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes”, declara Jorge Meza

A agricultura familiar é a forma predominante de produção alimentar e agrícola tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, sendo responsável por mais de 80% da produção mundial de alimentos em termos de valor. Atualmente, a agricultura enfrenta uma pressão crescente para fornecer alimentos suficientes, acessíveis e nutritivos para uma população em crescimento, além de lidar com as mudanças climáticas e a degradação dos recursos naturais, incluindo a escassez de água, o esgotamento do solo e a perda de biodiversidade. Para o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Meza, que é engenheiro florestal, especialista em Engenharia Econômica e máster em Silvicultura Tropical, os agricultores familiares – incluindo pastores, pescadores, silvicultores, povos indígenas e outros grupos de produtores de alimentos – são centrais no esforço para alcançar uma produção de alimentos suficientes, e cuidar ao mesmo tempo do meio ambiente. “Eles fornecem a maior parte dos alimentos do mundo, são os principais investidores na agricultura e a espinha dorsal da estrutura econômica rural”, declara.

Acrescentando que, a relevância da agricultura familiar se estende para além da simples produção de alimentos. Ela também está intrinsecamente ligada à preservação cultural, ao uso sustentável dos recursos naturais e à promoção da segurança alimentar. Em muitas regiões do Brasil, especialmente nas áreas mais vulneráveis, a agricultura familiar é a base da economia local e garante a subsistência de milhões de famílias. Por isso, destaca que, políticas públicas voltadas para o fortalecimento desse segmento são essenciais para assegurar a continuidade de um sistema agroalimentar inclusivo e sustentável.

Participação da agricultura familiar na produção de alimentos no país

No Brasil, país agroexportador, a produção da agricultura familiar é de cerca de R$ 107 bilhões, o que equivale a 23% de toda a produção agropecuária brasileira, segundo o Censo Agropecuário de 2017. 

Contudo, o representante da FAO no Brasil pontua que a agricultura familiar representa 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e é a responsável pela maior parte da produção de diversos produtos hortícolas e de algumas espécies frutíferas. No caso do morango, por exemplo, a agricultura familiar representa mais de 80% da produção; de uva para vinho e suco, 79,3%; de mandioca, 69%; de abacaxi, 67%; de leite, 64%; entre outros. Se trata de produtos diretamente consumidos pelas pessoas. 

“Além disso, a agricultura familiar emprega 67% da força de trabalho no setor agropecuário, o que equivale a mais de 10 milhões de pessoas, contribuindo de forma decisiva para a economia de pequenos municípios e para a segurança alimentar nacional. Esse segmento é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes”, complementa. 

Produzir alimentos preservando recursos hídricos é urgente e necessário 

Atualmente, o principal desafio na produção de alimentos é a necessidade de conciliar o aumento da produção e produtividade agrícola com a conservação dos recursos naturais. “A expansão agrícola tem levado à degradação do solo, à perda de biodiversidade e à contaminação de recursos hídricos, tornando urgente o melhoramento da produção, fazendo-a mais ambientalmente sustentável. Esse dilema é particularmente relevante no Brasil, onde a pressão por aumentar a produção para atender à demanda global de produtos agrícolas entra em conflito com a necessidade de preservar ecossistemas”, ressalta Jorge Meza.

O representante da FAO no Brasil destaca que, uma das soluções para esse entrave é a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como a agroecologia e a agricultura de baixo carbono. A rotação de culturas, o plantio direto e a integração lavoura-pecuária-floresta, por exemplo, são sistemas que contribuem para a melhoria da qualidade do solo, a conservação da água e a redução das emissões de gases de efeito estufa. “O uso de tecnologias inovadoras, como a agricultura de precisão, também pode ajudar a otimizar a utilização de recursos, reduzindo o impacto ambiental da produção agrícola. A agricultura familiar, com seu foco na sustentabilidade e na preservação de práticas tradicionais, combinados com desenvolvimentos tecnológicos, tem um papel central nesse processo”, explica.

Práticas agrícolas eficientes aumentam produção sem ampliar área agrícola

Outro dilema muito discutido no campo é a forma que o produtor pode adotar visando a ampliação da sua produção, sem a necessidade de expandir a área agrícola que, muitas vezes, não é possível para o pequeno produtor. Conforme o engenheiro florestal, especialista em Engenharia Econômica e máster em Silvicultura Tropical, Jorge Meza, é possível aumentar a produção de alimentos no Brasil sem expandir a área agrícola atual. Entretanto, isso envolve a ampliação da produtividade através de práticas agrícolas mais eficientes. “O uso de sementes melhoradas, irrigação de precisão, e o manejo integrado de pragas são exemplos de como a produtividade pode ser incrementada sem expandir a área cultivada. Outra estratégia é a diversificação das culturas e a integração de sistemas produtivos, que permitem o uso mais eficiente da terra ao combinar diferentes atividades agrícolas em uma mesma área, aumentando a produtividade e reduzindo os riscos associados à monocultura”, diz. 

Propriedade no interior do RS concilia a criação de ovinos com o cultivo de milho e sorgo. Foto: Divulgação/ Daniel de Bastos

Acrescentando ainda que, outra atividade que deve ser implementada para incrementar a produção sem necessariamente ampliar a fronteira agrícola é a recuperação de terras degradas, que no mundo alcançam uma superfície equivalente a um terço do total de terras agrícolas disponíveis. Isso implica a aplicação de investimentos e tecnologia.

“A educação e a formação técnica em práticas agrícolas sustentáveis, associadas ao acesso a financiamento e mercados, podem capacitar os produtores a adotar métodos mais produtivos e ecológicos. A FAO continua fomentando cooperação para a implementação de políticas públicas que promovam a agricultura sustentável, tanto no Brasil como no mundo, para que seja possível aumentar a produção de alimentos sem a necessidade de expandir a área agrícola, afetando importantes ecossistemas naturais que provêm serviços ecossistêmicos importantes para à própria produção agrícola e o bem-estar da população”, declara.

País ocupa posição de liderança na produção de diversos alimentos

O Brasil é um dos principais produtores e exportadores de uma variedade de produtos agrícolas. O país se destaca pela sua capacidade produtiva, resultado de fatores como a extensão territorial, diversidade de climas, e investimentos em tecnologias agrícolas. Isso permite, segundo o representante da FAO, que o Brasil ocupe uma posição de liderança na produção de alimentos e de diversas commodities agrícolas, garantindo não só o abastecimento interno, mas também contribuindo para a segurança alimentar mundial.

Ele explica que, em termos de quantidade, o Brasil é o maior produtor mundial de soja, responsável por cerca de um terço da produção global desse grão, utilizado tanto para a alimentação animal quanto para a produção de óleo vegetal. Além disso, o país lidera a produção de café, sendo responsável por aproximadamente 40% do café consumido no mundo. A produção de carne bovina também é notável, com o Brasil sendo o maior exportador mundial. Outros alimentos que merecem destaque na produção brasileira incluem a cana-de-açúcar e o milho, sendo o país o maior produtor e exportador para o primeiro produto (incluindo o etanol), e o segundo maior produtor global para o segundo produto. Esses produtos, juntamente com o algodão e o suco de laranja, consolidam a posição do Brasil como um dos principais celeiros do mundo. 

Adoção de medidas busca retorno e a permanência dos jovens na área rural 

Jorge Meza afirma que a FAO atesta o papel crucial da agricultura familiar na produção de alimentos, na preservação das práticas culturais e na promoção do desenvolvimento sustentável nas áreas rurais. Essa forma de agricultura contribui tanto para a segurança alimentar e nutricional do país, como para a conservação da biodiversidade e para a gestão sustentável dos recursos naturais.

E, a saída de jovens do campo é uma preocupação expressa pela FAO, que reconhece os riscos associados ao “envelhecimento da população rural” e à consequente redução da força de trabalho disponível para a agricultura familiar. “Esse êxodo é frequentemente motivado pela busca de melhores oportunidades educacionais e profissionais nas áreas urbanas. Quando há um retorno desses jovens ao campo, com qualificação agropecuária, eles podem se tornar agentes de mudança, introduzindo práticas agrícolas mais sustentáveis e eficientes, além de promoverem a inclusão social e o desenvolvimento econômico nas comunidades rurais. O retorno desses jovens ao campo é uma oportunidade para revitalizar as áreas rurais e garantir a continuidade da agricultura familiar no Brasil”, salienta.

E acrescenta que “temos que fazer que o retorno e a permanência dos jovens na área rural sejam possíveis. Para isso, é necessário levar os serviços da cidade ao meio rural, como a educação contínua, a saúde, meios de transporte, atividades culturais, opções esportivas, conectividade digital, entre outros. Os países deveriam estabelecer incentivos para o jovem empresário rural”.

Representante da FAO no Brasil, Jorge Meza. Foto: Divulgação

O papel da FAO na produção de alimentos

A FAO tem trabalhado junto aos países membros para transformar os sistemas agroalimentares para que sejam mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis. De acordo com Jorge Meza, o objetivo é alcançar uma melhor produção, melhor nutrição, melhor meio ambiente e melhor qualidade de vida, sem deixar ninguém para trás. 

“A partir destas áreas de atuação, considerando que o Brasil é um país continental com uma elevada capacidade técnica produtiva em comparação com outros países no mundo, a FAO se concentra na cooperação para o fortalecimento de políticas públicas para o acesso aos alimentos saudáveis, combate à fome e erradicação da pobreza; bem como para promover uma agricultura mais sustentável na perspectiva ambiental”. 

Neste sentido, a organização promove a troca de experiências e o compartilhamento de inovações entre diferentes regiões, países e atores envolvidos na produção agrícola, gerando maior acesso a tecnologias e práticas de cultivo. “Ao apoiar a agricultura familiar e fomentar políticas que visam integrar pequenos produtores no mercado, a FAO contribui para a redução das desigualdades sociais e para a melhoria da qualidade de vida das populações mais pobres”, declara. 

E informa ainda que, a organização também apoia a gestão compartilhada dos recursos naturais e a conservação da sociobiodiversidade, que são essenciais para a manutenção de um sistema agrícola sustentável que respeite o meio ambiente e as comunidades locais.