Prensa artesanal facilita extração do óleo de andiroba

O processo tradicional de extração do óleo de andiroba pode ter o tempo de preparo reduzido de semanas para alguns minutos com o uso de uma prensa artesanal. O equipamento, desenvolvido pela Embrapa Amapá e aprimorado pela startup Inova Manejo, não necessita de eletricidade para funcionar e exige pouco esforço físico para ser operado.

A inovação foi apresentada em curso sobre boas práticas para a extração de óleo de andiroba, no Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, em Nova Ipixuna (PA), no mês de junho/2024. “É uma diferença de tempo muito grande. Estamos ansiosas para contar com essa prensa na próxima safra da andiroba”, disse Claudecir dos Santos. Ela integra o Grupo de Trabalhadoras Artesanais e Extrativistas (GTAE), que utiliza o óleo de andiroba na produção artesanal de sabonetes, cremes hidratantes e repelentes.

Segundo Claudecir, no processo que ela aprendeu com sua avó, do cozimento das sementes até o momento em que o óleo começa a escorrer, podem se passar cerca de 30 dias. “Vai mudar muito o nosso trabalho, que é bem difícil”, conclui.

Boas práticas

Além do uso da prensa, um conjunto de boas práticas devem ser adotadas para garantir a qualidade do óleo. Antes de serem prensadas, as sementes devem passar por um processo de secagem para reduzir a umidade, pois o excesso de água favorece a degradação e proliferação de microrganismos. Para a secagem, é indicado um secador solar artesanal. “Monitorando as sementes com uma balança portátil, é possível saber o momento em que o teor de umidade está adequado, pois elas se tornam mais leves”, explica o pesquisador Marcelino Guedes, da Embrapa Amapá.

O uso da prensa também favorece a obtenção de um óleo de melhor qualidade, além do ganho de tempo. “Como as sementes não passam pelo processo de cozimento, que eleva a temperatura, o índice de acidez do óleo é reduzido e atende aos parâmetros estabelecidos pela Anvisa”, afirma Guedes. De acordo com o pesquisador, outro fator que eleva a qualidade é que, ao ser prensado, o óleo só tem contato com o aço inox da prensa e da bandeja. “É uma superfície inerte e de fácil higienização”, afirma.

O custo do equipamento gira em torno de R$4 mil, mas pode ser minorado se a madeira de sua estrutura for coletada na própria comunidade. Originalmente, a prensa artesanal foi projetada para extração de óleo de pracaxi, mas vem sendo testada com sucesso no processamento de outras sementes, entre elas a andiroba.

Método tradicional não deve ser esquecido

A andirobeira é uma árvore de grande porte, nativa da Amazônia, e cada fruto, em formato de ouriço, libera de sete a nove sementes. No processo tradicional de extração do óleo, as sementes são cozinhadas, passam algumas semanas em repouso e depois são abertas.

Na etapa seguinte, a massa oleosa de seu interior é amassada em formato de bola e colocada em um plano inclinado, conhecido como “bica”. Ali, de cada bola, o óleo brota em um lento processo e escorre até um recipiente.

Já com a prensa artesanal, as sementes não passam pelo cozimento. Depois de limpas, secas e trituradas, a massa é colocada na prensa e o óleo é extraído em alguns minutos.

Apesar do ganho de tempo e de qualidade nos parâmetros exigidos pela indústria, Guedes entende que o método tradicional não deve ser esquecido. “Já há evidências científicas as quais sugerem que, para o uso medicinal, o óleo produzido na forma tradicional pode ser melhor que o óleo extraído na prensa”, explica

Atenção com a floresta

A capacitação na qual foi apresentada a prensa artesanal, em Nova Ipixuna (PA), foi uma ação do projeto Sociobioeconomia da Andiroba, desenvolvido pela Embrapa Amazônia Oriental com recursos da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas. A iniciativa busca a melhoria dos processos de manejo, coleta de sementes e práticas silviculturais da andiroba no PAEX Praialta-Piranheira.

Além das boas práticas para o processamento do óleo de andiroba, o projeto busca também a sustentabilidade da espécie que fornece a matéria-prima. As andirobeiras do assentamento vem sendo inventariadas e monitoradas em sua produção.

De acordo com a pesquisadora Michelliny Bentes, da Embrapa Amazônia Oriental, os primeiros dados apontam para uma distribuição irregular da espécie na floresta e ausência de indivíduos mais jovens. Em razão disso, uma das atividades do projeto será o plantio de mudas de andiroba. “Antes de tudo, deve haver o cuidado com a floresta, mediante o manejo florestal sustentável”, conclui.

Vinicius Soares Braga
Embrapa Amazônia Oriental