Em abril de 2024, a Embrapa Alimentos e Territórios lançou o jogo Caatinga Viva, na Escola Intermediária Monsenhor Olímpio Torres, uma escola indígena localizada na Aldeia Cimbres, município de Pesqueira, no agreste de Pernambuco. O jogo foi inspirado no prêmio Sistemas Agrícolas Tradicionais (SAT) do Semiárido, realizado no âmbito do Projeto Dom Helder Câmara (PDHC II).
Esse prêmio reconheceu o povo Xukuru de Ororubá pela iniciativa Cosmonucleação Regenerativa” proposta pelo coletivo de agricultura Jupago Kreká, que cuida dos processos de regeneração da mata nativa e das discussões sobre a agricultura sagrada a partir da cultura de encantamento. “O Jupago promove experiências sustentáveis, atento às relações entre o uso e ocupação territorial, e sua fidelidade ao mundo velho (Limolaygo Toype), filosofia de vida Xukuru, na busca do Bem Viver”, explicou o Xukuru Iran Neves Ordonio, membro do coletivo.
O jogo Caatinga Viva propõe uma reflexão sobre os territórios onde os SATs estão inseridos, designados como Terra Indígena, Assentamento de Reforma Agrária, Comunidade de Fundo de Pasto e Terra de Quilombo. Algumas cartas trazem as ameaças que atingem esses territórios, como o desmatamento, as barragens, mudanças climáticas, transgênicos, grilagem e mineração. Vence o jogo quem consegue reunir as cartas de um mesmo território, conquistadas com as cartas bônus Convivência com a Caatinga e Sistema Agrícola Tradicional.
“O objetivo central do jogo é despertar a consciência ambiental nas crianças por meio da valorização da diversidade dos modos de conviver com a Caatinga e dos modos de vida de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais”, explicou o analista da Embrapa Alimentos e Territórios, Fabrício Bianchini.

Estudantes de duas turmas do ensino fundamental se reuniram na quadra poliesportiva para jogar em grupos. Eles também tiveram a oportunidade de conversar com a pesquisadora da Embrapa Patrícia Bustamante sobre as características que formam um SAT e sobre os Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (Giahs, na sigla em inglês) que existem em todo o mundo e são reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
“Os SATs nos contam histórias fascinantes sobre a forma como os seres humanos se organizaram e se adaptaram para viver por gerações em ambientes diversos e garantir sua segurança alimentar”, ressaltou a pesquisadora. Ela destacou os seis pilares que compõem um SAT: Segurança Alimentar, Biodiversidade, Conhecimento Tradicional, Manifestação Cultural, Paisagem Sustentável e Cultura Alimentar.
“As cartas bônus trazem a ideia de que as estratégias de convivência com o Semiárido podem ajudar a construir futuros melhores para os povos e comunidades da Caatinga. Somos resistência, por isso nos identificamos”, afirmou a coordenadora pedagógica da escola, Edilma Gonçalves.
Atualmente, o coletivo promove processos que possibilitam a identificação de experiências sustentáveis entre as famílias indígenas, a sistematização dessas práticas e a socialização dos resultados entre as aldeias e comunidades, trabalhando conhecimentos nas área da saúde, medicina tradicional, alimentação, técnicas locais de regeneração ambiental, valorização dos conhecimentos das mulheres e dos anciãos, e a passagem de conhecimento para os mais jovens.
“Nosso processo foi desenvolvido a partir das bases de conhecimento ancestral da agricultura Xukuru, a cosmonucleação regenerativa, sistema agrícola tradicional que valoriza a todos os seres que compõem o cosmos em relações. O coletivo atua no território tradicional do povo Xukuru do Ororubá, valorizando as histórias da ancestralidade enquanto povo originário”, acrescentou o indígena Iran Xukuru.
Irene Santana
Embrapa Alimentos e Territórios

