Sistemas agroflorestais ajudam a mitigar emissão de gases de efeito estufa no Semiárido brasileiro

A adoção de práticas de manejo conservacionistas no bioma Caatinga, a exemplo de sistemas agroflorestais, não apenas ajuda a manter estoque de carbono no solo, mas a longo prazo, promove seu aumento em comparação ao observado na vegetação natural, contribuindo para a mitigação da emissão de gases de efeito estufa. Esta é a principal conclusão do estudo realizado na Embrapa Caprinos e Ovinos, cujos resultados foram publicados pelo Journal of Environmental Management, da editora Elsevier.

Utilizando dados de um experimento de longa duração (25 anos) implantado em Sobral (CE), no Semiárido brasileiro, e o modelo Century, software que simula a dinâmica da matéria orgânica no solo, o estudo comparou práticas agrícolas tradicionalmente utilizadas na região (com uso itinerante da terra, desmatamento e queima) aos sistemas agroflorestais utilizando diferentes períodos de pousio (zero, sete, quinze, trinta, cinquenta e cem anos). “No bioma Caatinga, o sistema de corte e queima sem pousio reduz em 50% os estoques de carbono do solo nos primeiros dez anos de cultivo, e sua recuperação aos níveis iniciais só será possível após 50 anos de pousio. Os sistemas agroflorestais são alternativas sustentáveis para recuperar e aumentar os estoques de carbono do solo de forma mais rápida e sem a necessidade de longos períodos de pousio. A rotação de diferentes tipos de sistemas agroflorestais parece também ser uma boa alternativa para proporcionar maior sequestro de carbono no solo”, explica a bióloga Anaclaudia Alves Primo, doutora em Ecologia e Recursos Naturais, que conduziu o trabalho de pesquisa na Embrapa Caprinos e Ovinos. 

Na região semiárida, a maioria dos agricultores maneja a terra de forma intensiva, com o corte e a queima da vegetação para plantio de culturas anuais como milho e feijão. Após dois anos, esse espaço é deixado em pousio ou utilizado para pastejo dos rebanhos, o que pode acelerar o processo de desertificação. Em seguida, os agricultores partem para o desmatamento de outra área que será explorada da mesma maneira. De acordo com relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mudanças no uso da terra podem promover o armazenamento de maiores índices de carbono no solo, por isso são importantes os estudos sobre diferentes práticas de manejo e a forma como afetam essa dinâmica.  

A bióloga explica que o carbono é um componente vital para os solos, pois desempenha um papel fundamental no funcionamento dos ecossistemas terrestres.  Ele está disponível na atmosfera como dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases emitidos durante as ações antrópicas (atividades realizadas pelo ser humano), e sua elevação na atmosfera contribui para o aumento do efeito estufa e para o aquecimento global. “Por isso é importante que ele permaneça no solo, quando você faz um manejo que corta a vegetação e queima, todo o carbono que faz parte da estrutura das plantas e todo o carbono do solo será emitido na forma de CO2 . Por outro lado, quando você adota práticas de cultivo alternativas, como por exemplo os sistemas agroflorestais, que não desmatam totalmente a vegetação nem utilizam fogo; ou ainda quando você adota pousio entre os cultivos, você estará preservando o carbono. Dessa forma, os estudos relacionados a adoção de práticas de manejo que busquem a conservação e preservação do carbono no solo contribuem para a mitigação das mudanças climáticas globais”, assegura. 

Metodologia

A pesquisa utilizou o modelo de simulação Century para prever e comparar a dinâmica temporal do carbono orgânico no solo no manejo tradicional de corte e queima e em diferentes tipos de sistemas agroflorestais no Semiárido até o ano de 2100. O local de realização do estudo foi a Fazenda Crioula, na Embrapa Caprinos e Ovinos, com dados de um experimento instalado em 1997, formado originalmente por três modelos de sistemas. O primeiro é o manejo tradicional, que promove corte e queima da vegetação nativa e o plantio de culturas anuais durante dois anos e posterior mudança para uma nova parcela de terra onde as mesmas práticas serão adotadas. O outro sistema é o agrossilvipastoril no qual o milho e o sorgo são plantados em “corredores” formados por leucena e gliricídia, que não pertencem originalmente à vegetação da Caatinga, mas estão bem adaptadas e servem de alimento para os animais, que também fazem parte do modelo. O terceiro sistema é o silvipastoril, que consiste em uma área de Caatinga raleada e rebaixada utilizada para o pastejo de caprinos e ovinos. Uma área de vegetação natural da Caatinga não manejada foi utilizada como referência. 

Primo explica que, para a utilização do modelo Century, inicialmente foram utilizados arquivos calibrados para a vegetação da Caatinga e disponibilizados por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que já haviam feito essa calibração para esse bioma. E partir daí, foram inseridos os dados da região do experimento, que é a etapa de parametrização do modelo. “Em seguida, nós preparamos os arquivos de entrada: um contendo dados de solo (textura, densidade, pH) e clima (precipitação, temperaturas máxima e mínima); e outro arquivo com os diferentes tipos de manejo (cultivo tradicional intensivo, cultivo tradicional de corte e queima com diferentes tempos de pousio e os sistemas agroflorestais fixo e rotativo). Após a inserção dos arquivos, ‘rodamos’ cada cenário separado para observarmos o que acontece com o estoque de carbono em cada prática de manejo diferente, ao longo de 100 anos.  Depois de cada simulação dos cenários, nós comparamos as informações simuladas pelo modelo Century com aquelas obtidas a campo”.

Principais resultados

A pesquisa simulou cenários para os sistemas agroflorestais, com redução da cobertura vegetal e manejo permanente e rotativo; e para a área com prática de corte e queima, com diferentes períodos de pousio, fazendo projeções para os próximos 100 anos. Os resultados apontam que no cultivo com corte e queima as perdas de carbono no solo diminuíram de 74,7% (com manejo sem pousio) para 28,7%, adotando-se sete anos de pousio da terra após o cultivo.  A adoção de maiores períodos de pousio aumenta o estoque de carbono no solo, mas somente após 30 anos de descanso, o percentual se iguala aos valores da vegetação natural; e 50 anos de pousio leva a um aumento de 4% dos estoques de carbono, comparando-se à vegetação natural em equilíbrio.  Segundo o estudo, o período de 20 anos de pousio da terra, sugerido pelo IPCC como o tempo necessário para a recuperação dos estoques de carbono, pode não ser o mais adequado para o Semiárido brasileiro. 

Nos sistemas agroflorestais, foram feitas simulações tanto no manejo permanente quanto no rotativo, comparando com a vegetação natural em equilíbrio e com o sistema de corte e queima adotando o pousio por sete anos. Os resultados indicam que os estoques foram maiores nos sistemas agroflorestais, permanente e rotativo, comparando-os com a vegetação natural. Mesmo tendo iniciado com valores iguais, com o passar do tempo, o sistema rotativo apresentou valores superiores ao sistema permanente.  No manejo agrossilvipastoril, ocorre remoção de carbono quando da colheita de milho ou feijão plantado na área, mas essa retirada é compensada pela adição de esterco dos animais e restos das plantas cultivadas, além da vegetação permanente e serapilheira.  No silvipastoril, o carbono no solo aumenta em virtude da deposição no solo de materiais vegetais (restos de árvores e folhas, esterco de animais). O desbaste de 60% das árvores do sistema aumenta a luminosidade e favorece o desenvolvimento da vegetação mais próxima ao solo, maior acúmulo de serapilheira (camada de folhas secas, galhos, restos de frutas, flores e animais mortos que está na superfície do solo), o que ajuda no aumento do percentual de carbono.

“Os sistemas agroflorestais podem ser utilizados como sumidouros de carbono (locais em que as absorções de CO₂ são maiores do que as emissões) na região semiárida, que apresenta níveis avançados de degradação, principalmente em virtude da atividade humana”, explica Anaclaudia Primo.  Ela também afirma que o desenvolvimento social da região é afetado pela destruição ambiental, porque compromete a produção de alimentos e a geração de energia, deixando as populações locais em situação de vulnerabilidade. 

O zootecnista da Embrapa Caprinos e Ovinos, Éden Fernandes, acredita que as descobertas dessa pesquisa têm utilidade direta para os agricultores que trabalham no Semiárido, porque demonstra que a decisão por uma forma sustentável de uso da terra pode ser a garantia da continuidade de suas práticas de manejo, sem a necessidade de constantes deslocamentos para plantios agrícolas e ou criação dos rebanhos. Fernandes ressalta que outra vantagem para os agricultores da região, que já adotam esses sistemas, é que suas terras não precisarão de longos períodos de repouso. “Ou seja, quem já usa sistemas agroflorestais pode ficar mais seguro sobre o que acontecerá no futuro em termos de cuidados que sua terra necessitará para continuar produzindo, além de estarem contribuindo para diminuir os efeitos do calor no planeta”, conclui. 

Adriana Brandão