Por: Jerri Édson Zilli e Luís Henrique de Barros Soares
O Brasil vem paulatinamente aumentando sua participação global na produção agropecuária, figurando como um dos principais fornecedores de grãos, fibras, proteína animal, energia e outros produtos derivados, oriundos de diversas cadeias produtivas. Em pouco mais de cinco décadas, o país passou de importador para um dos principais e mais seguros supridores de alimentos ao mundo, estimando-se que produza cinco vezes mais do que necessite. Vale lembrar que, em 2015, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) considerou que a produção agropecuária brasileira necessitava crescer em 40% até 2050 para atender a ainda crescente demanda por alimentos no mundo.
A produção total da agropecuária brasileira foi estimada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com crescimento de cerca de 400 vezes entre 1975 e 2020. Especificamente a produção de grãos nacional, nesse período, cresceu seis vezes, segundo dados da Embrapa, enquanto a área plantada aumentou apenas duas vezes, o que mostra aumento de produtividade das culturas e maior eficiência no campo. Todavia, dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, nos últimos 10 anos, a produção de gêneros alimentícios para consumo interno, como arroz, feijão, batata inglesa, trigo e banana, está relativamente estável.
Inúmeros foram os avanços tecnológicos para que este impressionante resultado fosse possível, desde o melhoramento genético e a ciência para preparo do solo até o maior uso de defensivos agrícolas e de outros insumos benéficos às plantas. Mas, infelizmente, também emergem a catastrófica situação do desmatamento irregular, ainda fortemente presente no país, e o uso excessivo de insumos químicos, sobretudo herbicidas, fungicidas e inseticidas.
Inevitavelmente, a atividade agrícola, assim como outras atividades antrópicas, causa impactos ao meio ambiente, em maior ou menor grau. Felizmente, o Brasil também mostrou habilidade no desenvolvimento de práticas agrícolas que reduzem esses impactos e que têm possibilitado mais sustentabilidade no campo. São exemplos o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o uso de inoculantes contendo microrganismos fixadores de nitrogênio, entre tantas outras.
É fato que os recursos naturais, como solo, água e diversos outros, indispensáveis para a vida no planeta, estão cada vez mais ameaçados, exigindo de nós pensarmos em reduzir o impacto da ação humana, o que inclui uma agricultura também de menor impacto. Aí podemos começar a virar a página da história, procurando aproveitar melhor o conhecimento científico acumulado sobre benefícios dos insumos biológicos em complementação e substituição aos xenobióticos agroquímicos.
Cabe destacar que não se trata de uma “caça às bruxas” aos agroquímicos, que ajudam as árduas atividades do campo. Tampouco significa dizer que agora vamos passar a utilizar apenas os bioinsumos. Estes são pesquisados no Brasil há praticamente um século, com relatos de uso desde a década de 1930 no controle biológico.
Vale lembrar, ainda, que em 2024 celebra-se o centenário de nascimento da pesquisadora Johanna Döbereiner, muito lembrada nos dias de hoje como a patrona dos bioinsumos no país, não só pelas suas pesquisas na área de fixação biológica de nitrogênio, mas também pela liderança e luta árdua para convencer os tomadores de decisões das décadas passadas a permitirem a recomendação desses produtos. A ela juntaram-se diversos outros cientistas, que pouco eram ouvidos até tempos recentes.
Quando se fala em benefícios de uma agricultura baseada no uso efetivo de insumos biológicos, não há como se esquecer dos ganhos econômicos advindos da fixação biológica de nitrogênio (FBN) no país, que é estimada em mais de US$ 15 bilhões anualmente.

Indo além da FBN, é agradável perceber o interesse dos produtores rurais pelos bioinsumos, o que se caracteriza por aumento de demanda e interesse de indústrias tradicionais e também novatas na busca de novos produtos. Em pouco mais de 10 anos, houve um aumento de 12 para cerca de 200 estabelecimentos produtores de insumos biológicos, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Hoje, estão registrados no Mapa mais de mil produtos biológicos no país, cerca de 50% como inoculantes promotores de crescimento de plantas e 50% para controle de pragas e doenças.
Com mil produtos registrados, então, os problemas na agricultura estão resolvidos? Infelizmente não. A grande maioria dos produtos destina-se apenas à cultura da soja, e há uma tremenda redundância de funções dos produtos, ou seja, produtos de empresas diferentes com as mesmas cepas microbianas e mesmas funções. Também há uma carência muito grande de conhecimento da funcionalidade dos produtos biológicos, além de informações sobre como armazenar, como transportar, como usar. Ou seja, há muita desinformação e, por outro lado, interesse de vendedores aproveitando o momento fértil. É preciso criar conhecimentos, formar profissionais, preparar orientações técnicas apropriadas, melhorar o arcabouço legal, desenvolver novos produtos, e posicioná-los adequadamente.
Muitos são os benefícios que podemos ter com os bioinsumos, seja substituindo os produtos químicos, seja com uso integrado, em complementariedade. Os resultados esperados podem vir de forma imediata, como a FBN, mas também com melhorias no ambiente solo ao longo do tempo, devido ao menor impacto sobre organismos não-alvo, o que eleva a biodiversidade ambiental e aumenta a resiliência dos sistemas.
Combio: Novo inoculante para a cultura da soja
Uma nova visão de desenvolvimento de produtos com múltiplas funções pode ser um bom caminho a trilhar. Resultado de uma parceria da Embrapa com a empresa Innova Agrotecnologia, o Combio possui as funções de estimulação de crescimento das plantas de soja e proteção contra o ataque de fungos. O produto é uma combinação de três bactérias benéficas: BR 29 (Bradyrhizobium elkanii), BR 10788 (Bacillus subtilis) e BR 10141 (Paraburkholderia nodosa).


O novo inoculante diferencia-se por conter bactérias que atuam na fixação biológica de nitrogênio, estimulam o crescimento das plantas e protegem as sementes de ataques fúngicos na fase de emergência, promovendo mais vigor e uniformidade das plântulas de soja. Testes de campo mostraram um aumento significativo da nodulação e cerca de 10% no rendimento de grãos, mesmo em condições adversas. B. subtilis e P. nodosa, combinados ao Bradyrhizobium, mostraram potencial superior ao inoculante tradicional, promovendo melhor nodulação e sanidade das plantas.
*Jerri Édson Zilli é pesquisador da Embrapa Agrobiologia, em Seropédica, RJ, e Luís Henrique de Barros Soares é pesquisador da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, RS

