Por: Felipe Albuquerque, diretor de Sustentabilidade da divisão agrícola da Bayer para América Latina
Entramos na era da ebulição climática, segundo recente alerta da ONU, em que a aceleração do aquecimento da Terra contribui para a intensificação de eventos climáticos extremos. Nesse cenário, um movimento impulsionado por diferentes atores concorda com a necessidade de colocar em prática uma palavra: descarbonizar. E se há um setor com potencial de retirar carbono da atmosfera é aquele que está intrinsecamente ligado ao solo, a agricultura.
Temos avançado na compreensão da relação entre práticas regenerativas e o sequestro de carbono no cultivo de grãos. O Brasil, com toda sua riqueza de biomas, foi pioneiro em adotar a técnica do plantio direto na década de 1970 e, desde então, agricultores de todas as regiões têm apostado em técnicas para tornar a lavoura mais saudável, por meio da rotação de culturas e do uso de plantas de cobertura, aumentando a matéria orgânica no solo.
Pensando em apoiá-los nessa jornada, a Bayer e seus parceiros criaram o maior programa de carbono do agro brasileiro, o PRO Carbono. O objetivo é apoiar agricultores na intensificação de práticas de manejo conservacionistas com potencial de aumentar a produtividade e o sequestro de carbono.
Com o apoio de um time de experts acadêmicos e pesquisadores, mais de 1.900 produtores e 300 mil amostras de solo coletadas, temos conseguido auxiliar os produtores na transformação de uma agricultura cada vez mais sustentável com práticas regenerativas e menos emissão de carbono. Estamos ajudando a construir as bases para um ecossistema que irá beneficiar não só os agricultores, mas toda a cadeia, comprovando que é possível produzir mais em um mesmo hectare, devolvendo benefícios à natureza, por meio da agricultura regenerativa.
Hoje sabemos que um solo saudável cria resiliência a eventos extremos e estoca mais carbono em comparação a um solo exaurido, o que tem efeito positivo sobre a estabilização do clima em nível local. Isso permite conciliar produtividade, estabilidade, otimização no uso de recursos naturais, além de gerar impactos positivos para o meio ambiente e para as comunidades. Todos estes efeitos ambientais são positivos também para o produtor do ponto de vista econômico e no futuro criarão oportunidades em um mercado cada vez mais preocupado em conectar todas as pontas da cadeia de produção. Até aqui já conseguimos mensurar um ganho médio de mais de 11% de produtividade e 16% de sequestro de carbono entre os agricultores participantes ao longo de três safras.
O desenvolvimento de lastro científico tem sido um dos principais focos nos últimos anos. Um dos principais desafios envolve definir um novo padrão para os processos de monitoramento, relatório e verificação (MRV) do carbono no solo dentro da realidade da agricultura tropical e que seja validado pelo mercado. Dessa forma, em parceria com Embrapa, anunciamos o desenvolvimento da calculadora Footprint PRO Carbono. Baseada em uma metodologia com reconhecimento internacional, a avaliação do ciclo de vida (ACV), a ferramenta calcula a pegada de carbono de produtos agrícolas em sistema de produção tropicais, incluindo as culturas de soja e de milho.
A partir dessa tecnologia, e pensando em integrar diferentes elos da indústria, lançamos em 2023 o PRO Carbono Commodities, no qual mensuramos a pegada de carbono na produção de 10 agricultores localizados nos biomas do Cerrado e da Amazônia. Dessa forma, foi possível entregar a primeira carga de soja com pegada de carbono mensurada e livre de desmatamento, com transparência e rastreabilidade de informações.
A partir de agora, o PRO Carbono entra em uma nova fase. Temos como prioridade aprofundar ainda mais a adoção dessas práticas de agricultura regenerativa. Nossa expectativa é ampliar as áreas participantes no programa para cerca de 1 milhão de hectares, indo além do foco em sequestro de CO2 no solo. Estamos criando as bases para apoiar toda a indústria a alcançar suas metas de descarbonização, ao mesmo tempo em que ajudamos os agricultores a se prepararem para ingressar no ecossistema de carbono no futuro.
Enquanto isso, cada um pode fazer a sua parte, das pequenas às grandes propriedades, ao experimentar práticas regenerativas, pensando na saúde da lavoura a longo prazo. Olhar para cada talhão como um ecossistema próprio, entendendo como cada peça contribui para um todo mais equilibrado é a chave para que os produtores sejam agentes de transformação frente aos desafios de alimentar uma população mundial crescente, ao mesmo tempo em que regeneram o meio ambiente.

