Macaúba: alternativa para a produção de óleo no Brasil

A crescente demanda por óleos vegetais e biomassas para usos industriais, por serem produtos renováveis e, na maioria das vezes, também biodegradáveis, está fazendo com que a macaúba se torne uma opção sustentável para a produção dessas matérias-primas no Brasil. 

Palmeira rústica e nativa no território brasileiro, a macaúba pode atingir 20 metros de altura com troncos de 20 a 30 cm de diâmetro. A espécie ocorre nos Cerrados, no Pantanal, na Mata Atlântica, na Amazônia e também em áreas mais áridas, como nas bordas do semiárido brasileiro. Pode ser encontrada desde o sul da Flórida (EUA) até o norte da Argentina, estando amplamente distribuída em toda América Tropical. 

“Isso mostra a amplitude de território onde podemos estabelecer cultivos organizados dessa espécie”, disse a pesquisadora Simone Favaro, da Embrapa Agroenergia. 

Segundo a pesquisadora, a macaúba apresenta expressiva produção de óleo e as biomassas provenientes da palmeira podem ser convertidas em bioprodutos ou insumos para uso agrícolas ou para outras aplicações.

Planta da Macaúba. Foto: Zineb Benchekchou

De acordo com Favaro, há dois tipos de óleos diferentes na macaúba, da amêndoa e da polpa, e um mercado potencial diferenciado para esses produtos, nas áreas alimentícia, de cosméticos e também na área de saúde. A planta também se destaca como promissora fonte de óleo para o biodiesel e a bioquerosene. 

Outro aspecto importante na cultura da macaúba é que até hoje não se verificou compostos antinutricionais limitantes para o seu consumo. Por exemplo, o farelo de soja deve ser tostado para eliminação dos chamados inibidores de proteases, caso contrário o animal terá problemas no seu consumo, enquanto o farelo de macaúba é naturalmente isento desses compostos.

Também na composição de aminoácidos, que são as substâncias componentes das proteínas, a macaúba leva vantagem, por não ter a limitação dos chamados aminoácidos sulfurados. Na soja, que hoje é a principal fonte de proteína vegetal consumida no mundo, geralmente é feita uma complementação com esses aminoácidos para ofertar aos animais, ou até mesmo para o consumo humano, uma proteína de boa qualidade. 

Ácidos graxos

Outra característica importante da macaúba está relacionada à qualidade do óleo, como resultado de maiores quantidades de ácidos graxos de cadeia média, no óleo proveniente da amêndoa da macaúba. Vários relatos na literatura científica associam a incorporação desses ácidos graxos a uma dieta para pessoas portadoras de diabetes ou de gordura no fígado, como um elemento importante na melhora dessas disfunções. 

“Com base nessa informação, nós, da Embrapa Agroenergia, fizemos um trabalho com administração desse óleo, substituindo parte do consumo que vinha de carboidratos pelo óleo de amêndoa em animais que foram induzidos à diabetes. Observamos que os efeitos são muito promissores. A dieta com o óleo da amêndoa da macaúba apresentou efeito hipoglicemiante, com aumento da produção da insulina, e demonstrou efeito na redução da resistência à insulina e aumento da funcionalidade das células pancreáticas; também apresentou efeito hepatoprotetor com redução significativa dos níveis séricos das enzimas AST e ALT, além de ter efeito positivo nos níveis séricos do LDL-C e HDL-C. Esse é um trabalho que indica um cenário muito promissor para o uso do óleo da amêndoa também para uso humano”, contou Simone Favaro.

Óleo de Macaúba. Foto: Vivian Chies

Sistemas de produção da macaúba 

Considerando todos os produtos que a macaúba pode produzir, há a possibilidade de se estabelecer um sistema de produção somente com a palmeira (monocultura), ou integrando a palmeira com lavoura, pecuária e floresta.

“Exemplo é o trabalho que a Embrapa Agroenergia está realizando na região Nordeste (Parnaíba-PI e Barbalha-CE), no qual integramos a macaúba com lavouras anuais, como milho, feijão e amendoim. Estamos fazendo esse trabalho porque em algumas áreas do semiárido brasileiro você encontra a macaúba de forma natural”, exemplificou Favaro.

De acordo com pesquisadores da Embrapa Agroenergia, as atividades com a macaúba são bastante promissoras na região de Barbalha.  “Há bastante potencial para estruturar uma cadeia produtiva em torno da macaúba, mas, é necessário que ações e atores se juntem para tornar esse potencial uma realidade. Nesse contexto, a Embrapa Agroenergia vem contribuindo na geração de conhecimento aplicado ao processo produtivo da macaúba e produtos derivados, além de gerar informações que despertem o interesse de formadores de opinião e formuladores de políticas públicas, fundamentais para avançar na estruturação de uma cadeia de valor em torno desta palmeira”, disse a pesquisadora da Unidade, Rosana Guiducci. 

Renda para as comunidades

Durante o curso realizado em maio de 2023 em Barbalha, Simone Favaro disse que há a necessidade de melhorar a automação e aumentar a escala para que o trabalho traga renda para as comunidades. Neste sentido, foi realizada uma reunião com agentes dos governos locais, sindicato rural e produtores de equipamentos para processamento de frutos, na qual o pesquisador Mauricio Lopes, também da Embrapa Agroenergia, apresentou os potenciais da macaúba e alternativas para alavancar a cadeia produtiva no semiárido brasileiro.

“Deste encontro alguns desdobramentos são esperados, como viabilização de fomento para a aquisição de máquinas para facilitar e melhorar a produtividade dos agricultores para a produção de óleos e outros produtos da macaúba, e a expansão da área cultivada para outras áreas de produtores além das que já foram instaladas com auxílio do projeto da Embrapa ora em execução”, disse Favaro.

Segundo os estudiosos, a macaúba tem aptidão para produções em larga escala, mas ela também pode incluir os pequenos agricultores. “É uma cultura inclusiva. Dependendo do modelo que se adota, tanto pequenos, quanto médio e grandes produtores podem ser agregados na sua produção”, concluiu a pesquisadora.

Márcia Cristina de Faria
Embrapa Agroenergia