Desenvolvida com foco no processamento, a amoreira-preta BRS Ticuna foi disponibilizada ao mercado de frutas como opção para a produção de geleias e sucos. O tamanho do fruto é atrativo aos olhos, que aliado à acidez acentuada faz com que a cultivar ocupe um espaço para fins industriais. Um hectare pode render até 20 toneladas de frutas, o que a posiciona entre as cultivares mais produtivas e superior ao material de referência, a amoreira BRS Tupy.
A BRS Ticuna é uma cultivar de amoreira-preta (blackberry) obtida por hibridação controlada, altamente produtiva e testada nos mais variados ambientes e sistemas de cultivo. Foi testada principalmente nos estados da Região Sul do País, o que não significa que não tenha adaptação a outras regiões.
Lançada em 2023, desde 2018 vem sendo avaliada pela pesquisa nos Campos de Cima da Serra, numa parceria entre a Estação Experimental de Vacaria (RS), a Embrapa Uva e Vinho e a Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS). O material foi apresentado previamente aos produtores, para que conhecessem a nova cultivar e tivessem acesso ao material com os parceiros já licenciados para produção de mudas.
De acordo com a pesquisadora Maria do Carmo Bassols Raseira, coordenadora do projeto que desenvolveu a amoreira, a cultivar tem plantas de porte ereto, frutas grandes e colheita mais tardia que a cultivar Brazos. “A sua acidez mais elevada limita a aceitação para consumo in natura e a direciona para a indústria, a qual, logicamente, paga menos em comparação ao preço obtido no mercado de frutas frescas. Para compensar, é importante que a cultivar seja altamente produtiva”, pondera.

O fato de as frutas não serem comercializadas in natura com facilidade pode desestimular o produtor a plantá-la, segundo Raseira. Porém, ela acredita que, além da produtividade superior, a menor necessidade de tratamentos fitossanitários nessa cultura é capaz de compensar economicamente o fruticultor, proporcionando melhor retorno.
A BRS Ticuna, como a maioria das cultivares de amora-preta, é bastante rústica, sendo necessário o controle de ferrugem e cuidados com a mosca-das-frutas (Drosophila suzukii). A cientista relata que a cultivar é considerada resistente a doenças.
O pesquisador Rodrigo Franzon, conta que a nova variedade tem características similares às de outra amoreira, a Brazos, bastante antiga e introduzida do estado norte-americano do Texas. “A BRS Ticuna é mais produtiva, produz frutas mais firmes e apresenta menor reversão de cor das frutas após a colheita”, compara o cientista.
O especialista revela que a maior contribuição desse material ao mercado industrial é a acidez elevada da fruta, desejável para o processamento. “Isso diminui a necessidade de corrigir a acidez por meio de aditivos”, detalha Franzon.
De acordo com um dos produtores que testaram a cultivar de amoreira, ela se destacou pela sua produtividade. “Ela produz entre 20% a 30% a mais que as outras variedades BRS Tupi, BRS Caiguangue e BRS Guarani e tantas outras que se tem à disposição”, relata o fruticultor Roque Casset.
Oportunidade para produção orgânica
Raseira aponta oportunidades para a cultivar, como o seu direcionamento para produção de doces, principalmente geleias e chimias, sem a necessidade de adição de ácidos. “Além disso, há a possibilidade de cultivo no sistema orgânico”, reforça, indicando que a cultivar é adequada a uma produção mais sustentável, por ser um alimento mais limpo e de maior qualidade.

A industrialização da amora é bastante utilizada devido ao baixo período de conservação da fruta. E mesmo produtores de frutas para o mercado in natura destinam parte da produção para a industrialização, em períodos de picos de safra.
O preço médio pago ao produtor varia em função da época de produção e da forma de comercialização. A indústria, dependendo da região do País, paga ao produtor entre R$4,50 e R$6 por quilo. Se a fruta for congelada, esse valor varia entre R$8 e R$15; contudo, em áreas próximas a grandes centros consumidores, o valor pode chegar a até R$20 por quilo de amora produzido.
Portfólio de amoras-pretas da Embrapa
Desde 2015, a Embrapa Clima Temperado disponibilizou ao setor produtivo cinco cultivares de amora-preta, considerando os lançamentos recentes de 2024. De 2015, a BRS Xingu se destaca pela maturação tardia, o que permite estender o período de colheita em duas semanas, em média. A BRS Cainguá, de 2019, tem ótima aceitação para o consumo in natura devido à ótima aparência e ao equilíbrio entre acidez e açúcar. Já a BRS Ticuna, lançada em 2019, é altamente produtiva e destinada ao processamento, como opção para a produção de geleias e sucos. Por fim, de 2014, a variedade BRS Karajá se destaca pela ausência de espinhos nas hastes, o que facilita o manejo, e a BRS Terena tem como principal característica o sabor das frutas: doces, com baixa acidez e leve toque amargo.
Cristiane Betemps
Embrapa Clima Temperado

