O duplo desafio que coloca em xeque a agricultura tradicional no Brasil

*Eduardo Trevisan

Além do clima, o cenário geopolítico internacional injeta forte instabilidade financeira na agricultura brasileira

Os produtores brasileiros iniciam a semeadura da safra de verão 2026/27 em um cenário de incertezas climáticas e geopolíticas complexas. Um El Niño forte altera o regime de chuvas e a temperatura, enquanto conflitos no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia seguem encarecendo fertilizantes e insumos críticos.

Esse conjunto de pressões eleva o custo de produção e ameaça a produtividade, com reflexos diretos nas margens dos produtores e, potencialmente, nos preços ao consumidor.

O El Niño, consideravelmente mais forte que o convencional, traz previsões de chuvas acima da média no Sul e em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul, enquanto o restante do país enfrenta precipitação abaixo do normal e atraso na estação chuvosa.

Para a soja e o milho, o excesso de chuva sulista eleva os riscos de encharcamento, doenças fúngicas e perdas na colheita, enquanto a estiagem no Centro-Oeste e Sudeste compromete o estabelecimento das lavouras. Nas culturas de café, laranja e cana, esse estresse térmico e hídrico queima flores e afeta o desenvolvimento de frutos, prejudicando diretamente o potencial produtivo.

Além do clima, o cenário geopolítico internacional injeta forte instabilidade financeira na agricultura brasileira. A crise no Oriente Médio, por onde passam mais de 40% das exportações globais de enxofre e cerca de 40% da ureia mundial, e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que afeta o mercado de gás natural e nitrogenados, encareceram tanto insumos básicos para a fabricação de adubos quanto o preço do barril de petróleo.

O enxofre, essencial para fertilizantes fosfatados, saltou de menos de US$ 600/t no fim de 2025 para acima de US$ 1.200/t no pico da crise. Enquanto isso, a ureia no Brasil chegou a US$ 800/t em abril de 2026, quase o dobro do patamar anterior, provocando queda de 23% nas importações entre janeiro e agosto de 2026 e elevando o peso dos fertilizantes para cerca de 35% do custo total da safra 2026/27.

O petróleo mais caro, por sua vez, aumenta o custo dos nitrogenados, dependentes de derivados fósseis e gás natural, e encarece o diesel que move tratores, colhedoras e caminhões. Juros elevados, mão de obra escassa e defensivos químicos caros completam o encarecimento do “pacote tecnológico” e pressionam as margens dos produtores.

Esse efeito cascata cria um duplo impacto na economia. Do lado do produtor, a margem de lucro é severamente espremida, atingindo principalmente aqueles com menor escala ou maior dependência de importados, já que o valor das commodities nem sempre acompanha a alta dos custos internos.

Do lado da população, a menor oferta de alimentos decorrente do clima desfavorável, somada aos custos logísticos inflacionados, tende a resultar no aumento dos preços nos supermercados, gerando inflação e volatilidade no mercado.

Este cenário desafiador coloca em xeque a agricultura tradicional, tornando necessária a adoção de práticas e tecnologias que, até pouco tempo, eram priorizadas por pequenos produtores ou por nichos agroecológicos. Somente com tecnologias apropriadas ao clima tropical e à realidade brasileira será possível garantir uma boa produção e rentabilidade diante das mudanças do clima e da instabilidade geopolítica.

Agricultura regenerativa, bioinsumos, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e manejo integrado de pragas e doenças deixam de ser uma “alternativa” e passam a ser estratégias de sobrevivência para o agronegócio nacional.

Os bioinsumos reduzem a dependência química e cortam custos imediatos sem abrir mão da proteção da lavoura. Estudos indicam que biofertilizantes locais podem apresentar custos da ordem de US$ 239,40/ha, contra US$ 270,00/ha dos importados e valores bem superiores aos dos pacotes convencionais.

Foto: Envato

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