A qualidade do trigo pode ganhar peso na formação dos preços no Brasil nos próximos meses. Segundo o Agro Mensal de outubro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, caso se confirmem perdas qualitativas na produção nacional, a menor disponibilidade de cereal dentro das especificações da indústria pode intensificar a disputa dos moinhos pelos melhores lotes e ampliar os prêmios pagos por eles.
Essa possibilidade se apresenta em um mercado sujeito a duas forças: a menor folga entre produção e consumo no mundo, que tende a sustentar as cotações, e a perspectiva de elevada oferta argentina, que amplia as alternativas de abastecimento dos compradores brasileiros. “No Brasil, a qualidade deve ser uma variável importante para a formação dos preços nos próximos meses”, avalia a Consultoria Agro do Itaú BBA.
O relatório trata a restrição de oferta com padrão industrial como um risco condicionado à confirmação das perdas, sem apontá-la como resultado já consolidado.
Produção mundial abaixo do consumo reduz folga
A perspectiva de sustentação dos preços internacionais está associada a um balanço global mais ajustado na safra 2026/27. Após dois ciclos de maior oferta, a produção perde força em importantes países exportadores e fica abaixo do consumo estimado, reduzindo a folga no abastecimento mundial.
As dificuldades logísticas envolvendo Rússia e Ucrânia acrescentam volatilidade a esse quadro. Pela relevância dos dois países no comércio internacional de trigo, alterações no escoamento da produção podem repercutir nas cotações.
Segundo a consultoria, mesmo com alternativas para o transporte do trigo russo, o mercado deve continuar sensível à evolução dos fluxos pelo Mar Negro. A combinação entre menor folga global e incerteza logística sustenta a perspectiva para os preços.
Argentina oferece contraponto à pressão de alta
No mercado regional, as condições das lavouras argentinas favorecem a expectativa de boa produtividade e elevada disponibilidade para exportação. Principal origem das importações brasileiras de trigo, a Argentina pode ajudar a limitar o repasse da pressão internacional às cotações domésticas.
No início de outubro, 91% da área argentina apresentava condição hídrica adequada ou ótima, enquanto 64% das lavouras estavam classificadas como boas ou excelentes, conforme os dados apresentados no relatório. “A maior disponibilidade argentina amplia as alternativas de abastecimento dos moinhos brasileiros e pode limitar parte da pressão altista no mercado doméstico”, aponta a Consultoria Agro do Itaú BBA.
Para os compradores brasileiros, portanto, a oferta do país vizinho funciona como alternativa em um ambiente internacional mais ajustado. Já para a produção nacional, a eventual restrição de trigo com as características exigidas pela indústria pode resultar em maior diferenciação de preços entre os lotes.
O comportamento das cotações dependerá, assim, tanto da disponibilidade regional quanto do padrão do cereal ofertado. Se as perdas qualitativas se confirmarem, a presença de trigo no mercado não significará, necessariamente, oferta suficiente de produto adequado às necessidades dos moinhos.
Texto: Abitrigo
Foto: Divulgação


