Chuvas ameaçam qualidade de trigo no Brasil e oferta global mais ajustada sustenta preços, aponta Itaú BBA

O mercado de trigo combina riscos à qualidade da safra brasileira com um cenário internacional de menor folga entre produção e consumo. Segundo o Agro Mensal de outubro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, as chuvas frequentes no Sul aumentam as preocupações com o padrão industrial dos grãos, enquanto dificuldades logísticas no Mar Negro acrescentam volatilidade às cotações.

No Brasil, a colheita atingia 40,3% da área, conforme os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apresentados no relatório, com acompanhamento até 9 de outubro. O principal ponto de atenção é a capacidade de o cereal colhido atender às especificações exigidas pelos moinhos.

Embora esse quadro possa valorizar os lotes de melhor qualidade, a expectativa de boa produção na Argentina amplia as alternativas de abastecimento da indústria brasileira e pode limitar parte da pressão altista.

Excesso de umidade coloca qualidade do trigo no centro das negociações

As condições climáticas no Sul têm favorecido doenças de espiga e aumentado as incertezas sobre características relevantes para a moagem, como peso hectolítrico (PH), germinação e força de glúten.

Segundo o Itaú BBA, o risco não se limita ao volume produzido. Mesmo com disponibilidade de cereal, eventuais perdas qualitativas podem reduzir a oferta de trigo adequado às necessidades da indústria.

Caso esse cenário se confirme, os moinhos poderão intensificar a disputa pelos lotes de melhor padrão, ampliando os prêmios pagos pela qualidade.

Rio Grande do Sul atravessa fases críticas das lavouras

No Rio Grande do Sul, a colheita estava no início no período analisado, enquanto a maior parte das lavouras se encontrava em enchimento de grãos e maturação.

Essas etapas são importantes para a definição do rendimento. A combinação de baixa radiação solar e volumes elevados de chuva favorece doenças de espiga e mantém a atenção sobre o resultado da safra.

Em Santa Catarina, as áreas mais adiantadas começavam a ser colhidas, também sob risco associado ao excesso de chuva e à umidade elevada.

Paraná tem colheita mais avançada, mas depende de tempo seco

No Paraná, os trabalhos estavam mais adiantados e a maior parte das lavouras apresentava boas condições. Ainda assim, a continuidade da colheita dependia de períodos de tempo seco.

Em São Paulo, as condições climáticas atrasaram as operações em relação à temporada anterior. Já em Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, a colheita havia sido concluída.

O quadro nacional reunia, portanto, regiões com trabalhos encerrados e áreas do Sul ainda expostas às condições meteorológicas durante fases decisivas da produção.

Restrições no Mar Negro aumentam volatilidade internacional

No exterior, o trigo apresentou oscilações nos 30 dias acompanhados pelo relatório. O cereal do tipo soft em Chicago encerrou o período a 671 centavos de dólar por bushel.

A escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia ampliou as incertezas sobre o escoamento da produção de uma região importante para o abastecimento mundial.

Segundo a análise, a Rússia dispõe de trigo, mas as dificuldades logísticas limitaram os embarques e contribuíram para elevar preços em outras origens. Alternativas de saída pelo Báltico ajudaram a corrigir as cotações, sem representar normalização dos fluxos pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov.

Produção abaixo do consumo reduz folga mundial

Para a temporada 2026/27, o Itaú BBA aponta um balanço global mais ajustado como fator de sustentação dos preços.

Após duas safras de maior oferta, a produção perde força em importantes países exportadores e fica abaixo do consumo estimado, reduzindo a disponibilidade excedente no mercado mundial.

As restrições logísticas na região do Mar Negro reforçam a sensibilidade das cotações. Mesmo com rotas alternativas, a evolução dos embarques de Rússia e Ucrânia continuará relevante para o comércio internacional.

Safra argentina amplia opções para os moinhos brasileiros

Na Argentina, principal fornecedora de trigo ao Brasil, as condições das lavouras sustentam a expectativa de boa produtividade e elevada disponibilidade para exportação.

No início de outubro, 91% da área apresentava condição hídrica adequada ou ótima, enquanto 64% das lavouras estavam classificadas como boas ou excelentes.

Para os compradores brasileiros, essa perspectiva representa uma alternativa de abastecimento e pode conter parte dos efeitos de um mercado internacional mais firme.

Nos próximos meses, a formação dos preços domésticos deverá refletir essa combinação: disponibilidade argentina, evolução das cotações externas e quantidade de trigo brasileiro capaz de atender às exigências da indústria moageira.

Texto: Abitrigo

Foto: Divulgação

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