Avanço da inteligência artificial no agro exige conectividade e novas competências

A expansão da conectividade rural, a aplicação da inteligência artificial e a qualificação profissional são fatores decisivos para ampliar a transformação digital do agro brasileiro. Esses temas orientaram a segunda reunião do Comitê de Inovação da Abag, realizada em 29 de outubro, que reuniu representantes de empresas e instituições para compartilhar experiências práticas e discutir oportunidades para o desenvolvimento tecnológico das cadeias produtivas.

Conduzido pelos vice-presidentes Mathias Schelp, da Bosch, e Alexandre Bernardes, da CNH, e coordenado por Roberto Araújo, da ABAG, o encontro abordou iniciativas de infraestrutura digital, soluções de robótica agrícola e os impactos da inteligência artificial sobre a gestão, a produtividade e o mercado de trabalho.

Conectividade e automação no campo

A ampliação da cobertura digital foi um dos temas da exposição de Maurício Nicocelli Netto, presidente da Câmara Temática de Inovação Agrodigital do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Ele apresentou a atuação da Câmara, que reúne 53 entidades e instituições, entre elas a ABAG, na discussão e proposição de políticas públicas relacionadas à conectividade, educação, inteligência artificial e proteção de dados.

Entre as experiências apresentadas estiveram projetos de operadoras voltados à conexão de propriedades rurais, máquinas e sistemas de monitoramento. Conforme os dados empresariais compartilhados, a TIM supera 29 milhões de hectares com cobertura 4G no campo e 54 milhões de hectares com tecnologia NB-IoT, utilizada na conexão de sensores e dispositivos. Também foram apresentados projetos da Vivo para ampliar a infraestrutura em diferentes regiões produtoras.

A exposição contemplou ainda a proposta de criação de um Centro de Agricultura Digital em Mato Grosso, com participação prevista de 10 instituições de ensino e abrangência de 20 cursos de Agronomia e Engenharia Agrícola. O objetivo é aproximar universidades e empresas por meio da formação prática e do desenvolvimento de aplicações tecnológicas voltadas às necessidades do campo.

Emerson Crepaldi, COO da Solinftec, apresentou aplicações de robótica agrícola e destacou a evolução das tecnologias autônomas nas operações. Entre as soluções está o Solix XT, desenvolvido para monitoramento de lavouras e aplicação localizada de herbicidas. Segundo a empresa, o histórico de projetos em cana registra redução média de 50% no uso de herbicidas frente à catação convencional. Também foi apresentada redução de 50% nos custos operacionais em comparação com métodos convencionais, conforme as condições dos projetos avaliados.

Crepaldi ressaltou a importância da viabilidade econômica para a adoção dessas soluções, especialmente diante dos juros elevados e das margens mais restritas dos produtores. Comprovar o retorno dos investimentos e contar com profissionais capacitados para operar e supervisionar tecnologias autônomas foram apontados como fatores decisivos para ampliar sua utilização.

Inteligência artificial e formação profissional

Os impactos da IA sobre o trabalho e a gestão das organizações foram discutidos por Almir Araújo Silva, diretor de Digital, Novos Negócios e Excelência Comercial para a América Latina da BASF e professor da ESPM.

O expositor destacou a evolução das ferramentas preditivas, dos sistemas generativos e dos agentes de inteligência artificial, capazes de executar tarefas e integrar processos. Também abordou a resistência cultural, a adaptação dos modelos de gestão e a necessidade de desenvolver novas competências. Nesse contexto, a combinação entre conhecimentos agronômicos e de negócios, habilidades digitais e pensamento analítico ganha relevância. A aprendizagem baseada em problemas reais, a experimentação, a requalificação de lideranças e a colaboração entre empresas e instituições de ensino foram apontadas como caminhos para ampliar a adoção tecnológica.

Roberto Araújo e Alexandre Bernardes apresentaram o Indicador de Conectividade Rural (ICR), desenvolvido pela ConectarAGRO em colaboração com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), por meio da equipe AgroPlus. Na edição divulgada em 2025, 33,9% da área disponível para uso agrícola no Brasil contava com cobertura 4G ou 5G, evidenciando o espaço para expansão das redes móveis no campo.

O indicador permite identificar regiões prioritárias para investimentos, apoiar políticas públicas e avaliar necessidades de infraestrutura em diferentes cadeias produtivas. Durante a discussão, Bruno Giorgi Palmieri destacou a relevância dos estudos específicos sobre cana-de-açúcar, café e irrigação. Fábio Gomes Monteiro ressaltou a credibilidade e a repercussão dos dados quando divulgados por uma associação.

Diante do encerramento das atividades da ConectarAGRO, informado na reunião, os participantes discutiram a possibilidade de a ABAG articular associadas e parceiros para viabilizar a continuidade e a atualização do ICR a partir de 2027. Como encaminhamento, ficou prevista a avaliação dos custos e das possibilidades de apoio, com posterior submissão de uma proposta à diretoria da Associação.

A discussão está alinhada às prioridades do Comitê de Inovação da Abag, que incluem conectividade, automação, agricultura de precisão e capacitação profissional. Ao aproximar experiências empresariais e políticas públicas, o comitê busca contribuir para que a inovação gere resultados concretos e fortaleça a competitividade das cadeias do agronegócio brasileiro.

Texto: Abag

Foto: Divulgação

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