Após revolução na soja, gramíneas são novo foco estratégico para os inoculantes biológicos

Inoculantes contribuem para o menor uso de fertilizantes nitrogenados em culturas além da soja; ANPII Bio destaca que, embora a soja ainda represente 75% do mercado, as gramíneas já atingem 21% de participação nas vendas

Depois de transformar a cultura da soja no Brasil, os bioinsumos, em especial os inoculantes, voltam-se agora para um novo horizonte: as gramíneas, como milho, cana-de-açúcar, arroz, trigo e pastagens. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o país já conta com 37 inoculantes voltados a essas culturas, com eficiência média entre 25% e 30%, além de 40 patentes em desenvolvimento. A adoção desses bioinsumos nas gramíneas pode representar uma economia de até 5,1 bilhões de dólares ao país, além de evitar a emissão de cerca de 18,5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano — reforçando o papel estratégico da agricultura biológica na construção de um agronegócio mais sustentável.

Entre os destaques está o uso de microrganismos como o Azospirillum, amplamente reconhecido por sua contribuição à fixação biológica de nitrogênio (FBN). Além desse microrganismo, outras soluções biológicas envolvem bactérias promotoras de crescimento e solubilizadoras de nutrientes, como as dos gêneros Bacillus e Pseudomonas. Já o fungo Trichoderma spp., embora tradicionalmente utilizado no controle biológico de pragas e doenças, também integra esse conjunto de tecnologias inovadoras voltadas ao aumento da eficiência agronômica de gramíneas.

Segundo o Plano Nacional de Fertilizantes 2050, diversificar o uso de bioinsumos em diferentes culturas é uma estratégia essencial em um cenário global de transição para práticas agrícolas mais sustentáveis, além de ser uma das maiores oportunidades para ampliar a FBN além da soja, reduzindo a dependência externa do Brasil em fertilizantes nitrogenados. Essas constatações estão reunidas no estudo “Bioinsumos como alternativa a fertilizantes químicos em gramíneas: uma análise sobre os aspectos de inovação do setor”, realizado pelo MAPA em parceria com entidades, como o Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras (ISI) e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

De acordo com a ANPII Bio, que representa empresas com forte atuação no mercado de inoculantes, inclusive no desenvolvimento de soluções voltadas para gramíneas, o setor vem demonstrando crescimento expressivo. Ao ano, as empresas associadas comercializam mais de 40 milhões de doses de produtos baseados em microrganismos como o Azospirillum. Levantamento também mostra que, embora a soja ainda lidere o consumo de inoculantes, com 75% da participação, o milho já representa 16% do mercado, seguido pela cana com 4%. Ao considerar o uso de inoculantes em todas as culturas, as empresas associadas entregaram ao mercado, na última safra, 205,6 milhões de doses, com vendas que somaram R$ 527,5 milhões e expectativa de crescimento de 12,4% em 2025. A trajetória é sólida, com crescimento médio anual superior a 16% nos últimos anos. As tecnologias também vêm evoluindo rapidamente: em 2024, os produtos à base de Bradyrhizobium responderam por 57% das vendas (ou 77% em número de doses), mantendo a liderança. Já os inoculantes com Azospirillum e Pseudomonas representaram, respectivamente, 29% e 4% das vendas, refletindo o avanço na diversificação do uso de microrganismos no campo.

Diante desse cenário, o tema esteve no centro das discussões do evento Executive Dinner, promovido pela ANPII Bio no último mês, em Brasília. Na ocasião, estiveram reunidas autoridades do Executivo, parlamentares, representantes do MAPA e da ANVISA, entidades representativas do setor produtivo, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), ABRAPA e APROSOJA, além de membros de embaixadas estrangeiras e lideranças da cadeia de bioinsumos. Durante seu discurso, Alessandro Cruvinel, diretor do Departamento de Apoio à Inovação Agropecuária do Ministério da Agricultura e ex-presidente do Conselho Estratégico do Programa Nacional de Bioinsumos, destacou a importância de expandir o uso de bioinsumos para culturas além da soja, com foco nas gramíneas. “Conseguimos zerar o uso de nitrogênio na soja com inoculantes. A pergunta agora é: isso pode acontecer com outras culturas?”, questionou.

Para Guilherme de Figueiredo, presidente da ANPII Bio, “zerar a adubação nitrogenada” significa substituir completamente o uso de fertilizantes químicos nitrogenados pelo uso de inoculantes biológicos, que promovem a fixação biológica do nitrogênio, nutrindo a planta de forma natural e eficiente. “Esse modelo, consolidado na soja, é um grande desafio tecnicamente falando para outras culturas. A meta agora é acelerar o desenvolvimento e a adoção dessas tecnologias”, afirmou.

Alinhada a esse objetivo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também tem contribuído ativamente para o avanço dos bioinsumos. Clênio Pilon, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da instituição, destacou, durante o evento, que a Embrapa desenvolveu ativos baseados em bactérias solubilizadoras de fósforo, além de microrganismos capazes de favorecer o desenvolvimento das plantas mesmo sob estresse hídrico. “Estamos comprometidos com a revolução biológica, que é a terceira grande onda da agricultura”, reforçou.

A chamada “Revolução dos Biológicos”, como apontada por Clênio, tem ganhado força em um momento em que o agronegócio busca soluções mais sustentáveis e eficientes. Nesse contexto, os impactos ambientais e econômicos da adoção de inoculantes vêm sendo cada vez mais evidenciados por especialistas. Segundo levantamento realizado pela ANPII Bio em parceria com a pesquisadora da Embrapa, Mariangela Hungria da Cunha, a fixação biológica do nitrogênio (FBN) na soja evita a emissão de cerca de 5,4 toneladas de CO₂ por hectare. Considerando os 44 milhões de hectares cultivados no país, isso representa 236 milhões de toneladas de CO₂ não emitidas. Com o avanço da tecnologia no milho, o Brasil pode alcançar a marca de 240 milhões de toneladas de emissões evitadas.

Além dos ganhos ambientais, os dados revelam também benefícios econômicos expressivos. A redução no uso de fertilizantes químicos por meio da FBN gera uma economia de 27,4 bilhões de dólares — sendo que, no caso do milho, a substituição de apenas 25% da adubação nitrogenada por inoculação pode reduzir o custo de produção em até R$ 119,19 por hectare, o que representa uma economia nacional superior a 0,5 bilhão de dólares.

Texto: Anpiibio

Foto: Divulgação

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