Romper barreiras culturais, fortalecer a cadeia, para produzir mais

Transferência de tecnologia, com  introdução de cultivares de alto rendimento, na Comunidade Quilombo Quaresma, no Médio Jequitinhonha, proporciona a 1ª colheita de alho livre de vírus 

Pela primeira vez, oito famílias de agricultores da Comunidade Quilombo Quaresma realizaram a colheita de alho de cultivares livres de vírus. A quantidade simbólica de 180 quilos foi suficiente para deixar os quilombolas satisfeitos com a produção e a produtividade nunca vista no quilombo localizado no município de Setubinha, no Médio Jequitinhonha, em Minas Gerais. A colheita realizada, em outubro de 2024, teve dois destinos, uma parte foi distribuída entre eles, e, a outra, armazenada para o plantio do próximo ano.

A produtividade média alcançada foi de 29 toneladas por hectare (t/ha) e a expectativa, após o processo de cura e secagem do alho colhido, é que esse número fique em torno de 18 a 20 t/ha. A média da produtividade brasileira de 2023 ficou em 13,64 t/ha. “Esse alho é muito bom. A gente sempre plantou um alho antigo que era da época dos nossos avós”, conta o agricultor, Sid Martins, um dos quilombolas contemplados. 

O trabalho que está sendo realizado no Quilombo Quaresma e é uma das atividades do acordo de cooperação técnica entre a Embrapa Hortaliças (Brasília/DF) e a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater/MG), firmado, em 2023, com prazo de execução de 24 meses.

O projeto denominado “Alho-semente livre de vírus: desenvolvimento e fortalecimento da cadeia produtiva do alho em regiões de agricultura familiar de MG” tem como objetivo apoiar e estimular ações de fortalecimento da cadeia de valor do alho para a agricultura familiar em Minas Gerais, por meio da introdução de cultivares de alho de alto rendimento.

O projeto contempla as seguintes etapas: capacitação de agricultores e técnicos em produção de alho-semente livre de vírus; instalação de unidades de multiplicação de alho-semente livre de vírus, para abastecimento da produção; e instalação de unidades de referência tecnológica (URTs) para validação de cultivares.

Tecnologia

O alho-semente livre de vírus (ALV) é uma técnica que a Embrapa Hortaliças realiza em laboratório e que prevê a multiplicação in vitro e uma série de testes para eliminar totalmente os vírus e outros microrganismos nocivos na planta. Os alhos-sementes de cinco cultivares livres de vírus cultivados na URT instalada no Quilombo Quaresma foram provenientes da Embrapa Hortaliças.

Projeto denominado “Alho-semente livre de vírus”visa fortalecer a cadeia de valor do alho para a agricultura familiar em Minas Gerais, por meio da introdução de cultivares de alho de alto rendimento

O engenheiro agrônomo da Emater/MG, Joel da Fonseca, responsável pelo trabalho junto aos agricultores, disse que, além das cultivares ALV, o plantio foi conduzido seguindo as orientações técnicas. Houve a participação deles, em todas as etapas, preparação de solo, plantio, adubação, capina e colheita. 

Fonseca explica que esse envolvimento foi necessário para que o grupo aprendesse como produzir o ALV, que tem suas particularidades, como espaçamento e adubação. Ele ressalta que a unidade foi conduzida em sistema orgânico de produção.

Fonseca também avaliou positivamente esse primeiro experimento. “A gente precisava mostrar e comprovar para os agricultores que essas cultivares apresentam um resultado bem superior. Vamos repetir o trabalho no ano que vem com as cultivares que eles mais gostaram”. 

Para o pesquisador da Embrapa Hortaliças, Francisco Vilela Resende, a expectativa é que esses agricultores tenham apreendido o conhecimento necessário para o plantio de cultivares de ALV, e que a partir de agora possam aumentar a área de cultivo com esses materiais.

Vilela Resende, responsável pelas pesquisas da Embrapa nessa área, reforça que essa tecnologia é adotada tanto por grandes quanto por pequenos produtores. “No caso dos pequenos, o impacto da tecnologia é ainda maior, pois, historicamente, eles sempre utilizaram alho-semente de baixa qualidade, por causa de variedades bastante degeneradas e infectadas por doenças e pragas. Por isso, é comum observar a produtividade desses produtores dobrar com a adoção do alho-semente livre de vírus”, explica.

Cultivo do alho de cultivares livres de vírus (ALV) foi conduzido seguindo as orientações técnicas e todas as etapas, preparação de solo, plantio, adubação, capina e colheita
Crédito: Embrapa

Alcance

Além de Setubinha, o projeto contempla agricultores familiares de oito municípios localizados nas regiões de Campo das Vertentes, Norte, Alto Jequitinhonha, Médio Jequitinhonha e Vale do Aço. A expectativa, de acordo com Georgeton Silveira, coordenador estadual de Olericultura da Emater-MG, é ampliar para três municípios nas regiões do Norte e Vale do Mucuri.

Silveira conta que os agricultores familiares cultivam mais o alho do grupo comum ou semi-nobre e devido à degeneração do alho-semente, eles estavam tendo problemas para manter os padrões de qualidade exigidos pelo mercado. “Com isso, eles acabam migrando para o cultivo de outras culturas ou indo para outras atividades. Com esse projeto, a expectativa é reverter essa situação”, acredita.

Com o intuito de agregar valor à produção, a Emater, em parceria com o Senac, iniciou um trabalho paralelo de análise sensorial do alho. O primeiro passo foi trocar a nomenclatura. O tipo de alho comum ou semi-nobre cultivado pelos agricultores familiares está sendo denominado de alho do grupo aromático.

“A ideia é fazer a análise sensorial para a segmentação do uso em diversas preparações culinárias”, detalha. Ele acrescenta que os resultados preliminares indicam que o alho produzido pela agricultura familiar possui um diferencial gastronômico.

Produção Nacional

Em 2023, a produção nacional de alho foi de 185 mil toneladas, sendo Minas Gerais o maior produtor com 43%. A produtividade média alcançada em Minas foi de 15,5 t/ha, atrás do Distrito Federal (16 t/ha) e de Goiás (16,2 t/ha). O consumo médio de alho por habitante é de 1,8 kg. Para suprir a demanda, o Brasil importou, no mesmo período, 115 mil toneladas, principalmente da Argentina com 72,3% desse total, e da China, 22,8%.

Além do alho

Localizada a 15Km do Centro de Setubinha, a Comunidade Quilombola Quaresma é guardiã de ricas atrações culturais e naturais de Setubinha. Lugar de gente simples e hospitaleira, a comunidade abriga rios e cachoeiras encantadores, uma bela capela, paisagens deslumbrantes e tradições cultivadas por suas gerações, como as tradicionais danças do “Vilão” e do “Nove”, o grupo de Flautas “Taquara”, dentre outras tradições. 

Fonte: Associação do Circuito Turístico das Pedras Preciosas

Gislene Alencar (MTB/MG 05653)

Embrapa Hortaliças

 

Conteúdo exclusivo de empresas participantesdo Anuário Brasileiro do Agronegócio e Agricultura Familiar – LEIA O ANUÁRIO GRATUITAMENTE