Café brasileiro: tradição, qualidade e símbolo cultural do país

Presente em 98% dos lares e cultivado majoritariamente por pequenos produtores, o café é símbolo da cultura nacional 

Presente em 98% dos lares do Brasil, o café é mais do que a dose diária de energia dos brasileiros. A bebida, que chegou ao país há quase três séculos, foi responsável pelo desenvolvimento econômico de algumas de nossas principais cidades e aos poucos foi se tornando parte de nossa identidade cultural, permeando desde as nossas refeições, nossas receitas, artes plásticas, música, cinema, literatura, arquitetura, superstições e mais recentemente sendo um dos itens mais citados nas redes sociais, com todo o seu apelo afetivo e cheio de estilo. O café e sua história se mesclam profundamente na vida desse país continente chamado Brasil. 

Fica fácil de entender as razões quando mapeamos a produção cafeeira no país. De norte a sul, há cafezais de diferentes portes, mas, especialmente, produções de agricultura familiar. Estima-se que esse montante chegue a 80%, ou seja, grande parte do café que chega tanto ao mercado interno quanto ao externo é oriundo de propriedades de até quatro módulos fiscais, ou seja, de cinco a 110 hectares, geridas pelos membros de uma mesma família, que dependem dessa produção agrícola para a sua sobrevivência. 

Os cafezais estendem-se por todos os biomas do território, somando cerca de 40 regiões mapeadas, sendo que 19 delas já conquistaram o reconhecimento oficial de Indicações Geográficas. Uma produção diversa, das duas principais espécies de café (arábica e canéfora), somando mais de 60 milhões de sacas/ano, volume que torna o Brasil o maior produtor mundial de café. Essas sacas abastecem 40% das xícaras de todo o mundo e a quase totalidade das xícaras que se consome no país. 

Mesmo com todos os desafios que o contexto climático e geopolítico impõem à produção cafeeira, o consumo mundial segue resiliente. A crise climática afeta cafezais em todo o planeta, incluindo o Brasil, que tem sido impactado por chuvas intensas e fora de época, veranicos, escassez hídrica e geadas. No entanto, pesquisas genéticas, avanço no manejo dos cafezais com novas técnicas e tecnologias e a transição de muitas propriedades para um cultivo regenerativo têm contribuído para a cafeicultura brasileira seguir como líder absoluta do mercado mundial da bebida.  

Maior produtor do mundo, Brasil cultiva cafeeiros em todas as suas regiões. Foto: Divulgação

A potência do consumo interno e da indústria nacional

Quando se fala de consumo interno, os brasileiros somam o segundo maior mercado para a bebida. Essencial na rotina alimentar da população, do café da manhã, ao almoço, ao cafezinho da tarde no trabalho, em todo o país são consumidas 1.430 xícaras por pessoa a cada ano.  

O ambiente do setor é regulamentado e organizado, com entidades setoriais como a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC), cuja missão central é certificar e monitorar o mercado, garantindo produtos com pureza e qualidade na mesa do consumidor. Em parceria com a ABIC, entidades fiscalizadoras, como Procons, Ministérios Públicos, Anvisa e MAPA, têm atuado fortemente para garantir esse ambiente controlado, livre de fraudes e marcas adulteradas, mesmo em um cenário de altas de preços nas gôndolas. 

A publicação da Portaria 570 SDA, do Ministério da Agricultura e Pecuária, regulamentou o Padrão Oficial Brasileiro para cafés torrados, tornando ainda mais rigoroso esse contexto nacional para quem industrializa e comercializa o café. 

O café é um dos símbolos culturais mais fortes do país. Foto: Divulgação

Pureza e qualidade

A certificação de Pureza e Qualidade da ABIC é referência mundial quando se fala de autocontrole de empresas privadas. Reconhecido pela Organização Internacional do Café (OIC), o Programa de  do Café da ABIC é modelo para mais de 40 países. Criado em 1989, o Selo de Pureza foi um divisor de águas, conseguindo reverter um quadro de queda vertiginosa de consumo para um aumento de mais de 200%, ao longo de seus 30 anos de existência.

A metodologia de avaliação dos produtos para certificação é igualmente inovadora e única no mundo. Apenas após a aprovação por cinco etapas, os produtos recebem a certificação, que utiliza o Protocolo Brasileiro de Avaliação Sensorial de Cafés Torrados e precisa ser revalidada anualmente. 

Análise documental, análise microscópica para avaliação de pureza, análise sensorial para avaliação da qualidade da bebida e enquadramento nos estilos, visita para verificação de boas práticas na indústria e monitoramento na gôndola são feitas por uma equipe de Qualidade dedicada o ano todo e com um investimento de, cerca de, R$ 2 milhões anuais. 

Selo ABIC: metodologia rigorosa para certificar cafés torrados, garantindo pureza e qualidade. Créditos: Divulgação

Atualmente, a entidade realiza, por ano, em média, 5.000 análises em todo o Brasil. O monitoramento acontece com os produtos de empresas associadas e não associadas, e o item avaliado é retirado dos pontos de vendas, ou seja, aquele que vai para a casa dos consumidores. 

Não à toa, a instituição é uma das mais respeitadas no agronegócio no país e no mundo, com cerca de 500 associados, incluindo indústrias de todos os portes, das nanos, que torram até cinco sacas por mês, às gigantes, que chegam a torrar mais de 300 toneladas por dia. 

A indústria nacional é potente e resiliente. A qualidade da industrialização avança anualmente, com a implementação de novas tecnologias, ampliação de portfólios, inovação em produtos e empregando milhares pessoas em todo o país.  

Indústrias de diferentes portes contribuem para setor do café ser uma potência, com diversidade, qualidade e sustentabilidade nos produtos. Foto: Divulgação

Relação afetuosa e novas formas de desfrutar o café

As marcas de café também imprimem suas histórias na memória dos brasileiros. Jingles, embalagens, xícaras clássicas, conexões: a população guarda com carinho e consome há décadas alguns ícones desse mercado. 

Essa identificação com os produtos abre caminho para um relacionamento mais afetivo com o café, não apenas com as marcas, mas, também, com a marca Cafés do Brasil, utilizada largamente em todo o mundo, seja em sacas de café verde, seja em embalagens de café torrado, ou mesmo em itens de colecionadores, como camisetas, bonés, bolsas, quadros, entre outros. 

As novas gerações trazem consigo também novos estilos de café, novas formas de consumir e novas preferências. É o que revela a pesquisa “Café – Hábitos e Preferências do Consumidor (2019–2025)”, encomendada pela ABIC e realizada pela quarta vez pelo Instituto Axxus, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT), da UNICAMP. 

O levantamento, realizado em setembro de 2025, entrevistou 4.200 pessoas em todas as regiões do país, por meio de questionários presenciais aplicados com rigor metodológico. O objetivo foi compreender como e por que os brasileiros estão alterando seus hábitos de consumo de café, em um contexto marcado pela alta expressiva dos preços do produto nos últimos dois anos.

Os resultados mostram uma transformação nos hábitos de consumo. Em 2019, 29% dos entrevistados declararam tomar mais de seis xícaras de café por dia. Em 2021, a percentagem era de 30%, já em 2023, a percentagem foi de 29% e, em 2025, o índice foi para 26%. Já o grupo que consome até duas xícaras segue crescendo: em 2019, o índice foi de 8%, em 2021 e 2023 foi de 10% e, agora, em 2025, o índice chegou a 14%. Esse recuo está diretamente associado ao encarecimento da bebida: nos últimos dois anos, o café figurou entre os alimentos que mais subiram no IPCA, com altas superiores a 70%, segundo IBGE e ABIC.

O café que une gerações e culturas está presente em 98% dos lares brasileiros. Foto: Divulgação

“A ABIC acompanha de perto as questões que  impactam a indústria cafeeira, de maneira a buscar alternativas para a perpetuação deste hábito nacional. Estimulamos o consumo consciente da bebida preferida dos brasileiros, e fortalecemos a cadeia produtiva para que o café de qualidade e puro continue acessível a todos”, comenta Pavel Cardoso, presidente da ABIC. 

O brasileiro continua amando e comprando café, e o fato de 87% dos entrevistados reconhecerem o selo da ABIC como um guia de qualidade enche a entidade de orgulho, pois demonstra que, mesmo em tempos de crise, o cliente final valoriza a segurança do alimento e a confiança que a certificação representa. 

Apesar das mudanças, a pesquisa mostra que o café ainda é um dos símbolos culturais mais fortes do país. O que se observa é uma transformação nos hábitos de consumo. A bebida se mantém como sinônimo de sociabilidade, prazer e energia, mas, agora, com escolhas mais criteriosas e, muitas vezes, mais econômicas.

“Mesmo em um cenário de alta expressiva nos preços, o café segue presente no cotidiano dos brasileiros, mas de forma mais moderada e seletiva. A pesquisa revela que o consumidor não abre mão da bebida, mas está adaptando seus hábitos ao novo contexto econômico”, comenta o pesquisador do IAC e coautor do estudo, Sérgio Parreiras Pereira.