Sistema agrossilvipastoril orgânico: resultados de experimento podem ser replicados em outras propriedades

“A gente tem uma pequena chácara aqui perto e queremos muito torná-la produtiva e, quem sabe, viver disso. Temos lá algumas vacas, galinhas e um plantio de maracujá. Nossa intenção é trabalhar de forma que não prejudique o meio ambiente e estamos atrás de conhecimento”. Esse foi o depoimento de Poliana Passareli, ao conhecer a Unidade de Pesquisa Participativa em Produção Orgânica instalada numa área do parque Ivaldo Cenci (PAD-DF). 

“Esse espaço de 1,1 hectare foi cedido pela Coopa-DF e implantado há 12 anos em conjunto com os produtores da região do PAD-DF e entorno que queriam fazer uma transição agroecológica para a produção orgânica de leite. Então decidimos fazer o manejo da área num sistema agrossilvipastoril orgânico. Pensamos nessa unidade como um local em que os produtores pudessem sugerir atividades possíveis de serem reproduzidas em suas propriedades”, explicou o pesquisador João Paulo Guimarães, um dos responsáveis pela condução dos trabalhos na unidade.

O sistema agrossilvipastoril é uma das modalidades do sistema agroflorestal. “Essa área em que nós estamos é estratégica para apresentar para vocês a importância dos sistemas agroflorestais”. O pesquisador explicou que no local foi construído um arranjo de produção agrícola com árvores. “Quando se tem árvores e a combinação integrada de diferentes espécies de plantas numa mesma área, evita-se contaminações de determinadas pragas, por exemplo. Muitos problemas poderiam ser evitados se os produtores adotassem essa estratégia”, avalia. De acordo com Guimarães há ainda outras vantagens de possuir árvores no sistema, como a reciclagem constante de nutrientes, estabilidade climática e diversificação de renda.

Segundo o pesquisador, a demanda dos produtores na ocasião de implantação do sistema era conseguir obter uma renda rápida. “Então cultivamos mandioca e batata-doce, duas culturas importantes na região e de boa comercialização. Em seguida, também plantamos banana e maracujá, que no caso foi o Pérola do Cerrado”. Ele contou que a ideia inicial era ter gado de leite, o que não foi possível por questões operacionais na implantação de uma sala de ordenha. “Então fizemos a recria de novilhas. Estabelecemos uma parceria com os produtores da região que nos enviavam animais. A gente recriava as novilhas e devolvia com idade e peso adequado para serem inseminadas na propriedade”.

Para a pastagem, a espécie escolhida foi a braquiária ruzizienses, cultivar BRS Integra. “Queríamos um capim que fosse bom para a alimentação animal, produzisse massa, fosse tolerante ao sombreamento e pudesse ser consorciado com uma leguminosa, que no caso foi o estilosantes BRS Bela”. Também foi plantado o capim elefante, cultivar Canará, para fornecimento picado aos animais no cocho, no período seco. “Sabíamos que iríamos precisar de volumosos suplementares para enfrentar a seca. Para isso também plantamos milho. Tínhamos que ter uma área que produzisse alimento nesse período quando da escassez da pastagem”, explicou. Além disso, ele contou que foi feita uma barraginha no local para além de conter, coletar água da chuva e ser utilizada na irrigação.

Quanto às árvores, o pesquisador relatou que os produtores queriam colocar eucalipto e, também, árvores nativas e/ou exóticas. “O arranjo ficou organizado com o plantio de três eucaliptos e uma leguminosa ou fruteira em cada linha de árvores introduzidas na pastagem. No caso, foram utilizados cliricídia, jatobá e jenipapo”. 

O pesquisador compartilhou um desafio que eles enfrentaram no início e que acabou virando um caso de sucesso; que foi a alternativa sugerida pelos produtores para evitar que os animais comessem as árvores recém-plantadas. “Como colocar uma cerca interna em cada linha de árvores seria mais oneroso, foi sugerido que plantássemos guandu nos dois lados de cada linha das árvores. Assim, para que os animais chegassem nas árvores, teriam que comer muito guandu. Deu certo”.  

O que também deu certo foi a adubação adequada feita no local. O pesquisador João Paulo Guimarães relatou que, após análise do solo, foram feitas as recomendações da correção, com calcário e gesso, e a fertilidade foi aumentada com o uso de adubos verdes, como a crotalária juncea. “Também fizemos adubações orgânicas com os insumos permitidos (cama de frango, termofosfato e remineralizador) para fornecimento de nitrogênio, fósforo e potássio, respectivamente”.

“O sistema apresentou bons indicadores de produção e produtividade. O ganho médio diário de peso dos animais na ocasião foi de 600g por dia. Foram produzidos quase 800 cachos de banana, 20 toneladas de batata-doce na área e a produtividade de raiz de mandioca foi de 54 toneladas por hectare. No segundo ano de implantação do sistema, a cada real investido, quatro retornariam para o produtor. O que queremos mostrar aqui é a viabilidade e o desempenho técnico e econômico desse sistema”, enfatizou.

“A gente precisava colocar aqui animais rústicos, por conta tanto de questões climáticas, quanto de parasitas, carrapatos. Nesses casos, o ideal é utilizar zebuínos e cruzados de animais zebuínos”, afirmou o pesquisador Artur Jordão. Segundo ele, o experimento foi feito em dois lotes; o primeiro de novilhas recria, sendo cinco animais de raças puras e, o segundo lote, com oito animais girolando.

“As novilhas leiteiras apresentaram valores médios para os dois períodos de 200 quilos na entrada e saíram, após oito meses, com 330 quilos em média, com um ganho de peso médio nesse momento de 400 gramas por dia, só com pasto e o volumoso, sem ração”, destacou. 

De acordo com a pesquisadora Ana Maria Costa, o maracujá tem sido uma escolha muito interessante nesses sistemas de agricultura familiar principalmente pelo retorno rápido que ele costuma dar aos agricultores. Segundo ela, tanto o maracujá azedo quanto o silvestre Pérola do Cerrado, são opções de utilização, sendo que o Pérola tem um valor até três vezes mais alto de venda. “Enquanto o azedo o produtor vende a cinco reais o quilo, o Pérola chega a 15, até 20 reais o quilo”, informou.

A pesquisadora explicou as diferenças de manejo de cada uma das espécies. “O maracujá amarelo dá um pouco mais de trabalho, por conta da polinização, mas que é muito eficaz e funciona. Já o Pérola não precisa da polinização artificial. Ele não dá trabalho, apenas necessita de mais empenho para ser vendido, pois as pessoas ainda estão conhecendo essa variedade. Mas, depois que o consumidor conhece, ele se vende fácil”.

De acordo com Ana Maria Costa, o maracujá entra no sistema quando as árvores são pequenas. “Depois, na medida em que vai tendo sombreamento, com o crescimento das árvores, a produção deixa de ser plena e os frutos são aos poucos retirados. Quando há poda das árvores, no entanto, a produção do Pérola retorna sem precisar replantar; no caso do maracujá azedo é possível replantar e ter a produção novamente”, explicou.

Juliana Caldas 
Embrapa Cerrados