Boleiras e boleiros alagoanos tradicionais estão tendo a oportunidade de participar de uma capacitação on-line oferecida pela Embrapa, com apoio de prefeituras e do Consórcio Intermunicipal do Sul do Estado de Alagoas (Conisul). O lançamento da capacitação ocorreu em Pão de Açúcar (AL), no Sertão do Estado, com a participação de representantes de oito municípios.
A pesquisadora da Embrapa Patrícia Bustamante, coordenou a iniciativa pela Alimentos e Territórios (Maceió). Um curso presencial realizado entre 2022 e 2023, nos municípios de Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco, na Região Metropolitana de Maceió, serviu também de apoio para a produção dos conteúdos da capacitação virtual. No treinamento presencial abordou-se desde a história dos bolos artesanais, passando por aspectos de saúde e bem-estar, até a importância da integração com redes de turismo comunitárias nacionais e internacionais.
Durante esses dois anos, professores e especialistas do Instituto Federal de Alagoas, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e também da prefeitura de Maceió ministraram diversas oficinas para 10 boleiras e boleiras dos dois municípios pioneiros. Também realizaram visitas às residências desses profissionais para conhecerem os locais de produção dos bolos e fornecerem orientações, incluindo o estímulo ao empreendedorismo, associativismo e cooperação, além de conceitos relativos a custos de produção e lucro, e ao acesso a crédito e microcrédito.
Essa interação permitiu ampliar a visão sobre o processo de produção, além de promover uma intensa troca de conhecimento, de acordo com Patrícia Bustamante. “Na verdade, esses cursos trazem justamente isso, a percepção de que foi uma troca e não apenas passado um conhecimento. Inclusive muito do conhecimento dos cursos vem delas, das mulheres aqui representadas”, afirmou a pesquisadora.
O evento de lançamento do curso on-line marcou a criação da Rede de Boleiras e Boleiros de Alagoas, instrumento de mobilização que tem entre seus objetivos fortalecer e preservar o trabalho desses profissionais com produtos da culinária tipicamente alagoana. A boleira de Pão de Açúcar Ivanilda Higino de Almeida, que coordenou a criação da Rede, agradeceu a equipe da prefeitura, “por nos oportunizar em fazer parte desse projeto maravilhoso, projeto esse que vem nos encantando cada dia mais. É muito gratificante”, enfatizou.
Durante o encontro, homens e mulheres que atuam na produção de bolos deram seus depoimentos para falar sobre a experiência, os desafios, inovações e as conquistas ao longo do trabalho. “Ao longo dos anos fui aprendendo a preparar e cozinhar diversos tipos de pratos, desde os tradicionais até os mais elaborados. Nos dias em que estou desanimado ou estressado, o calor do fogo me acalma e renova minhas energias para seguir em frente, pois amo o que faço”, afirmou Elias José, de Pão de Açúcar.
A secretária de Assistência Social de Pão de Açúcar, Soraya Omena Dantas, destacou o trabalho do município na valorização de toda a cadeia dos pequenos produtores. O município aprovou, em julho de 2023, o Programa Municipal de Aquisição de Alimentos, que compra parte da produção da agricultura familiar, desde a matéria-prima natural até os produtos derivados, destinados à alimentação dos estudantes e a famílias em vulnerabilidade social.
O analista da Embrapa Rodolfo Oliveira e a bolsista Ariane Gleyse fizeram um levantamento socioeconômico das boleiras e boleiros alagoanos, com base em um estudo de campo que também coletou informações sobre as condições de trabalho desses profissionais. O estudo apontou que a produção dos bolos é feita majoritariamente por mulheres, com 98% do grupo. “É uma realidade muito difícil, que precisa de muito apoio do município, do governo do estado e do federal também, mas é uma realidade muito bonita”, explicou Rodolfo Oliveira, ressaltando a contribuição do ofício para a preservação do patrimônio cultural do Estado.
Para Eliene Pereira, representante da Secretaria de Agricultura de Pão de Açúcar, o lançamento foi um momento rico em saberes e sabores. “Precisamos continuar juntos, de mãos dadas, e colhermos os resultados desse projeto tão inspirador, que está resgatando cultura, histórias e transformando vidas!”, disse. Além dos profissionais de Pão de Açúcar, estiveram presentes representantes dos municípios de Arapiraca, Cacimbinhas, Lagoa da Canoa, Feira Grande, Santa Luzia do Norte, Santana do Ipanema e Taquarana.
Sobre o curso
O curso tem duração total de 36 horas e é distribuído em nove módulos, destinados a mulheres e homens que atuam na produção artesanal de produtos agroalimentares, como bolos tradicionais à base de mandioca e coco. O aluno poderá fazer a capacitação no tempo que desejar, e receberá um certificado ao final de cada módulo, após obter pelo menos 50% de acerto na avaliação de aprendizagem, preencher a avaliação de satisfação e o perfil do participante. Para os que completarem todos os módulos, será emitido um certificado especial.
Ao todo, foram abordadas nove temáticas: resgate histórico de receitas de bolos e do ofício de boleiras; ergonomia e saúde na produção de bolos; segurança do alimento; bolos tradicionais: ingredientes, equipamentos, embalagens e rotulagem; matemática financeira básica; ampliação de mercado; formas de organização: individuais e coletivas; cooperativismo/moeda social; e inserção dos bolos das Alagoas em redes de turismo comunitário.
As atividades integram o projeto Boleiras das Alagoas, coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios. Os recursos são do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), executados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), no âmbito do Projeto Dom Helder Câmara (PDHC).

Orgulho e tradição
O ofício das boleiras é tradição que se perpetua por meio de gerações de mulheres que vivem nas áreas periurbanas das cidades do Nordeste. É também resultado da combinação de ingredientes indígenas, africanos e europeus, no qual a participação da mulher está em primeiro plano, gerando renda e sustento para as famílias. Por esse motivo, o foco do projeto foi capacitar as mulheres, embora também tenham sido capacitados homens boleiros.
A boleira de Santa Luzia do Norte Josiane Cabral de Lima lembrou que foram suas ancestrais que ensinaram a ela o ofício. “É uma honra estar aqui representando o projeto Boleiras das Alagoas quilombolas. Tenho muito orgulho, amo o que faço, é tradição trazida pela minha mãe e minha avó, e sou grata a Deus por estar aqui. Fui criada na feira, nasci na feira, e para mim é um orgulho estar aqui dizendo que sou uma boleira quilombola e recebendo esse diploma, de Boleira das Alagoas. Sou grata a cada um de vocês por tudo”, disse durante o evento de formatura da turma.
“Estou muito feliz de ter feito parte desse projeto maravilhoso. Não tenho muitas palavras para dizer, só tenho gratidão por tudo”, disse a boleira Maria do Carmo dos Santos, de Coqueiro Seco.
“O curso é fruto de uma parceria com o Instituto Federal de Alagoas (IFAL), a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e a Bioativo Consultoria”, explica a pesquisadora Patrícia Bustamante, da Embrapa Alimentos e Territórios.
O conteúdo traz imagens das visitas que foram feitas às residências das boleiras de Alagoas, mostrando os locais de produção de bolos e todo o contexto cultural onde é cultivada e mantida a tradição de receitas como do bolo massa puba, bolo de macaxeira e o pé-de-moleque, assado na folha da bananeira.
“Quem assistir o curso vai se sentir dentro da sala de aula, junto com as boleiras que já foram capacitadas. Não é uma aula formal, é uma troca de experiências, uma vivência que as boleiras já tiveram, uma forma inovadora de adquirir conhecimento e novas experiências”, relata Ivanilda Higino de Almeida, boleira do município de Pão de Açúcar e coordenadora da Rede de Boleiras e Boleiros das Alagoas.
Nadir Rodrigues
Embrapa Alimentos e Territórios
Irene Santana
Embrapa Alimentos e Territórios

