Agricultores contam experiência com agroflorestas em Dia de Campo no município de Engenheiro Paulo de Frontin

“Quando o manejo é correto, a gente vê uma sincronia do sistema. E essa parceria foi importante porque era uma troca de experiências que a gente precisava ter, para aprender”, diz o agricultor Danilo Galvão

“Sempre tive o ideal de cuidar um pouquinho mais do meio ambiente, e estava trabalhando numa área totalmente oposta a isso.” A frase é do agricultor Sakae Kagohara, produtor orgânico e proprietário do Sítio Cachoeira das Pedras Lisas, no município Engenheiro Paulo de Frontin, no estado do Rio de Janeiro, onde a Embrapa realizou Dia de Campo sobre sistemas agroflorestais (SAFs). Sakae é um dos agricultores que participaram das ações do Programa Produtor de Águas e Florestas, uma parceria da Embrapa Agrobiologia com a Associação Pró-Gestão das Águas a Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap), a ONG Crescente Fértil e a Emater-Rio.

Engenheiro químico por formação, Sakae diz que em determinado momento de sua vida resolveu mudar completamente de área, em busca de uma melhor qualidade de vida e de saúde. Há cerca de dez anos ele adquiriu o sítio, onde inicialmente focou na produção de cogumelos shitake, expandindo depois também para café e milho, entre outras culturas. Em 2021, ele deu início ao SAF. “Quando iniciei, isso aqui era tudo pasto, a braquiária estava alta”, lembra. Três anos depois, o cenário é outro: árvores altas, sombra, frutíferas.

O segredo, conforme contam também outros agricultores, é cuidar do manejo e fazê-lo adequadamente, no momento certo. “Quando o manejo é correto, a gente vê uma sincronia do sistema. E essa parceria foi muito importante porque era uma troca de experiências que a gente precisava ter, para aprender”, diz o agricultor Danilo Galvão.

“A ideia era observar o potencial do SAF também como estratégia de restauração florestal, mas com um caráter produtivo, que fosse mais inclusivo para a pessoa que vive no campo”, acrescenta Renato Fernandes, biólogo e técnico ambiental da Crescente Fértil, destacando que o resultado é também um produto dos produtores rurais que fizeram parte dessa construção conjunta.

Interação de todos os atores

O analista da Embrapa Agrobiologia Vinícius Freitas reforça o aspecto positivo da troca de experiências entre os participantes do programa, e aponta: “Em horta, o que a gente faz é entrar com o manejo superintensivo, irrigação pesada, muita adubação e muita cobertura. A estratégia é começar em pequenos pedacinhos e ir avançando. O que ficou aqui é realmente a experiência acumulada, que deu certo.”

Para o pesquisador da Embrapa Guilherme Chaer, essa interatividade entre as instituições e os agricultores foi aspecto-chave para que o projeto alcançasse um saldo positivo. “Funcionou muito interativamente, visitamos as propriedades, os agricultores, analisamos o perfil de cada um, as ideias do que queriam fazer, fizemos propostas que depois foram ajustadas e participamos um pouco da implantação. Este aqui é um caso de sucesso, tá muito legal e a gente fica muito feliz ao ver como está bonito e começando a dar frutos”, ressalta.

“O importante é a gente orientar o que vai ser feito da terra a partir do que é possível no momento”, adiciona o pesquisador Luiz Fernando Duarte, falando também das determinações do Novo Código Florestal para o plantio de espécies nativas e exóticas, uma das preocupações na montagem do SAF. Ele ressalta ainda a importância de o poder público abraçar a ideia e incentivar os agricultores, apontando as dificuldades que enfrentam. “Fazer agricultura já é um desafio. Quebrar paradigmas e mudar o que se faz tradicionalmente é um desafio ainda maior”, opina.

Para a técnica Maria Cristina Arantes, da Emater-Rio, a produção de alimentos para consumo próprio é outra vertente a ser considerada. “Quando a gente fala de sistema agroflorestal em algumas propriedades de pequenos agricultores, a gente brinca que o produtor de Paulo de Frontin sempre produz em área de Área de Proteção Permanente (APP): ou está na beira do rio ou em uma área inclinada, ou ainda na beira da nascente. As áreas produtivas são muito pequenas, então se a gente não traz essa visão de produção de alimentos para consumo próprio dentro dessas propriedades, a gente deixa uma lacuna.”

Estudante de Engenharia Florestal e representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil do município, Ingrid Mattos mostra satisfação por ter participado da iniciativa e ver os bons resultados alcançados. “Foi extremamente enriquecedor participar de um projeto de agroflorestal com êxito na região, aprender sobre suas falhas e ajustes essenciais, além de desfrutar da gratificante oportunidade de trocar conhecimentos e experiências com outros participantes”, argumenta.

Liliane Bello

Embrapa Agrobiologia

Yasmin Alves (estagiária de Jornalismo)