Inovação em carreadores para inoculantes: polímeros a base de CMC/amido como uma alternativa sustentável e de baixo custo para leguminosas

Por: Jaqueline Carvalho, Paulo Jansen de Oliveira, Gustavo Ribeiro Xavier, Norma Gouvêa Rumjanek

O Programa Nacional de Bioinsumos define bioinsumos como produtos, processos ou tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana, destinados ao uso na produção, no armazenamento ou no beneficiamento de produtos nos sistemas agropecuários. São insumos capazes de interferir positivamente no crescimento e no desenvolvimento, nos mecanismos de respostas de animais, plantas e microrganismos, e na produção de substâncias derivadas que interagem com produtos e processos físico-químicos e biológicos.

O mercado de bioinsumos tem crescido em todo o mundo. Estima-se que até 2035, na agricultura, deva atingir US$ 43,5 bilhões. Esse sucesso pode estar atrelado à adoção de tecnologias sustentáveis, demandadas por consumidores cada vez mais preocupados com o nexo alimento, saúde e meio ambiente, e também aos marcos regulatórios e políticas públicas integradas.

A aplicação de inoculantes com bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico na soja é um exemplo do impacto desses produtos na balança comercial brasileira, ao garantirem uma economia de cerca de R$ 15 bilhões em adubos nitrogenados por ano.

O inoculante é composto por um ou mais microrganismos previamente selecionados para uma cultura específica, visando a atender a uma finalidade com interesse agronômico. As formulações são feitas em um carreador apropriado, capaz de manter a viabilidade das células microbianas durante o período de armazenamento e transporte e a eficiência em condições de campo. O carreador ou o veículo de inoculação deve reunir características como: ser atóxico, inerte, de fácil manuseio e com baixos custos de produção e armazenamento.

As blendas, ou misturas poliméricas à base de carboximetilcelulose (CMC) e amido, compatibilizadas com MgO, constituem um carreador de baixo custo e de fácil preparo, capaz de prover soluções adequadas para o armazenamento, facilitando a distribuição para unidades de produção. Porém, deve-se ter um cuidado especial com as blendas poliméricas, já que suas propriedades físico-químicas podem ser facilmente afetadas dependendo das fontes de matérias-primas utilizadas. Nesse sentido, é importante a adoção de critérios rigorosos de qualidade, visando à garantia da reprodutibilidade dos resultados. 

A blenda CMC/amido oferece uma solução conveniente para armazenamento de curto prazo, sem necessidade de refrigeração. Isso a torna ideal para produção em biofábricas que atendem a unidades agrícolas próximas ao local de produção de inoculantes, reduzindo os custos com armazenamento e transporte. Essas formulações também são adequadas para áreas de agricultura familiar, que requerem quantidades relativamente baixas de uma ampla variedade de inoculantes para atender a um calendário agrícola diversificado.

Cultura da soja é exemplo do impacto dos inoculantes microbianos – economia é de cerca de R$ 15 bilhões em adubos nitrogenados por ano. Foto: Alexandre Nepomuceno

Diferentes blendas para a formulação de inoculantes foram desenvolvidas em parceria entre a Embrapa Agrobiologia e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Além da padronização da blenda CMC/amido, foram desenvolvidas blendas de CMC e biomassa da microalga spirulina; CMC e exopolissacarídeos (EPS) extraídos de uma estirpe de Bradyrhizobium; e CMC e lithothamnium, um produto obtido de uma alga vermelha de aspecto calcário (Phymatolithon calcareum). Essas blendas apresentam características específicas em termos de tempo e condições de armazenamento, podendo ser adaptadas para diferentes usos. Além de constituírem bons carreadores para microrganismos, as blendas CMC/amido são biodegradáveis e, portanto, são consideradas produtos ambientalmente amigáveis.

Veículo polimérico de inoculação. Foto: Paulo Jansen

Beneficiário de tecnologias como os bioinsumos, o segmento da agricultura familiar pode ser potencializado com a ampliação desses carreadores para inoculantes em diversas culturas, de forma a otimizar os benefícios dos processos biológicos de ciclagem de nutrientes e de adaptabilidade às condições de mudança do clima. 

*Jaqueline Carvalho é engenheira agrônoma e bolsista da Embrapa Agrobiologia. Paulo Jansen de Oliveira é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Gustavo Ribeiro Xavier e Norma Gouvêa Rumjanek são pesquisadores da Embrapa Agrobiologia, em Seropédica, RJ