Biotecnologia e IA: como essas tecnologias estão sendo usadas pelos agricultores familiares

Extensionista da Epagri, que acompanha o dia a dia do agricultor, comenta sobre essas tecnologias e como elas auxiliam na lida do campo

A assistência técnica e a extensão rural são serviços de grande importância para o processo de desenvolvimento rural. Os extensionistas são um elo fundamental entre os agricultores e as políticas públicas, às pesquisas e conhecimento científico, assim como às novas tecnologias. São esses profissionais que conseguem disponibilizar o conhecimento, auxiliando o agricultor a inseri-lo na propriedade, gerando maior organização, renda, segurança alimentar, aumento da produção, entre outros.

Para o engenheiro-agrônomo e extensionista rural da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Filipe Espíndola, “a extensão rural é fomento para esse desenvolvimento tecnológico nos territórios rurais”, mas acrescenta que ainda são necessárias efetivas ações para qualificar a atuação tecnológica  frente as necessidades das famílias atendidas. “Não basta demonstrar as soluções tecnológicas, se essas ainda são inacessíveis para a maioria. Buscar meios para qualificar e ofertar, ainda é o maior desafio, pois dependem de ações globais da esfera pública e privada”, diz.

Ele, que acompanha o dia a dia no campo de centenas de agricultores em Santa Catarina, já percebe o uso das biotecnologias e Inteligência Artificial (IA), nas propriedades, ainda que de forma bem tímida entre os agricultores familiares.

De acordo com Espíndola, a Inteligência Artificial está transformando o setor agrícola, inclusive entre agricultores familiares, embora sua adoção esteja mais avançada em grandes propriedades. Ele explica que entre os agricultores familiares, as IAs estão presentes principalmente nos aplicativos que ajudam a identificar uma doença, praga ou planta com base em imagens e nos chats automatizados para busca de informações. “Mas a utilização efetiva e ampla ainda é pequena. A informatização rural está em expansão, no entanto, não atende efetivamente todos os territórios rurais na mesma proporção.

São necessárias políticas públicas que viabilizem o acesso e favoreçam a ampliação destas e outras facilidades para o desenvolvimento dos territórios rurais, baseados na projeção do futuro”, acrescenta.

Biotecnologias

Biotecnologia é o uso de organismos vivos, como plantas, animais ou microrganismos, para melhorar a produção agrícola e a qualidade de vida das pessoas. Existem diversas inovações consideradas biotecnológicas, algumas trazem benefícios claros para a sociedade e o meio ambiente, enquanto outras são objeto de questionamento e debate.

Espíndola considera que as biotecnologias acompanham a humanidade há milhares de anos, seja na seleção genética de plantas e animais ou na utilização de leveduras para fermentação no processamento de alimentos e bebidas. E enfatiza que nos últimos anos, essas tecnologias evoluíram, trazendo soluções inovadoras para os agricultores.

De acordo com ele, uma dessas soluções são os biopesticidas que são substâncias derivadas de organismos vivos ou os próprios organismos vivos, como animais, plantas ou microrganismos, utilizados para o controle de pragas e doenças. Normalmente, são produtos com baixo impacto ao meio ambiente e à saúde das pessoas, sendo uma excelente opção para reduzir o uso de agrotóxicos.

Um exemplo, acrescenta, é o Trichoderma spp.“Que são fungos que atuam como agentes de biocontrole antagonistas de fitopatógenos de solo, ajudando a controlar doenças causadas por fungos patogênicos em plantas”. Cita ainda o Trichogramma spp, como outro exemplo, que são microvespas, insetos parasitoides que depositam seus ovos dentro ou sobre as pragas-alvo, como lagartas, pulgões ou moscas-brancas. Quando os ovos eclodem, as larvas da microvespa se alimentam da praga, levando-a à morte. Em um terceiro exemplo, fala sobre os inoculantes, que são aplicados em sementes de leguminosas para melhorar a fixação biológica de nitrogênio, reduzindo a necessidade de adubos sintéticos e aumentando a produtividade das lavouras.

A respeito de como essas novas tecnologias auxiliam na melhora da produção e trazem outros benefícios aos agricultores, o extensionista da Epagri, comenta que em geral as biotecnologias não agridem o ambiente e, para funcionarem de forma adequada, exigem que os agricultores trabalhem de forma mais racional. “Um agricultor que use ácaros predadores, por exemplo, e que siga corretamente as instruções, vai evitar ao máximo usar inseticidas e acaricidas na lavoura para preservar esses inimigos naturais. Dessa forma, o agricultor reduz a contaminação dos alimentos produzidos, preservando a saúde de sua família e consumidores,” esclarece.

Uma questão negativa que esses agricultores enfrentam, são as plantas transgênicas. “Apesar das facilidades que oferecem, podem acabar contaminando lavouras vizinhas, por meio da dispersão do pólen, comprometendo a produção daqueles que preferem manter suas culturas livres dessas características”, pontua.

Atualmente esses avanços têm chegado às propriedades, mesmo que em menor escala, mas Espíndola conta que quando cursava agronomia na UFSC, entre 2000 e 2004, ouvia falar dessas tecnologias, porém diz que não era fácil encontrar no mercado.“Mas, nesses últimos 20 anos, esses produtos foram chegando e hoje estão disponíveis para os agricultores familiares. As mesmas empresas que antes trabalhavam com agrotóxicos, atualmente, também, estão explorando esse mercado das biotecnologias”, informa.

A respeito das orientações sobre essas novas tecnologias nas propriedades, o extensionista afirma que ainda é preciso evoluir bastante, principalmente “na divulgação de como esses produtos devem ser utilizados, ampliando as discussões com as famílias atendidas e apresentado as soluções mais adequadas”, conclui.