Bactérias do gênero Bacillus se consolidam como os principais agentes de controle biológico na agricultura brasileira

Foram analisadas a evolução do mercado de produtos à base de Bacillus e a ação essas bactérias no controle de doenças nas plantas

O mercado brasileiro de produtos de controle biológico à base de bactérias do gênero Bacillus apresentou rápida expansão entre 2020 e 2025. Nesse período, a potencial área tratada com esses produtos aumentou de 7,5 milhões para 37,2 milhões de hectares, um crescimento de aproximadamente 391%. O faturamento passou de US$ 114,31 milhões (cerca de R$ 628,7 milhões) para US$ 403,17 milhões (cerca de R$ 2,21 bilhões), alta de 252%.

Os dados fazem parte de um estudo publicado no periódico Brazilian Journal of Microbiology por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da empresa Kynetec Brasil. O trabalho analisou a evolução do mercado brasileiro de produtos à base de Bacillus e reuniu informações sobre os mecanismos utilizados por essas bactérias para controlar doenças de plantas, promover o crescimento vegetal e contribuir para a tolerância a estresses ambientais.

De acordo com Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, em 2025 os produtos contendo Bacillus correspondiam a aproximadamente 43% da potencial área tratada com produtos contendo agentes de controle biológico no País. Na safra 2024/2025, o faturamento desses produtos representou 47% das vendas do mercado brasileiro de produtos à base de agentes de biocontrole, que alcançou US$ 855,68 milhões no período.

Mercado em expansão

Para estimar a potencial área tratada e o faturamento, os pesquisadores utilizaram dados de registros de produtos e informações de levantamentos realizados com produtores e gestores de propriedades agrícolas. As pesquisas de campo foram conduzidas pela Kynetec e envolveram cerca de 16 mil entrevistas por safra, considerando diferentes culturas, regiões produtoras e tamanhos de propriedades. Na safra 2024/2025, foram realizadas 15.708 entrevistas.

A chamada área potencial tratada corresponde à soma das áreas que recebem aplicações dos produtos, considerando as recomendações de uso e as práticas relatadas nos levantamentos. Em 2025, os produtos contendo agentes de biocontrole, de forma geral, alcançaram uma potencial área tratada de 86,9 milhões de hectares. Desse total, 37,2 milhões de hectares correspondiam a produtos biológicos à base de Bacillus.

“O crescimento ocorreu de forma contínua,” explica Bettiol. “A participação dos produtos à base de Bacillus na potencial área tratada por produtos contendo agentes de controle biológico passou de 34% em 2020 para 43% em 2025. Somente entre 2024 e 2025, a potencial área tratada com produtos à base dessas bactérias cresceu 35%”.

Cristiano Limberger, gerente comercial e especialista em estudos de mercado da Kynetec Brasil, ressalta o fato de que, em relação ao faturamento, os produtos à base de Bacillus passaram de US$ 114,31 milhões em 2020 para US$ 403,17 milhões em 2025. A participação desse grupo de organismos nas vendas totais de produtos de controle biológico aumentou de 42% para 47% no mesmo período.

Lilian Alves

Diversidade de produtos

A revisão identificou 297 produtos comerciais à base de Bacillus registrados e comercializados no Brasil até 2025, reunindo 126 cepas. Entre as espécies com maior número de cepas comercializadas estavam Bacillus subtilis, com 31, Bacillus amyloliquefaciens, com 27, e Bacillus velezensis, com 25. Também foram encontradas formulações com outras espécies e combinações de diferentes microrganismos.

De acordo com Roberto Lanna-Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, os produtos, registrados por 42 empresas, podem ser utilizados em diferentes modalidades de aplicação, como tratamento de sementes, pulverização foliar e aplicação no sulco de plantio. Destacavam-se como principais doenças e organismos-alvo nematoides-das-galhas e das lesões radiculares, antracnose, mofo-branco, mofo-cinzento, mancha-alvo, tombamento, oídio e nematoide-de-cisto.

“Entre as espécies, a Bacillus amyloliquefaciens alcançou a maior potencial área tratada em 2025. Produtos à base dessa espécie foram utilizados em 13,87 milhões de hectares. Na sequência figuraram as espécies Bacillus subtilis, Bacillus pumilus, Cytobacillus firmus, Bacilus velezensis e Bacillus methylotrophicus. Já a Bacillus thuringiensis, utilizada principalmente no controle de pragas, também se expandiu e alcançou 4,2 milhões de hectares de potencial área tratada em 2025”, destaca Lanna-Filho.

De acordo com Bettiol, outra tendência observada foi o crescimento de formulações em consórcio, que combinam diferentes espécies de Bacillus ou associam essas bactérias a fungos utilizados no controle biológico. Os consórcios formados exclusivamente por espécies de Bacillus alcançaram 5,57 milhões de hectares de potencial área tratada em 2025. Já os consórcios combinando Bacillus com fungos antagonistas como Trichoderma e Paecilomyces também cresceram.

Os múltiplos mecanismos de ação dos Bacillus

Além de analisar o mercado, o trabalho revisa os mecanismos que explicam a ampla utilização de Bacillus como agentes de biocontrole. Uma das características mais importantes dessas bactérias é a capacidade de produzir endósporos, estruturas resistentes que permitem a sobrevivência em condições ambientais desfavoráveis. Essa característica favorece o desenvolvimento de formulações estáveis e com maior facilidade de armazenamento.

As bactérias também produzem uma grande variedade de substâncias com atividade contra organismos causadores de doenças. Entre elas estão lipopeptídeos, bacteriocinas, enzimas, sideróforos e compostos orgânicos voláteis. “Esses metabólitos podem atuar sobre fungos, bactérias e nematoides por diferentes mecanismos”, explica Roberto Lanna-Filho.

Um dos mecanismos é a antibiose, na qual compostos produzidos pelas bactérias interferem diretamente nos organismos-alvo. Os lipopeptídeos das famílias iturina, fengicina e surfactina, por exemplo, afetam a membrana celular de patógenos. Enzimas produzidas por Bacillus também podem degradar componentes das paredes celulares de fungos e o revestimento de nematoides.

Outro mecanismo é a competição por espaço e nutrientes. As bactérias conseguem colonizar superfícies de sementes, raízes e folhas, formando comunidades protegidas por uma matriz que contribui para sua permanência na planta hospedeira. A ocupação desses espaços dificulta o estabelecimento de microrganismos patogênicos por formar uma barreira físico-tóxica.

Os pesquisadores também destacam o chamado quorum-quenching, mecanismo pelo qual determinadas bactérias interferem nos sistemas de comunicação utilizados por outros microrganismos. A interrupção desses sinais afeta processos relacionados à virulência, à formação de biofilmes e à sobrevivência dos patógenos.

Fabiano Bastos

Estímulos à defesa e ao crescimento das plantas

Os efeitos de Bacillus não se limitam à ação direta sobre os patógenos. Algumas espécies também podem estimular mecanismos de defesa das plantas, desencadeando respostas locais ou sistêmicas. Essas respostas envolvem diferentes vias hormonais associadas ao ácido salicílico, ácido jasmônico e etileno.

Outro efeito estudado é a promoção do crescimento vegetal. As bactérias podem produzir fitormônios (hormônios vegetais), solubilizar nutrientes e produzir sideróforos (moléculas que capturam e transportam ferro para o interior das plantas), além de influenciar a arquitetura das raízes. Há ainda evidências de que determinadas espécies auxiliam as plantas a enfrentar condições de estresse, como déficit hídrico, salinidade e temperaturas elevadas — aspecto de enorme importância considerando as mudanças climáticas.

Segundo Limberger, a combinação desses mecanismos ajuda a explicar a presença crescente de produtos à base de Bacillus em programas de manejo integrado. Nesses sistemas, os agentes de controle biológico são utilizados em conjunto com cultivares resistentes, rotação de culturas, práticas culturais, sistemas de apoio à decisão e, quando necessário, produtos químicos.

Perspectivas para os bioinsumos

A análise indica que o mercado de produtos à base de Bacillus vem se tornando mais diversificado, com aumento do número de cepas, produtos e combinações entre microrganismos. Para os pesquisadores, avanços em áreas como genômica, metabolômica e biologia de sistemas poderão contribuir para a seleção mais precisa das cepas e o desenvolvimento de consórcios direcionados a determinadas culturas, patógenos e condições ambientais.

O estudo também aponta que a evolução do mercado vem acompanhada de mudanças no ambiente regulatório, com maior exigência na identificação das cepas e aprimoramento da caracterização dos produtos. Esse processo colabora para ampliar a qualidade das informações disponíveis sobre os produtos comercializados.

Para Wagner Bettiol, a experiência brasileira mostra a interação entre conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico, regulamentação e adoção pelos agricultores na expansão dos produtos biológicos. O trabalho aponta ainda que o avanço das formulações à base de Bacillus estará cada vez mais associado a estratégias de manejo integrado de doenças e à busca por sistemas de produção mais sustentáveis.

Texto: Embrapa

Foto: Divulgação

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