Frete sob pressão: diesel escasso deve encarecer o trigo importado

Thiago Oleto

O mercado global de diesel segue apertado. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que as perdas de oferta da Rússia e do Oriente Médio somaram 1,3 milhão de barris por dia em setembro e prevê pressão sobre o produto até o primeiro semestre de 2027. O acordo entre EUA e Rússia anunciado em 9/10, que suspendeu sanções ao diesel russo, deve trazer alívio limitado no curto prazo. Esse cenário sustenta o custo de combustível dos navios: o VLSFO (óleo combustível de muito baixo teor de enxofre, o bunker mais usado) está em cerca de US$ 876,50 por tonelada na média dos 20 principais portos, aproximadamente 61% acima do patamar pré-guerra (US$ 543,50 em 27/02).

Os fretes marítimos para os portos brasileiros já refletem esse movimento. Entre as indicações de 5/10 e 13/10, nenhum porto ficou mais barato e a alta média foi de cerca de 3%. Rio Grande passou de US$ 28 para US$ 29/t, Santos e Paranaguá de US$ 31 para US$ 32/t e Fortaleza de US$ 37,50 para US$ 39/t. O sinal é de custo de combustível, e não de mercado aquecido: o Baltic Dry Index (índice de frete de granéis secos) recuou nas últimas semanas, e o Panamax, tipo de navio usado no transporte de grãos, está estável. Como o Brasil importa trigo, principalmente da Argentina, o frete compõe diretamente o custo do produto posto nos portos brasileiros. Mesmo com a oferta global confortável em 2026/27, a alta tende a pressionar os preços do trigo importado.

No mercado interno, o diesel agrava o quadro. O Brasil importa cerca de 30% do que consome, e o governo reforçou em R$ 1,40 por litro o subsídio ao produto importado, elevando o benefício total a R$ 3,52/L. Mesmo assim, o litro foi cotado a R$ 7,17 em 6/10, com alta de 6,4% em 30 dias, e o diesel S10 (com até 10 ppm de enxofre) subiu em 25 das 27 unidades da federação entre setembro e início de outubro. O subsídio amortece a alta, mas não a reverte.

A base de fretes rodoviários mostra o efeito nos corredores de grãos. Entre (28/09 a 19/10), o frete das origens de Goiás para Paranaguá subiu em média cerca de 11%, de R$ 320/t para R$ 355/t, enquanto para Santos ficou praticamente estável. De Sorriso (MT) para Paranaguá, passou de R$ 490/t para R$ 515/t (+5%). Dentro do Sul, os valores seguem estáveis ou até R$ 10/t mais baixos em várias rotas do Paraná e do Rio Grande do Sul. O risco está no que vem agora: a colheita do trigo no Brasil aumenta a demanda por caminhões justamente quando o diesel está mais caro. Isso encarece a movimentação do trigo, nacional ou importado, entre portos, regiões produtoras e moinhos. O subsídio amortece o custo do combustível, mas não impede que a alta chegue ao frete interno e, no fim, ao preço do trigo.

Especialista em Inteligência de Mercado – Trigo
Safras & Mercado

Foto: Divulgação

Conteúdo exclusivo de empresas participantes do Anuário Brasileiro do Agronegócio e Agricultura Familiar – LEIA O ANUÁRIO GRATUITAMENTE

Wordpress Social Share Plugin powered by Ultimatelysocial
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.