Allan André Tormen, gestor da Granja São Paulo (Paulo Bento/RS), presidente do Sindicato Rural de Erechim, coordenador adjunto do Conseleite/RS e integrante da Comissão de Leite e Derivados da Farsul e da CNA
O cenário da pecuária de leite é amplo quando analisamos aspectos ligados à cadeia produtiva em nível de Brasil. Naturalmente, em um país continental, as diferenças socioeconômicas e culturais influenciam a produção, o nível de investimento, de tecnologia e inovação adotados, os quais interferem nos resultados e, certamente, no futuro das atividades. Em paralelo, existe a transformação da sociedade, que ao longo do tempo muda comportamentos e a forma de consumo. Por isso, recortamos alguns pontos que consideramos relevantes neste cenário, a fim de propor uma leitura para o universo do leite para os próximos anos.
Antes de olhar adiante, o momento atual da bovinocultura de leite tem demonstrado uma reorganização do setor, em especial no que se refere ao perfil dos pecuaristas, bem como nas principais regiões produtoras. Referente a 2024, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a produção brasileira de leite bateu recorde. Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE demonstram que foram gerados 35,7 bilhões de litros de leite, o que representa uma alta de 1,4% se comparado com 2023.
Além disso, outra mudança é que a região Sudeste ultrapassou o Sul, reassumindo a primeira posição do país na produção de leite. Em 2024, o Sudeste produziu 12,0 bilhões de litros, 2,8% a mais que 2023. Já a região Sul somou 11,9 bilhões de litros em 2024, ainda conforme o IBGE. Neste cenário, os mineiros mantiveram a liderança, com 9,8 bilhões de litros; seguidos do Estado do Paraná, com 4,6 bilhões de litros. O Rio Grande do Sul ficou em terceiro lugar no ranking, com 4,02 bilhões de litros em 2024, ainda conforme o IBGE (mesmo com uma redução na produção, cuja principal causa são as enchentes registradas em maio/junho do mesmo ano).
Outra realidade que vale analisar é o aumento da produtividade anual em nível nacional, que teve um incremento de 4,9% (IBGE). Em outra ponta, o número de vacas ordenhadas reduziu em 3,4%. Esse dado demonstra uma possível mudança relevante nos negócios rurais que envolvem a produção de leite, em que a eficiência produtiva pode estar ligada ao melhoramento e seleção genética, bem como ao manejo mais tecnificado.
O Rio Grande do Sul também demonstra uma mudança no perfil dos produtores (a Emater/RS-Ascar analisa este cenário bianualmente), tendo em vista que muitos deixaram a atividade, mas houve manutenção e/ou aumento na produção. Fica evidente que o pecuarista que está permanecendo na atividade é aquele que a trata como um negócio, investe em gestão e em melhorias técnicas. Inclusive, também se observa essa mudança na concentração da produção de leite em outros países ao redor do mundo.
Diante dessas realocações, alguns desafios seguem mais evidentes para a rotina de quem produz leite. O desaparecimento de milhares de tambos de leite tem diversas influências, entre elas a dificuldade de mão-de-obra capacitada e acessível; e entraves culturais na tomada de decisão em adotar tecnologias que facilitam o trabalho diário, entre outros. Em casos como o Rio Grande do Sul, soma-se a isso o alto índice de endividamento dos produtores, as dificuldades no acesso a crédito e os desafios climáticos. No Rio Grande do Sul esse endividamento, vale lembrar, é resultado de pelo menos quatro anos de estiagem, além da severa enchente de 2024.
Todo esse cenário se soma a margens mais apertadas, apesar de no último ano commodities como soja e milho terem baixado de preço, o que impacta na redução de custos para o fornecimento de alimento para os planteis. Com isso, a gestão dos negócios tem sido o ponto-chave para a manutenção de granjas produtoras de leite, onde não se aprimoram apenas as questões técnicas, mas dos números e dos resultados.
Pode-se acrescentar a isso a necessidade de trabalhar com gestão e conhecimento técnico para que se construam tambos com alta eficiência, produzindo um leite mais competitivo e que tenha a qualidade que a indústria necessita. Se o consumidor dita o que o mercado produz, nosso elo da cadeia precisa estar conectado a isso por meio do setor que processa o leite. Essa conexão pode facilitar que cheguemos a um produto bem aceito, com alta capacidade de uso pela indústria e que caiba no bolso das pessoas.
Essa eficiência no mercado interno precisa ser, também, um exercício para que logo ali adiante possamos potencializar as exportações do leite brasileiro, apesar de o país ainda não ser superavitário neste produto. Afinal, a população mundial não para de crescer e o Brasil tem sido cada vez mais reconhecido pelos pensadores do nosso setor como o “grande supermercado do mundo”.
Nesse sentido, não importa necessariamente quantas vacas se tem ou qual sistema de produção se adota. Importa sim ser eficiente dentro do que se escolhe produzir, dentro de cada realidade, com as ferramentas que podem ser usadas no momento ou construídas para logo mais. E sempre é importante lembrar: a pecuária de leite tem a capacidade de gerar uma movimentação econômica mensal, que tem valor imensurável para comércio e serviços do seu entorno, seja no interior do Rio Grande do Sul ou de Minas Gerais, por mais distintas que possam ser essas realidades.
O desafio “mora ao lado”
Uma reflexão importante sobre o cenário do leite é que os desafios são maiores para os pecuaristas do Sul. A localização da região, próxima ao Uruguai e da Argentina, fazem com que esteja na rota para entrada de leite externo, produzido com mais eficiência se comparado com o produto brasileiro. Isso nos leva a crer que o Rio Grande do Sul precisa ser protagonista na exportação, em função das condições que o Estado possui.
Hoje já é necessário mandar leite para fora do Estado do RS, tendo em vista que o grande centro consumidor do leite está no eixo Rio-São Paulo. Mas, para que possamos vender nossa matéria-prima para outros países, naturalmente precisamos avançar em certificações sanitárias (em especial de brucelose e tuberculose) e eficiência produtiva, que nos garantirá competitividade.

