De importador para autossuficiência e maior exportador mundial de carne bovina

Nos últimos 50 anos, o setor evoluiu muito com a incorporação de várias tecnologias aos sistemas como, por exemplo, forrageiras mais produtivas, resistentes às pragas e doenças e adaptadas às diferentes regiões e tipos de solo

A criação de gado bovino no Brasil iniciou com animais taurinos trazidos da Península Ibérica pelos colonizadores, que depois de adaptados deram origem às raças denominadas “crioulas” ou “taurinas localmente adaptadas”, conforme informações do livro “Brasil em 50 Alimentos” produzido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em homenagem aos 50 anos da empresa.

Liderança mundial

O rebanho brasileiro mais do que dobrou em relação aos anos de 1970. Segundo o IBGE, o tamanho do rebanho bovino (bois e vacas) está em 238.180.757 cabeças, conforme dados de 2024. Além do crescimento do rebanho, neste período, também foram registrados ganhos excepcionais em diversos índices zootécnicos que proporcionaram ao Brasil uma conquista sem paralelo em todo o mundo.

Reviravolta 

Nos últimos 50 anos, o país saiu da condição de importador para a autossuficiência na produção de carne bovina. Conforme informações da Embrapa, 75% da produção é destinada ao mercado interno, isso corresponde a um consumo médio anual de 34,3 kg por habitante por ano, como observado em 2021, um dos mais elevados do mundo. E com a produção excedente, apenas 25%, o Brasil passou a condição de maior exportador mundial, posição mantida desde 2004.

Exportação 

Conforme o Beef Report 2025, publicação anual que reúne os dados mais relevantes e atualizados da pecuária bovina brasileira, produzido pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o Brasil exportou 2,89 milhões de toneladas de carne bovina em 2024, estabelecendo um novo recorde de volume, superando os resultados dos dois anos anteriores. A proteína brasileira chegou a 157 mercados internacionais, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), compilados e analisados pela ABIEC. 

De acordo com a publicação, em faturamento, as exportações somaram US$ 12,8 bilhões, o segundo maior resultado da série histórica, com crescimento de quase 22% em relação a 2023. “O preço médio da carne bovina exportada foi de US$ 4.448 por tonelada, levemente inferior ao do ano anterior. A carne bovina in natura segue como o principal item da pauta exportadora, representando 88% do volume total embarcado. A China manteve-se como principal destino, responsável por 46% das compras brasileiras”.

“Esse resultado representa um crescimento expressivo de quase 22% em valor e consolida uma trajetória contínua de expansão, com alta acumulada de mais de 50% nos últimos cinco anos. Consolidamos nossa posição como líder mundial em exportações e segundo maior produtor global, com um rebanho comercial estimado em 194 milhões de cabeças”, afirma o presidente da ABIEC, Roberto Perosa.

Conforme o Beef Report 2025, a cadeia da carne bovina movimentou, em 2024, cerca de R$ 1 trilhão, o equivalente a 8,4% do PIB nacional.

História 

Os zebuínos entraram no Brasil vindos da Índia e somente a partir do século 19. “Até o início dos anos de 1970, os mestiços zebuínos e desses com as raças crioulas compunham a maioria do nosso rebanho. Os trabalhos de melhoramento genético se restringiam à coleta de dados de genealogia e de provas zootécnicas, as quais foram implantadas no final dos anos 1960. A seleção de reprodutores era feita com base em características do biótipo animal, de acordo com o padrão racial”. 

A reprodução do rebanho se fazia por monta natural, enquanto a inseminação artificial apenas dava os seus primeiros passos. “A pecuária era mais desenvolvida nos biomas Pampa e Pantanal, com pastagens nativas de boa qualidade. Em áreas mais férteis, por exemplo, com capins do tipo jaraguá, gordura e colonião, o gado ganha peso no verão, mas perdia boa parte dele na época seca seguinte. A grande fronteira a ser conquistada era o Cerrado, com solos ácidos e de baixa fertilidade, cujas pastagens naturais eram nutricionalmente muito pobres”. 

O desempenho era muito baixo e a produção não atendia a demanda interna do país, que apresentava um consumo de 18 kg de carne por habitante por ano. 

Novas tecnologias

Nos últimos 50 anos, o setor evoluiu muito com a incorporação de várias tecnologias aos sistemas de produção como, por exemplo, forrageiras mais produtivas, resistentes às pragas e doenças e adaptadas a diferentes regiões e tipos de solo. “Tecnologias pioneiras foram também desenvolvidas na nutrição mineral, com pesquisas das relações solo-planta-animal”.

Na sequência dos avanços e melhorias, vieram a suplementação proteica e proteico-energética para recria e terminação intensiva a pasto para engorda em confinamento, com o surgimento de inúmeras indústrias produtoras desses insumos. “Em genética e reprodução, progressos consideráveis foram alcançados por meio do lançamento pioneiro dos sumários de touros, matrizes e produtos, incluindo estimativas das diferenças esperadas na progênie (DEPs) e estratégias para os planos de acasalamento, pelo controle da consanguinidade e otimização dos valores genéticos dos futuros embriões”.

Segundo o livro “Brasil em 50 Alimentos”, “mais recentemente, a precisão cada vez maior para as diferenças esperadas na progênie (DEPs) tem sido proporcionada pela genômica, com reflexos positivos no melhoramento de características, tais como produtividade das matrizes, eficiência alimentar e qualidade das carcaças e da carne. Por sua vez, técnicas de inseminação artificial em tempo fixo, fecundação in vitro e transferência de embriões, outrora restritas a plantéis de seleção, chegam aos rebanhos comerciais”.

Na questão da saúde animal, destaca-se o controle estratégico de vermes gastrintestinais e de parasitas externos como moscas e carrapatos. “Hoje, o calendário estratégico de manejo sanitário vem possibilitando o acompanhamento do rebanho, ao longo do ano, com aplicação de vacinas contra várias doenças, conforme recomendação técnica específica para cada categoria animal”.

Integração lavoura-pecuária (ILP) 

Os sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) e lavoura-pecuária-floresta (ILPF) vêm sendo cada vez mais utilizados, com excelentes resultados para a conservação do solo, redução da pressão pela abertura de novas áreas e diversificação da produção. “Outro ganho extraordinário é o melhor balanço na produção de gases de efeito estufa, especialmente pelo carbono armazenado nas árvores e raízes das pastagens, base dos sistemas Carne Carbono Neutro e Carne de Baixo Carbono – tecnologias pioneiras e genuinamente brasileiras”. 

“Além desse ganho direto, salienta-se o bem-estar animal proporcionado pelo ambiente natural das pastagens e pela sombra das árvores. Com pastagens e nutrição adequada, saúde, genética animal superior e sistemas integrados, o ciclo de produção foi reduzido com expressivos ganhos em produtividade e qualidade da carne produzida”.

Benefícios à saúde humana 

Conforme o livro “Brasil em 50 Alimentos”, estudos antropológicos indicam que a evolução da espécie humana (Homo sapiens) foi muito influenciada à medida que a carne de caça passou a compor a sua dieta há cerca de 4 milhões de anos. “Ao longo desse período, o consumo da carne, que combina elevados teores de energia e proteína, implicou uma redução do tamanho do trato gastrintestinal, cuja economia permitiu maior desenvolvimento do nosso, energeticamente, exigente cérebro, nos padrões como é hoje”.  

A ligação entre o consumo de carne e a evolução humana é reforçada pelo fato de que muitos dos nutrientes que é preciso ingerir são componentes que ocorrem naturalmente na carne, tais como o aminoácido taurina e os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa.  “O consumo da carne facilita o balanceamento das dietas, ao possibilitar menor inclusão de carboidratos, cujo consumo excessivo associa-se ao aumento de doenças crônicas. Além disso, melhora a absorção de minerais, como ferro e zinco, e contribui com aminoácidos e ácidos graxos essenciais e de ação metabólica, a exemplo do ácido linoleico conjugado e do ômega-3”.  

Por outro lado, se a carne bovina for restrita, na dieta humana, pode implicar perda na qualidade de vida, mesmo que essa restrição não esteja gerando qualquer outro problema de saúde mais grave, como a anemia. 

Outra característica da carne bovina é que ela pode ser servida e consumida, todos os dias, porque não enjoa. “A qualidade da carne bovina é influenciada por inúmeras e complexas características. A aparência visual é determinada pela apresentação e pelo aspecto da carne, cuja coloração clássica é vermelha-intensa. Do ponto de vista gustativo, considera-se a sensação de prazer durante o consumo, o qual é especialmente associado à maciez da fibra muscular e à suculência, em razão da presença de gordura”.

Por fim, importante ressaltar que a carne bovina é sempre muito desejada e a população consome mais ela quando há aumento de renda. 

Nos últimos 50 anos, o setor evoluiu muito com a incorporação de várias tecnologias aos sistemas de produção como, por exemplo, forrageiras mais produtivas, resistentes às pragas e doenças e adaptadas a diferentes regiões e tipos de solo. Foto: Embrapa