Agilidade na análise muda cenário produtivo local

O laboratório auxilia na exportação de frutos de lima ácida para a União Europeia. Pequenos e médios produtores dos estados da Bahia, Sergipe e Minas Gerais têm sido beneficiados pela proximidade, com emissão de laudos no período de 1 a 10 dias

Em 2024, o Laboratório de Fitopatologia da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA) foi reconhecido pelo Departamento de Sanidade Vegetal do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) como apto para emitir laudo para verrugose dos citros, doença fúngica que limita o envio de frutos de lima ácida para a União Europeia devido à restrição fitossanitária para Elsinoe spp., praga considerada quarentenária, ou seja, inexistente, na região.

Com isso, pequenos e médios produtores dos estados da Bahia, Sergipe e Minas Gerais têm sido beneficiados pela proximidade do laboratório, que emite laudos no período de 1 a 10 dias, a depender da demanda e da presença ou não dos sintomas nos frutos. De acordo com os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, em 2023, a Bahia foi o terceiro maior estado produtor brasileiro de limão, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.

Fruto de lima ácida CNPMF 02, variedade desenvolvida pela Embrapa Mandioca e Fruticultura
Foto: Léa Cunha

Causada pelo fungo Elsinoë, a verrugose afeta folhas, frutos e brotações em áreas produtoras de citros, em todo o mundo. Tem grande importância econômica, porque o aspecto da casca, com lesões salientes e crostas grossas, reduz drasticamente a comercialização dos frutos, em especial os destinados à exportação. Alguns sintomas da verrugose são parecidos com os do cancro cítrico, doença bacteriana causada por Xanthomona citri subsp. citri, também não existente na União Europeia, mas presente em alguns estados brasileiros — a Bahia é área livre desde 2017.

De acordo com o fitopatologista, Francisco Laranjeira, chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, do ponto de vista da biologia, as semelhanças com o cancro cítrico acontecem apenas na aparência dos frutos, o que pode causar confusão para leigos. “Verrugose é fungo e cancro é bactéria. O cancro ‘passa’ de um fruto para outro, pois a bactéria pode ficar na caixa e até mesmo na mão de quem pega o fruto. Já um fruto infectado com a verrugose não infecta o sadio, ainda que estejam na mesma caixa. Ele pode até passar esporo, mas não vai ter infecção porque a verrugose só infecta tecidos imaturos”, afirma.

Monitoramento

Segundo informações do Observatório da Agricultura Brasileira, provenientes dos bancos de dados do Sistema de Estatísticas de Comércio Exterior do Agronegócio (AgroStat) e do Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), em 2023, o Brasil recebeu 139,3 milhões de dólares com a venda de frutos de lima ácida. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), juntos, limões e limas, em 2024, foram a segunda fruta exportada pelo país, atrás apenas das mangas.

O auditor fiscal agropecuário, Caio César Simão, chefe da Divisão de Programas Especiais de Exportação do Mapa, confirma que, em relação às exportações de lima para a União Europeia, a grande preocupação do órgão sempre foi o cancro cítrico. “Mas, de 2021 a 2024, eles começaram a interceptar muitos envios brasileiros com verrugose, que é uma praga quarentenária, ou seja, ausente lá. Nós, pesquisadores, fiscais e produtores brasileiros, sempre tivemos muita dificuldade em encontrar esses sintomas de verrugose, porque não é um problema na lima ácida. Então, começamos a realizar uma espécie de monitoramento dos campos, um controle nosso maior, com apoio da Embrapa, com o objetivo de facilitar e manter a exportação. Por um problema parecido, a pinta preta, a nossa exportação de frutos de laranja para Europa também acabou. Hoje só exportamos suco”, recorda Caio.

No caso específico da Bahia, de acordo com dados do Mapa, os rechaços de cargas oriundas do estado pela presença de Elsinoe spp., têm aumentado nos últimos anos.“O aumento de interceptações não significa um aumento do problema na Bahia, mas um maior rigor da Europa em relação à detecção da praga”, observa. O laudo para verrugose passou, então, a ser obrigatório. “É uma medida que o Mapa adotou para garantir a conformidade dos envios e não foi uma exigência da União Europeia. A Europa não tem verrugose e não quer ter. Então, precisamos realizar um monitoramento para que o produtor possa ser melhor nas práticas, na seleção e na amostragem”, esclarece o representante do ministério.

Segundo IBGE, em 2023, a Bahia foi o terceiro maior estado produtor brasileiro de limão, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais

Fiscalização e auditoria

O cancro cítrico é uma das grandes preocupações da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), desde 2005, quando foi estabelecida a portaria nº 119, que dispõe sobre normas aplicáveis à produção, ao trânsito e ao comércio de mudas, porta-enxertos, borbulhas e frutos de espécies cítricas no Estado da Bahia.

O objetivo da portaria é evitar a introdução de pragas, como cancro cítrico, verrugose, morte súbita dos citros (MSC), mancha preta dos citros e huanglongbing (HLB ou greening), que seriam grandes ameaças ao parque citrícola baiano. Como resultado do cumprimento da portaria pelos produtores e da fiscalização da agência, o estado é considerado área livre para cancro cítrico, o que mostra uma vantagem competitiva em relação aos demais estados, inclusive São Paulo, que é o maior produtor brasileiro.

A fiscal estadual agropecuária Suely Xavier de Brito Silva, coordenadora do Projeto Fitossanitário de Citros da Adab, destaca a importância da portaria estadual. “Ela proíbe o beneficiamento e o rebeneficiamento de frutos que não tenham sido produzidos na Bahia. Isso é uma medida de segurança para que não adentrem frutos com sintomas de pragas que pudessem se estabelecer aqui”, alerta. Sobre as análises realizadas pelo laboratório da Embrapa, Suely conta que foi uma indicação da Adab ao Mapa. “Pensamos na quantidade de agricultores familiares que seriam beneficiados nesse processo, principalmente da Bahia”.

Como acontece a análise

O laudo laboratorial emitido em nome da unidade de produção (UP), indicando a presença ou ausência da praga, é válido por 30 dias e deve ser apresentado pelo produtor à Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) do Mapa, no porto marítimo, para fins de certificação de exportação.

De acordo com o ofício do Mapa, cada amostra deve conter, no mínimo, 20 frutos. Devem ser amostradas 2% das árvores de cada UP, coletando-se, no mínimo, um fruto apresentando lesões de casca por árvore amostrada. O laudo laboratorial emitido deve declarar explicitamente o número da UP da qual a amostra foi retirada.

A responsabilidade pela coleta e pelo transporte das amostras ao laboratório é do produtor. “Após receber a amostra, fazemos o cadastro e iniciamos a avaliação. Todos os frutos são avaliados em lupa para verificar a presença de sintomas da verrugose. Se forem identificados os sintomas típicos, fazemos lâminas dessa parte afetada no fruto e analisamos em microscópio ótico para verificar se encontramos os sinais do fungo, que são os esporos [conídios] hialinos e de formato alongado. Se identificadas as estruturas do fungo e validadas com base nas características morfológicas, a amostra é dada como positiva”, explica Leandro de Souza Rocha, responsável pelo Laboratório de Fitopatologia da Embrapa Mandioca e Fruticultura.

O fitopatologista, Leandro Rocha, responsável pelas análises para verrugose, observa na lupa frutos com sintomas de verrugose Foto: Léa Cunha

Produtores atendidos

Para o engenheiro-agrônomo e consultor em citros sediado no recôncavo baiano, Gabriel Pedreira da Paixão, a realização das análises pela Embrapa ajudou muito a cadeia produtiva da lima ácida Tahiti da região. “Beneficiou produtores, responsáveis técnicos e comerciantes do setor em atender à exigência imposta pelo Mapa. O primeiro ponto é a facilidade e a redução do custo com transporte das amostras aos laboratórios credenciados. Antes, tinham que ser enviadas a outros estados, como Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro”, explica Gabriel, que também é responsável técnico habilitado para emissão de Certificado Fitossanitário de Origem (CFO) e do Certificado de Origem Consolidado (CFOC).

O custo do procedimento também é uma vantagem. “Ele é cerca de quatro vezes menor que outros laboratórios devido ao método de análise morfológica realizado na Embrapa ser mais rápido, utilizar menos recursos e ser tão eficiente quanto o método PCR [técnica da biologia molecular que amplia uma região específica de DNA]”, salienta.

Tecnologias para evitar a verrugose

O pesquisador Francisco Laranjeira alerta que algumas atitudes tomadas ainda no campo podem afastar a contaminação de frutos pela verrugose: a pulverização, no momento certo, com produtos adequados e registrados no Mapa; o monitoramento da área para retirada de material com sintomas e correto descarte; e a orientação à equipe de colheita para separação de frutos suspeitos. Já no packing house (casa de embalagem), o maior cuidado deve ser com a pré-seleção dos frutos. 

“Em todas essas etapas os produtores podem contar com a transferência de tecnologias da Embrapa, como os tratos culturais, o sistema de produção e, inclusive, a capacitação dos auxiliares e técnicos do campo, como os pragueiros. Não existe variedade resistente à verrugose, mas todas essas tecnologias são úteis para se ter uma boa produção com menor risco de ocorrência da verrugose”, informa Laranjeira.

A doença

A verrugose ataca laranjas azedas, laranjas doces, tangerinas, tangores e limas ácidas e afeta os frutos durante os três primeiros meses de vida. As lesões no fruto maduro serão maiores quanto mais cedo o fruto for atacado. Além de depreciarem seu valor comercial para o mercado de frutas frescas, as lesões que o fungo produz na casca dos frutos também servem de esconderijo para o ácaro-da-leprose, dificultando seu controle.