Do Brasil para o mundo: a exportação do mel brasileiro impulsiona a produção sustentável

País se destaca pela diversidade de floradas, pela produção de alto valor agregado e pela integração entre agricultura, apicultura e conservação ambiental

Com mais de 37,9 mil toneladas embarcadas em 2024, segundo o CropData, o Brasil está entre os mais relevantes exportadores mundiais de mel. Entre os diferenciais da produção nacional está o protagonismo do país no segmento de mel orgânico, resultado de uma cadeia que conecta conservação ambiental e diversidade de floradas – fator relevante para a sanidade das abelhas.

A apicultura brasileira se beneficia dos diferentes biomas e paisagens agrícolas do país, que proporcionam características únicas de sabor, aroma e coloração aos 12 tipos de mel produzidos no Brasil. Com produções em estados como Paraná e Piauí, a diversidade contribui para o reconhecimento internacional do produto brasileiro e sua competitividade no mercado externo.

Além da produção, a atividade apícola também desempenha um papel estratégico para a agricultura. Ao realizar a polinização, as abelhas contribuem para o aumento da produtividade, melhoria da qualidade dos frutos e conservação da biodiversidade, o que fortalece as práticas agrícolas sustentáveis e equilibradas.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (ABEMEL), Renato Azevedo, a apicultura brasileira está preparada para atender às exigências dos mercados internacionais em certificação, rastreabilidade e manejo sustentável. “O objetivo dessas exigências é garantir uma produção responsável e alinhada às demandas globais por sustentabilidade.”

Segundo Renato, o mel brasileiro também se destaca pelo valor agregado no mercado internacional. Enquanto o mel comercializado globalmente registra preços médios em torno de US$ 2 mil por tonelada, o produto brasileiro pode alcançar até US$ 3,5 mil por tonelada, mais de 50% acima da média internacional. Esse diferencial está ligado à qualidade, à diversidade floral e ao modelo de produção adotado no país.

Ele ressalta ainda que características das abelhas africanizadas utilizadas no Brasil, como resistência e comportamento higiênico, contribuem para reduzir a necessidade de intervenções químicas e fortalecer uma produção mais sustentável e competitiva. “Nosso mel e nossas abelhas são um grande patrimônio”, destaca.

Diversidade da flora e biomas

A diversidade da flora brasileira e das espécies de abelhas nativas, somada à presença da Apis mellifera, garante uma variedade de méis produzidos em todo o território nacional. O Brasil conta com 12 tipos de mel, que se diferenciam por características como consistência, sabor, cor, aroma, acidez, umidade, viscosidade e tempo de cristalização. Essas propriedades variam de acordo com as flores utilizadas na coleta do néctar e conforme o tipo de abelha responsável pela produção.

Segundo o coordenador da Comissão de Apicultura da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul e apicultor, Aldo Machado dos Santos, a diversidade das floradas influencia a saúde das abelhas e a qualidade final do produto. “Temos vários tipos de mel no Brasil, como o mel do Pampa, da Serra Gaúcha, do Pantanal e da Caatinga, todos com características muito distintas. O mel do Nordeste costuma ser mais escuro e intenso, enquanto no Sul predominam méis mais claros e suaves”, explica.

Entre os méis produzidos pela Apis mellifera, destacam-se o mel de laranjeira, de coloração clara e bastante comum na região Sudeste, e o mel de cipó-uva, quase transparente, típico do Cerrado. Já no Nordeste, espécies nativas como Uruçu, Jataí e Jandaíra produzem méis claros, levemente ácidos e altamente valorizados, tanto na gastronomia quanto em usos tradicionais ligados à medicina popular.

O único tipo de mel produzido no Brasil que não é feito a partir do néctar de flores é o Mel de Melato de Bracatinga. Ele é produzido a partir do líquido secretado pelo inseto cochonilha, que se alimenta da seiva das árvores de bracatinga, típicas da região Sul, e apresenta efeitos benéficos à saúde pela presença de compostos bioativos e antioxidantes. Por conta de seu alto valor nutritivo e baixa presença no mercado brasileiro, grande parte da produção é destinada exportação, especialmente para países da Europa, onde o produto possui elevada valorização.

Segundo Renato Azevedo, ampliar o conhecimento científico e a divulgação das propriedades desse tipo de mel são passos fundamentais para fortalecer sua presença no mercado internacional. “Quando começamos a trazer informação acadêmica, explicar os benefícios desses produtos e mostrar as vantagens do consumo, criamos valor agregado e estimulamos uma demanda maior no exterior. Para isso, precisamos aproximar cada vez mais a academia do campo”, afirma.

Azevedo destaca ainda que, embora esse trabalho de pesquisa e valorização esteja em estágio inicial, o Brasil tem potencial pela diversidade de produtos e pela capacidade de desenvolver nichos de mercado.

Coexistência e benefícios mútuos entre agricultores e apicultores

Estima-se que cerca de 75% das culturas agrícolas dependam, em algum grau, da polinização animal. No Brasil, o valor econômico desse serviço realizado pelos polinizadores, especialmente pelas abelhas, ultrapassa os R$ 43 bilhões. Nesse contexto, a integração entre agricultores e apicultores se torna estratégica para fortalecer a produção, gerar produtos de maior valor agregado e contribuir para a conservação da biodiversidade.

Entre as principais Boas Práticas Agrícolas recomendadas estão a conservação da vegetação nativa, a diversificação das paisagens agrícolas e a aplicação de defensivos de acordo com as orientações técnicas e horários adequados, evitando períodos de maior atividade das abelhas. Aldo Machado dos Santos, destaca que a adoção dessas práticas permite uma convivência entre agricultura e apicultura.

“Faço polinização em lavouras de soja há mais de 20 anos e, onde os produtos são aplicados de forma correta, nunca tivemos perda de enxames”, relata. Segundo ele, a complementaridade entre culturas agrícolas e floradas também favorece a manutenção das colmeias ao longo do ano. “A floração da soja na nossa região coincide com a pré-florada do eucalipto, ampliando o pasto apícola e mantendo as abelhas alimentadas em diferentes épocas”, explica.

Embora a soja não seja considerada uma cultura dependente de polinização, estudos apontam que a interação com polinizadores pode elevar a produtividade entre 10% e 20%, reforçando o papel das abelhas na agricultura sustentável. Em contrapartida, o mel produzido a partir do néctar da flor da soja apresenta características valorizadas pelo mercado, como baixa cristalização, coloração clara alaranjada e aroma floral suave.

Para Renato Azevedo, o desafio do setor está em conciliar a força produtiva do agronegócio com a agenda de conservação dos polinizadores. “Precisamos profissionalizar a apicultura para que ela se torne a principal fonte de renda do produtor. Muitas vezes, a atividade ainda é complementar, o que limita investimentos em conhecimento, manejo e boas práticas”, afirma.

Azevedo defende que o fortalecimento do mercado interno e externo é essencial para ampliar a valorização do mel brasileiro e estimular maior dedicação dos produtores à atividade. “Quando agricultores e apicultores trabalham de forma integrada, os ganhos são enormes. Existe uma relação de interdependência que precisa ser aproveitada da melhor maneira possível”, ressalta.

De acordo com a ABEMEL, a produção brasileira tem registrado crescimento entre 6% e 10% nos últimos anos, impulsionada por produtos de maior valor agregado, como o mel orgânico, o mel de aroeira e o mel de melato de bracatinga. A crescente valorização da sustentabilidade, da rastreabilidade e da conservação ambiental no mercado internacional também fortalece iniciativas voltadas à proteção da biodiversidade e dos polinizadores.

Texto: CropLive

Foto: Divulgação

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