Apicultor integra cultivo de mel, agricultura familiar irrigada, silvicultura, com apoio do governo. Ações unem assistência técnica, produtividade, emprego e renda e segurança alimentar
As abelhas são responsáveis pela polinização das plantas, promovendo a fecundação das flores para a produção de frutos. Em troca desta importante tarefa, elas coletam o néctar e o pólen para sua alimentação. O produtor rural, Eloi Francisco de Menezes, em Malhador, no agreste de Sergipe, fez a integração, exitosa, entre a produção de mel com a agricultura familiar irrigada e a silvicultura. O resultado é produção o ano inteiro, porque aumenta o tempo de floração e a oferta de mel nas colmeias, por mais de nove meses. Ele trabalha num dos 344 lotes do Perímetro Irrigado Jacarecica II, que tem 820 hectares, e se destaca nas culturas da cana de açúcar, aipim, banana e batata-doce.
O estado de Sergipe tem seis Perímetros Irrigados públicos estaduais, são eles: Califórnia, em Canindé de São Francisco; Jabiberi, em Tobias Barreto; Jacarecica I, em Itabaiana; Jacarecica II, entre Malhador, Itabaiana e Riachuelo; Piauí, em Lagarto; e Poção da Ribeira, entre Areia Branca e Itabaiana. Os seis perímetros irrigados administrados pela Coderse injetaram em seus municípios, a partir da comercialização da produção irrigada, mais de R$ 210 milhões em 2023.
O objetivo destas áreas irrigadas é garantir a subsistência das pessoas, segurança alimentar e nutricional em todo o território, gerar oportunidades de emprego e renda para milhares de sergipanos e, assim, manter o trabalhador na zona rural. A gestão dos perímetros irrigados é executada por meio da Companhia de Desenvolvimento Regional de Sergipe (Coderse), vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca (Seagri).
Já faz 13 anos que Eloi Francisco de Menezes é irrigante do Perímetro Irrigado Jacarecica II, no Assentamento Marcelo Déda. Por meio da infraestrutura hídrica da empresa pública, o agricultor e seus vizinhos recebem água bruta para irrigar suas plantações. Ele cultiva banana, milho, coco, cana, árvores nativas ou exóticas que oferecem néctar, pólen e outros elementos que as abelhas usam para produzir própolis. Contando com esta rica flora — encontrada no seu e nos demais lotes do Jacarecica II — ele cria as abelhas das espécies uruçu, nativa do Brasil e sem ferrão, e as do gênero Apis, a africana e a europeia.
Irrigação
Para o diretor de Irrigação e Desenvolvimento Agrícola da Coderse, Júlio Leite, os ramos escolhidos pelo produtor, Eloi Francisco, aumentam o potencial produtivo dos Perímetros Irrigados do governo do Estado. “O produtor Eloi trabalha sozinho em seu lote, mas as suas abelhas, por si só, criam uma espécie de parceria com os lotes vizinhos, ao extrair sua matéria-prima das plantações, contribuindo com a polinização dessas mesmas plantas, favorecendo a produção. Ele aproveita esse potencial, de todas as floradas da irrigação, para produzir mel, iniciativa que deve ser incentivada entre os outros irrigantes, naquele e demais perímetros”, pontua Júlio Leite.
O trabalho de assistência permite que o governo alcance o produtor do perímetro de forma integral, para além do abastecimento hídrico. E em se tratando da parte estrutural dos perímetros irrigados em Sergipe, diversos investimentos vêm sendo feitos para garantir a cobertura das propriedades e o bom funcionamento dos sistemas e suas instalações. O trabalho da Coderse também envolve a limpeza e recuperação de placas em canais, recuperação das estradas vicinais, limpeza e drenagem em lotes, assim como melhorias nas estruturas desses territórios.
Segundo o diretor de Irrigação da Coderse, Júlio Leite, cada perímetro conta com pessoal técnico para fazer reparos em tubulações, conexões e manutenção de bombas e motores elétricos. “A Coderse também promove licitação para seleção de empresas especializadas na recuperação de bombas e motores, e regularmente realiza obras em estações de bombeamento, barragens, reservatórios, adutoras e canais de irrigação”, afirma.
Produção
O produtor Eloi Francisco afirma que o mel original da uruçu é de ótima qualidade, e que as abelhas são responsáveis pela polinização de muitas plantas, como milho, amendoim, acerola. “Todo tipo de plantação. O coqueiro é um grande fornecedor de pólen para as abelhas, para a composição da geleia real, que alimenta a rainha. O Jacarecica II é muito rico. Com a polinização das abelhas, não tem fruto xoxo nem ‘pêca’, é completinho. Quando o milharal está alto, as abelhas vão polinizando”, relata Eloi Francisco. A produção de mel dele varia entre 400 e 600 litros por ano.
Silvicultor
As abelhas de Eloi Francisco interagem com as flores de todas as cultivares agrícolas exploradas nos lotes do Jacarecica II, da rica diversidade de espécies nativas encontradas nas reservas legais do assentamento — zona de transição entre os biomas da Mata Atlântica e da Caatinga — e de árvores exóticas plantadas pelo silvicultor, que também é meliponicultor (criação de abelhas sem ferrão), apicultor e agricultor. São espécies como as dos gêneros Eucalyptus, Acacia e Moringa. Ele conta que a produção comercial de mel, em geral, é feita contando, em média, com as floradas de três espécies de plantas.
“Temos mais de 50 espécies produzindo o pólen e o néctar, produzindo o mel completo. As abelhas têm acesso a várias coisas diferentes, como jurema, que dá a ‘própolis verde’, e diversas outras plantas. Sou pioneiro em plantar árvores, aqui”, complementa Eloi Francisco, ao acrescentar que, em breve, quer ampliar o seu plantel de abelhas criando colmeias das espécies mandassaia e jataí.
Primavera mais longa
O produtor rural explica que as abelhas só coletam néctar para a produção de mel durante a primavera, mas a partir da irrigação, se cria um ambiente em que a produção agrícola se torna possível o ano inteiro, a estação do ano se torna mais longa. “Isso vai do meio do mês de agosto até abril, quando a gente consegue tirar mel ainda. Durante a primavera, se a florada for boa, a gente tira entre três e quatro coletas de mel durante esse período. Depois, tem o período da entressafra, da escassez, que a florada é pouca. Mas chovendo, e tudo, onde tiver amendoim, inhame, batata, acerola, tudo que der flor, elas vão em cima, retiram o néctar, o pólen e polinizam”, conclui Eloi Francisco.


