Cultivar de trigo amplia oferta de forragem na Região Sul

Novo trigo BRS Tarumaxi garante pasto nutritivo no outono-inverno e aumenta a produtividade da pecuária no Sul

A cultivar de trigo BRS Tarumaxi foi desenvolvida visando a oferta de forragem para a produção de leite e de carne na Região Sul. O ciclo tardio permite o período prolongado de pastejo, suprindo o vazio outonal com forragem de alto valor nutritivo. 

Na Região Sul, mais de 80% da área cultivada no verão não é cultivada no outono-inverno, contando muitas vezes apenas com plantas de cobertura que não geram renda na agropecuária, ocasionando desequilíbrio ambiental e econômico em sistemas de produção de grãos ou integrados. Aliado à baixa eficiência no uso da terra no inverno, existe uma enorme demanda (déficit) de matérias-primas para alimentação animal em quantidade e em qualidade, que pode ser suprida com o cultivo de cereais de inverno com adaptação e desempenho agronômico superior em sistemas de integração lavoura-pecuária. 

Para atender a demanda, a Embrapa Trigo desenvolveu cultivares de cereais de inverno adaptadas ao período prolongado de pastejo, com semeaduras em março/abril com oferta de forragem até o final de outubro, viabilizando forragem de alto valor nutritivo no outono/inverno, quando as pastagens tradicionais apresentam taxa de crescimento reduzida no Sul do Brasil.

O trigo BRS Tarumaxi é o mais novo lançamento da Embrapa, indicado para a produção de forragem, com ênfase na produção de pasto. A cultivar foi adaptada a curtos períodos de calor, suportando as oscilações de temperatura que variam de 10ºC a 30ºC no outono da Região Sul. A variação de temperaturas também ocorre nos meses de agosto e setembro, o que exigiu o melhoramento genético para que o trigo, cultivo tradicionalmente de clima temperado, pudesse estender o desenvolvimento vegetativo para oferta de pasto em quantidade e com qualidade. 

Outro avanço na cultivar é a tolerância ao alumínio do solo. Experimentos a campo na Embrapa Trigo mostraram raízes do trigo BRS Tarumaxi com 1,30 metros de profundidade em área de pastagem moderadamente compactada, resultado tanto da genética mais tolerante ao alumínio, quanto do sistema radicular mais desenvolvido devido aos rebrotes e ciclos mais tardios.

Na sanidade, BRS Tarumaxi é resistente à ferrugem da folha e moderadamente resistente às manchas foliares, mosaico, germinação na espiga, debulha e ao acamamento. Moderadamente suscetível ao oídio e ao complexo de viroses transmitidas por pulgões (VNAC).

A cultivar BRS Tarumaxi é fruto do melhoramento genético no cruzamento com BRS Tarumã, primeira cultivar de trigo destinada à alimentação animal no Brasil, lançada pela Embrapa em 2002. No aprimoramento da tecnologia, BRS Tarumaxi alcançou maior capacidade de rebrote e afilhamento, permitindo de um a dois ciclos a mais de pastejo, com volume de forragem até 13% maior. “Alguns produtores estão conseguindo até 16 ciclos de pastejo, chamando o BRS Tarumaxi de ‘trigo de pastejo longa vida’. A oferta de forragem chegou a 12 toneladas de massa seca, fornecendo alimento durante todo o outono-inverno, época mais crítica para a manutenção dos bovinos na Região Sul”, conta o pesquisador da Embrapa Trigo, Ricardo Castro.

De acordo com o pesquisador, a produção de pasto em período crítico resulta em aumento da renda do produtor rural, com a conversão de forragem em carne, leite ou lã. Além da diversificação de renda e redução de riscos, a cultivar de trigo gera outros importantes benefícios aos sistemas de integração lavoura-pecuária, com destaque para a maior produtividade do rebanho, a cobertura do solo antecipada (que resulta em maior controle de erosão e retenção de água), a melhoria das propriedades química, física e biológica do solo (como consequência da melhor proteção do solo e do sistema radicular mais desenvolvido), a promoção da conservação da biodiversidade, a melhora na ocupação de mão-de-obra no campo e o aumento do uso da terra no inverno. 

A cultivar BRS Tarumaxi passou por cinco anos de avaliação (2017 a 2021), em 14 locais no RS e em SC. Os resultados de pesquisa mostram conversão animal de 1,8 kg de leite por kg de matéria seca (MS) e 0,12 kg de ganho de peso vivo por kg MS. O destaque está na qualidade nutricional da pastagem, com proteína bruta entre 24 e 29% e alta digestibilidade de fibras.

Resultados no produtor

O produtor Gilson Perin trabalha com vacas de leite em Serafina Corrêa, RS. A semeadura do trigo BRS Tarumaxi foi realizada em meados de março, com o primeiro pastejo em 32 dias. O plantel, com 28 vacas em lactação, permaneceu cerca de três horas em cada piquete em pastejo rotativo, com os animais entrando na pastagem quando as plantas estavam com 25 cm de altura e retiradas do piquete com o trigo a 10 cm. A adubação após cada pastejo foi com esterco líquido. No total, foram 16 ciclos de pastejo até o final de outubro. 

A suplementação contou com 10 kg de silagem de milho/dia e 12h em pastagens de azevém, aveia e trigo. Como o trigo apresentou mais proteína bruta, o produtor reduziu a necessidade de suplementação com proteína no cocho. “O trigo ofereceu pasto primeiro. Em comparação com a aveia preta. A aveia compete até o 3º pastejo, depois o trigo garantiu mais pasto. Enquanto no trigo foram 16 pastejos, na aveia foram 5 e no azevém 6 ciclos de pastejo”, contabiliza Gilson Perin.

Em Aceguá/RS, na campanha gaúcha, um dos desafios na pecuária de corte é a escassez de pasto durante o período de inverno. O produtor Gerhard Martens semeou o trigo BRS Tarumaxi em abril e após 60 dias iniciava o primeiro pastejo. Como a oferta de pasto era grande, o número de animais passou de 1 cabeça/ha para 5 cabeças/ha. Na comparação, em seis meses de pastejo, o ganho de peso foi de 260 kg/animal com aveia ucraniana e de 330 kg/animal com trigo BRS Tarumaxi.

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