Por Giulia Rodrigues, Norma Rumjanek, Luc Rouws e Gustavo Xavier
As tecnologias biológicas despontam como alternativas viáveis e promissoras para a promoção de uma agricultura sustentável, especialmente no contexto da agricultura familiar. Tecnologias com inoculantes microbianos e com agentes promotores de crescimento vegetal e de biocontrole, além de estratégias de diversificação de culturas adaptadas a condições edafoclimáticas adversas, contribuem significativamente para o aumento da produtividade, a melhoria da saúde do solo e a resiliência dos agroecossistemas. Esses recursos biológicos favorecem o uso eficiente dos nutrientes, a supressão de fitopatógenos, a redução da dependência de insumos sintéticos e o fortalecimento de práticas agroecológicas (VIDAL; SALDANHA; VERÍSSIMO, 2020).
A manutenção da saúde do solo é essencial para garantir produtividade a longo prazo, eficiência no uso dos recursos naturais e sustentabilidade dos sistemas agrícolas. No entanto, a intensificação da agricultura convencional, com o uso excessivo e contínuo de fertilizantes sintéticos e defensivos químicos, tem promovido a degradação dos ecossistemas do solo, reduzindo sua fertilidade natural, comprometendo a biodiversidade e alterando processos biogeoquímicos fundamentais (TAHAT et al.,2020).
Os bioinsumos microbianos apresentam-se como alternativas tecnológicas para reverter parte desses impactos, promovendo funções ecológicas essenciais, como a fixação biológica de nitrogênio (FBN), a solubilização de nutrientes e a indução de mecanismos de defesa nas plantas, entre outras características benéficas ao crescimento vegetal.
A utilização desses produtos permite não apenas a redução da dependência de insumos químicos, mas também a restauração da funcionalidade do solo, com impactos positivos na produtividade agrícola e na resiliência dos agroecossistemas (SHAHWAR et al.,2023). Muitas bactérias promotoras de crescimento vegetal são capazes de sintetizar e liberar diversos fitormônios que influenciam diretamente o desenvolvimento da planta. Nessa mesma linha, muitos microrganismos do solo liberam enzimas e ácidos orgânicos, que tornam nutrientes indisponíveis no solo mais acessíveis às plantas.

Estudos robustos comprovam os benefícios promovidos nas plantas por bactérias do gênero Rhizobium e Bradyrhizobium, utilizadas na inoculação de leguminosas como feijão comum, feijão-caupi e soja, assim como pelos fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) (PRANDO et al., 2020; SMITH; READ, 2008).
A prática da utilização de nódulos radiculares — estruturas especializadas onde ocorre a FBN em leguminosas — tem se difundido como estratégia para a produção de biofertilizantes artesanais. Tais práticas representam uma inovação social e técnica, especialmente relevantes para a agricultura familiar, por fortalecerem a autonomia da unidade produtiva e valorizarem os recursos adaptados às condições edafoclimáticas locais (ALCANTARA et al., 2016).
Ao favorecer a ciclagem de nutrientes e o equilíbrio da microbiota do solo, os inoculantes microbianos configuram tecnologias-chave para a transição agroecológica e o fortalecimento da sustentabilidade na agricultura familiar.

Biocontrole de pragas e doenças
Para além da FBN, o uso de agentes biológicos também é eficaz no manejo integrado de pragas (MIP). A prática reduz populações de pragas e fitopatógenos por meio do uso racional de inimigos naturais e outros organismos benéficos, promovendo o equilíbrio ecológico no agroecossistema e minimizando os impactos ambientais associados ao uso de agrotóxicos. Entre os bioagentes com maior destaque, encontram-se fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana, amplamente utilizados no controle de insetos-praga, e espécies do gênero Trichoderma, reconhecidas pela sua ação antagonista contra diversos fitopatógenos de solo e foliares. Bactérias do gênero Bacillus, como Bacillus thuringiensis e Bacillus subtilis, também desempenham um papel relevante, atuando no controle de larvas de insetos (FONTES; VALADARES-INGLIS, 2020).
A efetividade do biocontrole também tem sido observada na aplicação de extratos vegetais com propriedades inseticidas e acaricidas. No semiárido brasileiro, por exemplo, preparações à base de Azadirachta indica (nim) vêm sendo utilizadas por agricultores familiares no controle de cochonilhas, pulgões, moscas e ácaros, com resultados promissores e compatíveis com os princípios da agroecologia. Essas soluções de base local representam um importante exemplo de como conhecimentos tradicionais e recursos vegetais regionais podem ser integrados ao manejo biológico moderno, promovendo autonomia produtiva e redução de custos (FONTES; VALADARES-INGLIS, 2020).

Diversificação de culturas e adaptação a estresses ambientais
A dependência de monocultivos é um dos principais fatores de vulnerabilidade da agricultura familiar, especialmente em regiões sujeitas a estresses ambientais como seca, salinidade, baixa fertilidade natural e variações climáticas intensificadas. A diversificação de cultivos com espécies constitui uma estratégia fundamental para o aumento da resiliência dos sistemas produtivos, promovendo maior estabilidade, produtividade e segurança alimentar. Espécies como o sorgo (Sorghum bicolor), a palma forrageira (Opuntia spp.) e o feijão-caupi (Vigna unguiculata) têm demonstrado excelente desempenho em ambientes com restrições hídricas e nutricionais, sendo alternativas promissoras para o fortalecimento da agricultura familiar em regiões semiáridas e de solos degradados (JARDIM et al., 2020).
Além das culturas alimentares, plantas bioativas como as crotalárias (Crotalaria juncea) desempenham múltiplas funções ecológicas nos agroecossistemas. Estas leguminosas fixadoras de nitrogênio atmosférico atuam como adubos verdes, condicionadores do solo, plantas de cobertura e até mesmo como barreiras físicas (quebra-ventos), favorecendo a estrutura física e a atividade biológica do solo (DINIZ et al., 2014). O consórcio entre culturas alimentares e espécies arbustivas fixadoras de nitrogênio, como a gliricídia (Gliricidia sepium), por sua vez, tem proporcionado resultados expressivos, como o cultivo consorciado com o milho, capaz de aumentar a produtividade em até 30%, graças à ciclagem eficiente de nutrientes e ao sombreamento moderado que reduz o estresse térmico nas plantas (PÉREZ-MARÍN et al., 2006).
A diversificação agrícola, quando planejada de forma funcional e agroecológica, contribui significativamente para o equilíbrio ecológico dos sistemas de produção. A inclusão de variedades resistentes a estresses abióticos, como o milheto, tem sido uma estratégia eficaz para pequenos e médios produtores, sobretudo em contextos de baixa infraestrutura e acesso limitado a insumos. Esses cultivos, ao se adaptarem a condições ambientais extremas, também contribuem para a manutenção da agrobiodiversidade e para a segurança alimentar local (VILLAHERMOSA et al., 2022).
Além da escolha de espécies adaptadas, o uso de cultivares locais ou geneticamente melhoradas para tolerância à seca e à salinidade, aliado a práticas conservacionistas como manejo do solo com cobertura vegetal, rotação de culturas e sistemas consorciados, promove maior eficiência no uso da água e dos nutrientes. Ao fomentar a heterogeneidade de espécies e práticas no campo, fortalece-se a capacidade adaptativa dos agricultores, ao mesmo tempo em que se preservam os recursos naturais, amplia-se o potencial produtivo de forma sustentável e valoriza-se o saber local.
Políticas públicas e desenvolvimento rural inclusivo
Mas a transição para sistemas agrícolas sustentáveis não se limita à adoção de tecnologias inovadoras – exige, sobretudo, a construção de políticas públicas robustas que garantam assistência técnica qualificada e acesso a mercados justos e inclusivos. Programas de extensão rural que articulam conhecimentos científicos e saberes tradicionais têm se mostrado fundamentais para a difusão de práticas sustentáveis, funcionando como ponte entre pesquisa e aplicação no campo (PRETTY, 2007), ao mesmo tempo em que estratégias como a certificação participativa, a venda direta em feiras locais e a comercialização por meio de circuitos curtos fortalecem a economia circular, garantindo maior autonomia e renda para agricultores familiares.
No entanto, o potencial das tecnologias biológicas só se concretiza quando acompanhado por processos contínuos de capacitação. A formação técnica de produtores rurais – abrangendo desde o manejo de bioinsumos até a seleção de variedades adaptadas e os princípios da agroecologia – é decisiva para assegurar a eficácia dessas inovações no campo (ALTIERI & NICHOLLS, 2020).
Assim, a sinergia entre capacitação, tecnologias biológicas e acesso a mercados diferenciados não apenas impulsiona a rentabilidade da agricultura familiar, mas também consolida modelos produtivos alinhados com a conservação dos recursos naturais e a equidade social. O desafio, portanto, está em ampliar e articular políticas públicas que integrem esses três pilares, garantindo que inovações sustentáveis se traduzam em desenvolvimento rural inclusivo.
*Giulia Rodrigues é estudante de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e bolsista da Embrapa Agrobiologia. Norma Rumjanek, Luc Rouws e Gustavo Xavier são pesquisadores da Embrapa Agrobiologia, em Seropédica, RJ.


