Rotavírus C em leitões – um agente em ascenção na diarreia neonatal

Por Julia Helena Montes e Karina Sonalio

A diarreia neonatal permanece como um dos principais desafios sanitários da suinocultura, com impacto direto sobre a mortalidade, o ganho de peso e a uniformidade dos lotes. Entre os agentes virais envolvidos, os Rotavírus são amplamente reconhecidos, especialmente o do grupo A (RVA). No entanto, evidências recentes indicam que o Rotavírus do grupo C (RVC) pode desempenhar um papel mais relevante do que previamente considerado.

No Brasil, tem-se observado um aumento na ocorrência de rotavirose em leitões, com maior taxa de positividade para o RVC, frequentemente associada a resultados negativos para RVA. Dados internos do laboratório da Inata, referentes aos últimos três anos, demonstraram que 35,23% (564/1.601) das amostras provenientes de leitões lactentes com diarreia apresentaram detecção de rotavírus. A tipificação revelou que 19,05% (305/1.601) das amostras foram positivas para RVA, 17,74% (284/1.601) para RVC e 2,25% para Rotavírus do grupo B (RVB). Além disso, foram observadas codetecções entre diferentes grupos no mesmo material, sendo 9,22% (52/564) para RVA + RVC.

Esses achados sugerem uma possível mudança no perfil epidemiológico das rotaviroses suínas e reforçam a importância da inclusão do RVC nos protocolos diagnósticos de diarreia neonatal.

Um estudo canadense publicado em 2025 na revista Veterinary Microbiology, intitulado “A matched case-control study of porcine group A and C rotaviruses in a swine farrowing production system”, apresentou dados robustos sobre a prevalência e a relevância clínica do RVC em granjas comerciais. O estudo caso-controle foi conduzido em um sistema de produção composto por 19 unidades produtoras de leitões, durante episódios de diarreia em leitões lactentes. Foram coletadas amostras de leitões com diarreia, leitões saudáveis (controle), matrizes e do ambiente da maternidade. As amostras foram analisadas por RT-PCR para detecção de RVA e RVC, além de avaliação histopatológica e caracterização genética dos vírus.

O RVC foi detectado em 100% das granjas avaliadas durante episódios de diarreia. Na avaliação lote a lote, o RVC foi estatisticamente associado à diarreia, sendo que leitões de lotes positivos para RVC apresentaram 7,1 vezes mais chance de desenvolver diarreia (OR = 7,1; p = 0,02). Já o RVA não apresentou associação significativa com diarreia nesse estudo, apesar de sua alta prevalência em leitões (45,4%). Possivelmente relacionado ao protocolo vacinal que as fêmeas eram submetidas contendo o RVA e sua proteção de forma passiva.

Na avaliação realizada em matrizes lactantes, apenas 4% das porcas foram positivas para RVC. Em contraste, 88,2% foram positivas para RVA, o que demonstra uma baixa eliminação fecal de RVC pelas matrizes e sugere uma possível baixa imunidade colostral específica contra o RVC.

O RVC também foi detectado no ambiente da maternidade, sendo encontrado em baias, portas, escamoteadores, ventiladores, carrinhos e painéis móveis, totalizando 32,4% das amostras ambientais positivas. Além disso, as sequências virais detectadas no ambiente eram geneticamente idênticas às dos leitões da mesma sala, reforçando o papel do ambiente como fonte de infecção e reinfecção dentro da maternidade.

Os achados desse estudo reforçam que o Rotavírus do grupo C (RVC) deve ser reconhecido como um importante agente etiológico da diarreia neonatal em leitões. Sua alta prevalência em granjas com surtos, a forte associação estatística com diarreia ao nível de lote e sua ampla detecção no ambiente da maternidade indicam que o RVC desempenha um papel central na dinâmica da rotavirose suína. Além disso, a baixa detecção do vírus em matrizes lactantes e a ausência de vacinas comerciais específicas contra o RVC sugerem que a imunidade passiva conferida pelo colostro pode ser insuficiente para proteger os leitões contra esse agente. Diante desse cenário, torna-se essencial ampliar o foco diagnóstico além do RVA e incorporar o RVC de forma rotineira na investigação de surtos de diarreia neonatal em granjas comerciais.

Artigo desenvolvido com apoio da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (FACTA). O conteúdo é assinado por Julia Helena Montes e Karina Sonalio, gerente técnica e coordenadora técnica da unidade de suínos da Inata, empresa mantenedora da FACTA

Foto: Divulgação

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