Com 50 anos de atuação a Embrapa Soja teve papel fundamental no crescimento da sojicultura, sendo referência mundial em tecnologias para a produção sustentável em regiões tropicais
Na safra 2024/25, o Brasil produziu aproximadamente 167 milhões de toneladas de soja, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que mantém o País na liderança mundial da produção do grão, seguida dos Estados Unidos e da Argentina. Historicamente, a Embrapa Soja, unidade da Embrapa localizada em Londrina (PR), vem liderando redes de pesquisa para geração de soluções sustentáveis para incrementar a produção da leguminosa, reduzir os custos de produção e as emissões de CO2 relacionadas a sua produção, além de aumentar a renda dos produtores.
“Nossas equipes têm muito orgulho de participar da história de sucesso do agronegócio brasileiro e entendemos que nossa contribuição para o desenvolvimento da sojicultura coloca a Embrapa Soja como referência mundial em tecnologias para a produção sustentável de soja em regiões tropicais”, avalia o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno. “Todo o esforço empregado permitiu ao Brasil deixar de ser importador do grão, na década de 1970, para se tornar o maior exportador da leguminosa atualmente. Isso tudo respaldado em ciência”, comemora Nepomuceno.
A cultura da soja foi a que mais cresceu no Brasil nas últimas cinco décadas, tanto que de 1973 até 2023, a produção aumentou 38 vezes, saltando de 3,2 milhões para aproximadamente 125 milhões de toneladas (Conab), na safra 2021/22. Nesse mesmo período, a área cultivada aumentou apenas 19 vezes, de 2,2 milhões para cerca de 41 milhões de hectares. “Podemos afirmar que o incremento contínuo da produtividade da soja e a consequente ampliação da sua produção foi resultado da adoção de um conjunto de tecnologias adotadas pelo produtor brasileiro”, destaca Nepomuceno.

Tropicalização da soja
Fundada em 16 de abril de 1975, em Londrina (PR), a Embrapa Soja tem por missão desenvolver tecnologias sustentáveis para a produção de soja no Brasil. Até a década de 1980, os plantios comerciais de soja no mundo restringiam-se a regiões de climas temperados e subtropicais, cujas latitudes estavam próximas ou superiores aos 30º. “O produtor brasileiro tinha que usar as cultivares importadas dos Estados Unidos que eram adaptadas apenas para a região Sul do Brasil”, explica o pesquisador Carlos Arrabal Arias. “Com as pesquisas da Embrapa Soja, conseguimos romper essa barreira, desenvolvendo variedades adaptadas às condições tropicais com baixas latitudes, permitindo o cultivo da oleaginosa em todo o território brasileiro”, conta Arias.
Segundo o pesquisador, a primeira cultivar genuinamente brasileira adaptada para o Brasil Central foi a Doko, lançada em 1980. “Depois desse lançamento, o programa de melhoramento genético de soja continuou gerando novas cultivares com alto rendimento, com sanidade elevada e adaptadas às diversas regiões do Brasil”, explica Arias. A Embrapa é uma das poucas instituições que desenvolve diferentes plataformas tecnológicas em paralelo: soja convencional, soja RR, soja Intacta, soja XTend e soja Intacta2XTend. Também possui tecnologia para manejo de percevejos (Tecnologia Block) e da ferrugem da soja (Tecnologia Shield), a mais severa doença da soja. Atualmente, a Embrapa Soja faz a curadoria de um dos maiores bancos ativos de germoplasma de soja do mundo. São mais de 65 mil acessos (tipos) de soja que guardam a variabilidade genética do grão garantindo a solução de problemas do passado, presente e futuro.

Conjunto de tecnologias – Além do desenvolvimento de novas cultivares, a Embrapa Soja tem preconizado práticas de manejo responsável que vão desde a semeadura até a pós-colheita da soja. “As tecnologias são colocadas a serviço da sustentabilidade dos sistemas de produção, atende diversos perfis e tamanhos de propriedades agrícolas, contribuem para a rentabilidade do produtor, gerando assim benefícios para toda a sociedade e preservação do meio ambiente”, explica Nepomuceno.
A expansão da cultura da soja está associada diretamente à adoção do Sistema Plantio Direto (SPD), que é embasado na redução do revolvimento do solo com a preservação de sua cobertura por plantas cultivadas ou seus resíduos vegetais e na rotação de culturas. “O SPD reduz a erosão e gera economia de corretivos, fertilizantes e operações de preparo de solo”, explica Nepomuceno.
A Embrapa Soja colaborou ainda com um conjunto de recomendações para equalizar o uso dos solos brasileiros, especialmente os que têm elevada acidez e baixa fertilidade natural, a partir da aplicação de calcário e fertilizantes com base em critérios técnicos. “Essas recomendações colaboraram com as ações que permitem o cultivo da soja no Cerrado brasileiro”, explica o pesquisador Adilson de Oliveira Jr., chefe de Administração da Embrapa Soja.
Outra contribuição ao sistema produtivo da soja foi a inoculação com bactérias fixadoras de N (rizóbios). “Essa solução propicia uma economia anual estimada em R$25 bilhões por safra, ao dispensar o uso de adubos nitrogenados”, explica a pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja. Em 2014, a Embrapa Soja identificou outra bactéria benéfica que estimula o crescimento da soja (Azospirillum). A associação dessas bactérias resulta em ganhos de produtividade da ordem de 16%, por ano.
Os pesquisadores da Embrapa Soja geraram, ainda, tecnologias que propiciam os manejos integrados de insetos – praga, doenças e plantas daninhas, por meio de diferentes métodos – químicos, mecânicos, biológicos e culturais – para prevenir e controlar esses problemas, viabilizando a produção de soja nas diferentes condições de solo e de clima do país. A adoção do Manejo Integrado de Insetos (MIP-Soja) permite reduzir o uso de inseticidas na lavoura em 50%, garantindo maior lucratividade ao sojicultor, além de maior preservação ambiental.
Ao longo das últimas cinco décadas, a pesquisa brasileira também gerou tecnologias para melhoria da qualidade das sementes de soja. “O uso de sementes com alto vigor promove ganhos de produtividade superiores a 9%, comparativamente ao uso de sementes com baixa qualidade”, destaca o pesquisador José de Barros França Neto, da Embrapa Soja. A Embrapa Soja teve participação ativa no protagonismo da soja brasileira, tanto que em 50 anos a instituição desenvolveu cerca de 440 cultivares de soja.

Novos desafios, novas soluções – Para colaborar com a sustentabilidade produtiva da soja, atualmente, a Embrapa Soja vem direcionando suas ações em quatro eixos de pesquisa. São eles: Genética Avançada, Bioinsumos, Soja Baixo Carbono e Agricultura Digital. Pesquisas vêm sendo direcionadas para aumentar a participação de insumos biológicos no controle de insetos-praga e doenças e na promoção do crescimento de plantas, bem como a substituição de fertilizantes de origem não renovável por insumos de base biológica.
O programa Soja Baixo Carbono (SBC), lançado pela Embrapa Soja, objetiva atestar a sustentabilidade da produção de soja brasileira, sendo pautado na mensuração dos benefícios e na certificação das práticas de produção que reduzam a emissão de gases de efeito estufa.
Além disso, existe a revolução nos laboratórios, capitaneada pela engenharia genética. “Essa técnica vem permitindo a edição do genoma da soja, possibilitando deletar ou alterar pequenas partes do DNA da própria planta para alcançar características desejáveis. No Brasil, a soja geneticamente editada pela tecnologia CRISPR/Cas, por exemplo, vem sendo considerada convencional, não transgênica, o que agiliza a sua inserção no mercado”, explica Nepomuceno. “Essa técnica vem sendo usada para ativar genes da soja envolvidos no aumento da tolerância à seca, um dos grandes desafios na produção, especialmente no Sul do Brasil”, destaca Nepomuceno. “Problemas como as mudanças climáticas demandam ações transversais de pesquisa e, neste sentido, temos várias equipes atuando nesse tema”, explica.
A transformação digital vêm trazendo mudanças no campo, por meio de soluções de conectividade, sensoriamento remoto, sensores, drones, entre outras. “A agricultura digital potencializa o monitoramento das lavouras, a racionalização no uso de insumos e no incremento da produtividade e da rentabilidade”, defende o pesquisador Júlio Franchini. “Com a condução integrada desses quatro eixos de pesquisa, estamos colocando a Embrapa Soja no enfrentamento de grandes desafios da contemporaneidade e na busca de soluções sustentáveis para o agronegócio da soja”, conclui Nepomuceno.
Histórico da Embrapa Soja
Em 1975, a Embrapa Soja instalou-se junto à Empresa Paranaense de Classificação de Produtos (Claspar), vinculado ao governo do Estado do Paraná, porém, no mesmo ano, migrou suas atividades para as instalações do antigo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná. A sede própria da Embrapa Soja foi inaugurada em 1989, no Distrito de Warta, em Londrina, e conta com área experimental de 350 hectares. Há também bases avançadas em diferentes regiões brasileiras, que atuam com ações para o manejo da cultura nos sistemas de produção regionalizados, na avaliação da base genética e na articulação de demandas técnicas de pesquisa e de transferência de tecnologia. São 252 empregados, sendo 60 pesquisadores. Além da atuação com a cultura da soja, em nível nacional, a Embrapa Soja estimula o desenvolvimento do trigo no Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, em parceria com a Embrapa Trigo.

Histórico da soja – Há cinco mil anos, a soja era uma planta selvagem, que crescia na costa leste da Ásia. Nesse período, a leguminosa foi domesticada pelos chineses, o que a torna uma das culturas agrícolas mais antigas do mundo. De acordo com a publicação, A saga da soja: de 1050 a.C. a 2050 d.C., editada pela Embrapa Soja, a soja chegou ao Brasil pela Bahia, em 1882, quando foram realizados os primeiros testes com cultivares introduzidas dos Estados Unidos, mas não houve sucesso. Somente após chegar ao RS, em 1914, para testes, e a partir de 1924, em plantios comerciais, é que a soja apresentou adaptação. Porém, a soja obteve importância econômica somente na década de 1960. Até o final da década de 1970, os plantios comerciais de soja no mundo restringiam-se a regiões de climas temperados e subtropicais, cujas latitudes estavam próximas ou superiores aos 30º.
Uso e destino da soja – A soja é um alimento calórico-protéico, que apresenta entre 36% e 40% de proteína nos grãos, sendo a principal fonte de proteína de qualidade no mundo e disponível em grandes volumes. A leguminosa é a base das rações de animais, garantindo melhorias na qualidade da carne suína, bovina e de aves, assim como no leite, ovos e outros produtos de origem animal. Na alimentação humana, a soja é usada diretamente na culinária (grão, óleo, farinha, farelo, proteína isolada e lecitina) ou ainda como matéria-prima pela indústria alimentícia. A partir do desenvolvimento tecnológico, o grão passou a desempenhar múltiplas funções e usos, podendo ser utilizado também para produção de biocombustível, indústria cosmética, produtos terapêuticos, pneus, além de outros usos não convencionais.
Créditos das fotos: RRRufino


