Agricultura familiar: alimento, renda, identidade e cooperativismo no Brasil

Por  Manfred Dasenbrock,  presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ

A agricultura familiar ocupa um espaço central na vida do brasileiro e é responsável por grande parte dos alimentos que chegam às mesas do país. Da mandioca ao feijão, do leite fresco às hortaliças, a produção das famílias agricultoras compõem o cardápio essencial de milhões de pessoas. 

Mais do que produzir alimentos, esse modelo é fonte de geração de renda e dinamização econômica. Em comunidades do interior, a renda que circula vem, em grande parte, das pequenas propriedades. Essa atividade fortalece o comércio local, movimenta serviços e ajuda a evitar que a economia se concentre apenas nos grandes centros urbanos. 

O impacto, no entanto, vai além da esfera econômica. A permanência das famílias no campo mantém vivas as comunidades locais, preservando modos de vida, tradições e vínculos sociais que sustentam a coesão rural. Reduzir o êxodo das novas gerações é também uma forma de equilibrar o desenvolvimento, ampliando as oportunidades de trabalho e a qualidade de vida para além das cidades. 

Nesse processo, o legado transmitido de geração em geração se torna um patrimônio intangível. O cuidado com a terra, os saberes tradicionais e a valorização da história são expressões de uma cultura que não só alimenta, mas também preserva a identidade do brasileiro. Cada safra carrega parte da nossa memória coletiva: hábitos alimentares, vínculo com a natureza e senso de comunidade. 

É nesse cenário que o cooperativismo se encontra de forma natural com o campo. O espírito de cooperação, que orienta a vida rural, traduz-se em organizações coletivas capazes de ampliar a força das famílias produtoras. Mais do que um modelo de negócios, o cooperativismo fortalece a solidariedade, valoriza a participação democrática e assegura que o desenvolvimento seja compartilhado por todos. 

Como instituição financeira cooperativa mais antiga do país, o Sicredi traz esse espírito colaborativo de apoio à agricultura familiar incorporado em sua essência. No Paraná, a Central Sicredi PR/SP/RJ atua desde a década de 1980, com maior impulso a partir da criação do PRONAF, em 1994. O crédito para custeio e investimento possibilitou avanços significativos em áreas como suinocultura, avicultura e pecuária, além da modernização das propriedades com máquinas e equipamentos. 

O produtor Anderson Chornobay é associado do Sicredi há mais de 17 anos e um dos milhares de beneficiados pela instituição financeira cooperativa. Créditos: Divulgação/Sicredi

Os números confirmam essa transformação: na safra 24/25, os associados do Sicredi nos três estados receberam mais de R$3 bilhões em crédito de custeio agropecuário, beneficiando mais de 40 mil pessoas. Além disso, quase 8 mil associados foram financiados com R$894 milhões destinados a investimentos em máquinas, equipamentos e melhorias nas propriedades. No total, foram R$3,9 bilhões em recursos, impactando mais de 48 mil associados.

Em um histórico mais recente, observa-se expressivo avanço no acesso ao crédito. Na safra 20/21, apenas no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, o Sicredi financiou R$1,6 bilhão em mais de 31 mil operações. Já na safra 24/25, o valor chegou a R$3,9 bilhões em mais de 48,8 mil operações — crescimento superior a 140% no volume financiado. Para a safra 25/26, a estimativa é atender aproximadamente 50 mil associados. 

Em termos de Brasil, o cenário é de crescimento também. Nos últimos cinco anos, o valor aportado pelo Sistema Sicredi quase que dobrou: na safra 20/21, o financiamento foi de mais de R$6,2 bilhões em mais de 137 mil operações para a agricultura familiar. Na safra 24/25, o montante entre custeios e investimentos somaram R$12,2 bilhões em mais de 173 mil operações. 

Esses números revelam mais do que a expansão do crédito: evidenciam a força e a resiliência do pequeno produtor. E é justamente nesse olhar para além das estatísticas que está a essência do debate. Reconhecer sua importância é reconhecer que o Brasil precisa manter vivas suas raízes. Produzir alimentos, gerar renda, sustentar comunidades, preservar a identidade cultural e fortalecer o cooperativismo são faces da mesma moeda. Mais do que um setor produtivo, a agricultura familiar é pilar da sociedade brasileira e exemplo de como a união de esforços pode transformar realidades. 

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