Cooperação que transforma: o papel do cooperativismo e do associativismo no fortalecimento da Agricultura Familiar

Por Aline Santos

Como a união de produtores amplia mercados, fortalece políticas públicas e melhora a qualidade de vida no campo

Desde a organização das primeiras sociedades, a humanidade percebeu que o trabalho em grupo ajudava a alcançar resultados mais rapidamente. O tempo passou, unir forças continua sendo uma forma prática e eficiente de obter sucesso em diversos setores, agricultura familiar aí incluída.

No Brasil, a Cooperação está nas formas organizativas de nossos povos originários, na resistência quilombola e na influência de imigrantes europeus. Historicamente, o ato de cooperar está presente nos mutirões, nas trocas de dias de trabalho, no processamento coletivo de alimentos. No entanto, políticas públicas que atendam às especificidades da Agricultura Familiar sempre estiveram vinculadas aos governos progressistas e que reconhecem o seu importante papel na produção de alimentos saudáveis no Brasil.

A implementação de Políticas Públicas que fortaleçam as associações e cooperativas provam que estas podem ser agentes de transformação. A atuação dessas organizações gera mudanças significativas na vida de seus associados: oferece condições de acesso ao crédito, à agroindustrialização, à participação em capacitações e inserção em políticas públicas estratégicas. Essa estrutura coletiva amplia o poder de negociação, facilita o acesso a mercados institucionais e privados e, sobretudo, melhora a renda e a qualidade de vida no campo.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) são iniciativas do Governo do Brasil que têm transformado a vida de milhares de agricultores familiares. Com eles, a produção ganha destino certo, o que garante mais segurança, previsibilidade e renda para quem trabalha no campo.

A produtora Vanderli Ferreira, integrante de uma cooperativa em Bela Vista- GO, conta como esses programas mudaram a realidade de sua família: “Antes de participar da cooperativa nós tínhamos muita perda de produção. Plantávamos, fazíamos a colheita e saíamos para vender nas ruas, mas nem sempre conseguíamos vender tudo. E por não ter para onde nem para quem vender acabávamos perdendo aquela colheita. Hoje, com o PAA e o PNAE, é diferente: temos para quem repassar a produção e sabemos o quanto precisamos plantar para atender a demanda. Além disso, é um dinheiro fixo que podemos contar todo mês. Hoje, meu marido já não precisa mais ir de porta em porta para vender nossas hortaliças. Agora trabalhamos mais tranquilos, com segurança e esperança no futuro”, relatou a cooperada.

Ihasminy Teixeira, presidente da cooperativa Floryá, reforça que a cooperação coletiva é o caminho para o fortalecimento da agricultura familiar. Para ela, o trabalho em grupo amplia o acesso às políticas públicas e, consequentemente, aos programas do governo. “Essas iniciativas não apenas contribuem para a comercialização: por meio delas, conseguimos acessar diferentes mercados e vender nossos produtos a preços justos. Além disso, temos parcerias que garantem consultorias e assessorias especializadas, algo que seria inviável de forma individual. Tudo isso só é possível porque estamos organizados em grupo”, destacou.

Segundo a presidente, o grande desafio ainda está na gestão. “O produtor sabe produzir, mas nem sempre domina a parte administrativa. Muitas vezes falta apoio técnico para conectar os agricultores a consultores ou para termos pessoas capacitadas que nos ajudem na prática. Esse é o ponto que mais precisamos avançar”, completou.

Para enfrentar essa lacuna, a secretária Nacional de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar, Ana Terra Reis, explica que as cooperativas contam hoje com o Programa Coopera Mais Brasil, de caráter interministerial, que apoia a gestão, a capacitação e o financiamento das organizações. Dentro dele, destaca-se o Mais Gestão, voltado à qualificação das cooperativas da agricultura familiar, com foco em eficiência econômica, acesso ao crédito e inserção em mercados institucionais.

A secretária lembra ainda que o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) lançou um conjunto de medidas para ampliar o acesso ao crédito. Entre elas, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026, que traz linhas do PRONAF voltadas exclusivamente para cooperativas (Agroindústria, Industrialização, Cotas-Partes e Pronaf A Cooperativas). O plano inclui também seguro agrícola, assistência técnica e extensão rural (ATER), além de incentivos à produção sustentável.

Segundo Ana Terra, o cooperativismo tem se tornado cada vez mais relevante porque potencializa as forças dos produtores familiares: amplia o acesso a políticas públicas, fortalece o poder de negociação, abre novos mercados, facilita a aquisição de insumos, promove a divisão do trabalho e eleva a produtividade, gerando emprego e renda no campo. Além disso, a articulação em rede concretiza o princípio da intercooperação, dando mais força e presença territorial às organizações.

Outro ponto de destaque é que, pela primeira vez, o país conta com uma secretaria que articula os conceitos de abastecimento, cooperativismo e soberania alimentar, dedicada exclusivamente à agricultura familiar. “Em pouco tempo já conseguimos implantar diversas políticas públicas para fortalecer essas organizações. Também

adotamos medidas para ampliar o acesso das redes de cooperativas aos programas, articulando com bancos para facilitar o acesso ao crédito e fechando parcerias com instituições públicas, hospitais e escolas para que adquiram cada vez mais produtos da agricultura familiar. Sabemos o quanto esses produtores são fundamentais para a manutenção do país. Eles são protagonistas dos avanços que estamos alcançando. O Brasil saiu do mapa da fome e registramos queda no preço dos alimentos. Isso só é possível porque o governo investe neste setor”, frisou a secretária.

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