Implantação de pomares de sementes é alternativa ao desmatamento

Um dos grandes gargalos na região amazônica é a perda de matrizes de árvores nativas, muito devido ao avanço do agronegócio e de plantações de soja. O resgate e a conservação genética de espécies de importância econômica e ecológica, visando à restauração florestal, é, portanto, imprescindível. E uma das formas de concretizar esse trabalho é a partir da implantação de pomares de sementes – plantações manejadas para produção de sementes de melhor qualidade a partir do mapeamento e monitoramento de diferentes matrizes.

“Planta-se diferentes matrizes, que tiveram um cuidado na coleta para rastreamento da procedência e avaliação do material genético, e aí faz-se o acompanhamento de seu desenvolvimento, em comparação uma com a outra”, explica a pesquisadora Juliana Müller Freire, da Embrapa Agrobiologia (Seropédica, RJ), que tem ampla experiência com reflorestamento, coleta de sementes e implantação de pomares. Segundo ela, o ideal é que sejam plantadas 30 matrizes diferentes da mesma espécie, as quais são monitoradas em relação ao crescimento e à sobrevivência sob determinada condição bioclimática. “Assim buscamos o material que melhor se adequa à região”, pontua.

No caso da Amazônia e de acordo com dados de 2019, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que realiza o monitoramento na área desde 1988, apontou que houve 81% a mais de focos de calor do que nos dez anos anteriores, o que pode ser explicado pelo alto nível de desmatamento da floresta. Assim, a recomposição ambiental passa pela implantação de sistemas agroflorestais (SAFs) nas propriedades rurais – uma das técnicas para restauração indicadas pela Embrapa – e o plantio de pomares de sementes em SAFs pode ser uma solução benéfica tanto para o meio ambiente quanto para o produtor. 

Durante capacitação realizada em 2024 junto à Rede de Sementes Portal da Amazônia, em Alta Floresta, no Mato Grosso, a Embrapa instruiu técnicos para levar o conhecimento aos produtores locais. “Já temos experiência com a implantação de pomares e coleta de sementes, então a ideia é passar esses conceitos de uma forma simples, para que eles possam colocar em prática”, explica Juliana. O curso abordou métodos para fazer o resgate e conservação genética de espécies de importância econômica e ecológica, visando à restauração florestal, apresentando conhecimentos e tecnologias para auxiliar na coleta das sementes e escolha das matrizes para determinadas áreas. Também houve aulas práticas para mostrar frutos de espécies regionais, marcação de matrizes e coleta de sementes.

Juliana ressalta que o trabalho desenvolvido pela Rede de Sementes Portal da Amazônia tem grande importância no mapeamento e na conservação de matrizes das árvores nativas da Floresta Amazônica. “Esse é um trabalho de longo prazo, porque são espécies que têm ciclos de vida extensos. Normalmente, o interesse é com espécies mais raras e mais ameaçadas, por terem uma madeira de melhor qualidade, mas crescimento lento. Então, o projeto é uma sementinha plantada agora, mas que só vamos ter resultados talvez daqui a 20 anos”, conta Juliana. 

Experiência no Rio de Janeiro

A Embrapa Agrobiologia também participou, pouco antes, da implantação de um pomar de sementes exclusivo para o cultivo de angelim doce (Andira fraxinifolia Benth), em parceria com o Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (Inea). Situado na Floresta Estadual José Zago, unidade de conservação administrada pelo Inea no município de Trajano de Moraes, na região serrana do Rio de Janeiro, o pomar é uma iniciativa para ampliar a oferta de uma importante espécie para recomposição florestal da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga.

Com o pomar inaugurado na área do Inea, espera-se que, com o manejo adequado, sejam produzidas safras frequentes, abundantes e de fácil coleta de sementes, cuja finalidade é o estabelecimento de florestas e a recuperação da biodiversidade fluminense. Mas, além de ser importante para a produção e a conservação dessa espécie, contribuindo para a restauração florestal, o pomar é importante ainda para aumentar a qualidade genética das sementes. “Isso porque elas serão coletadas de diferentes indivíduos de uma mesma espécie, aumentando a variabilidade genética dos lotes de sementes formados”, explica o presidente do Inea, Philipe Campello.

Liliane Bello 

Embrapa Agrobiologia

Sementes diversas. Foto: Juliana Freire
Sementes de angelim doce, espécie usada em pomar de sementes no RJ. Foto: Juliana Freire