Três gerações trabalham juntas na produção de leite

Em uma tarde ensolarada, Carolina Soares de Oliveira dá água aos bezerros. Provavelmente essa seja a tarefa mais simples que a jovem, de apenas 15 anos, acompanhe na propriedade onde mora com a avó, a mãe e o tio, no interior de Ijuí.

Além dos cuidados básicos com a alimentação das vacas, ela também está junto da família no momento da ordenha, aplicação de soro e medicamentos, inseminação e até no auxílio para os bezerrinhos nascerem nos partos mais difíceis. A lista de na propriedade é extensa e boa parte delas são aprendidas com o tio, que é também seu dindo, Marcelo Edegar Soares. Carolina é da terceira geração da família e já garante a sucessão rural na propriedade, onde a produção de leite é a fonte de renda. Estudante do 9° ano do ensino fundamental, ela afirma que fará técnico agrícola no ensino médio.

A avó, Isolde Kantorski Soares, recorda a época em que a ordenha era manual e manter o leite em condições de consumo, até a entrega ao comprador, era mais difícil. “Quando o dia era muito quente, a gente até fervia o leite para não estragar”, lembra. A produção também era menor, em torno de 200 litros por dia. Ela conta que levavam três tarros de leite até a beira da estrada, onde passava o caminhão para recolher. “E voltávamos em casa para pegar mais dois baldes”, acrescenta.

Com o passar dos anos, os filhos foram assumindo as atividades e o acesso à tecnologia facilitou a evolução no sistema de trabalho. Atualmente, a ordenha é mecanizada e a produção gira em torno de 2.700 litros de leite por dia. Hoje, aos 68 anos, Isolde se sente tranquila ao ver o interesse da neta em seguir no meio rural.

“Desde pequena a Carolina já gostava de cuidar dos animais e nos ajudava”, acrescenta a mãe, Andréia Soares, que também começou cedo na lida. Para ela, o interior é o melhor lugar para morar por ser mais tranquilo, mais seguro. E acredita que as crianças e adolescentes são mais livres no campo. “É o lugar ideal para criar um filho”, resume.

Para Marcelo Edegar Soares, as dificuldades do setor agropecuário são uma barreira para a sucessão rural familiar. Embora o avanço tecnológico tenha levado mais conforto e facilitado a execução das atividades, o trabalho é contínuo e requer muito tempo de dedicação. Dessa forma, Marcelo observa que é difícil ter uma vida social, pois os animais necessitam de atenção de segunda-feira a domingo. “Os filhos crescem ouvindo os pais reclamarem, então desistem”, afirma. Ele, no entanto, pondera que todos os segmentos têm suas dificuldades e, portanto, não é motivo para desistir. Marcelo sempre trabalhou na produção de leite e planeja investimentos em médio prazo para aumentar a produção na propriedade.

REGIÃO SE DESTACA NA PRODUÇÃO LEITEIRA

Ijuí está inserida em uma das principais regiões produtoras de leite do País, no Noroeste do Rio Grande do Sul. De acordo com levantamento da Emater/RS-Ascar, referente a 2025, o município conta com 238 propriedades fornecedoras de leite para a indústria. O número de vacas ordenhadas chega a 8.210, resultando em uma produção de aproximadamente 39 milhões de litros ao longo do ano.

Os dados também apontam que 29 produtores adotam o sistema de confinamento na criação do rebanho, enquanto 209 utilizam o sistema a pasto. Embora o número de propriedades com animais confinados seja menor, a estimativa é de que esse modelo responde por cerca de 50% da produção leiteira do município.

No sistema Compost Barn, utilizado pela família Soares, as vacas ficam confinadas em uma área coberta, em cima de cama feita com serragem, para abrigá-las. No local há climatização e a alimentação dos animais é feita em cochos. O extensionista rural da Emater/RS-Ascar Edevin Bernich afirma que, se cerca de 80% dos animais estiverem deitados, é um indicativo de que estão bem. “É um sinal de que as vacas estão se sentindo confortáveis, também indica que estão com saúde”, analisa. A serragem deve ser revolvida diariamente para controle da umidade, que se intensifica durante o inverno.

ESCOLHA PELA TRANQUILIDADE DO CAMPO

A tranquilidade e a oportunidade de estar junto com a família são alguns dos motivos para Tâmires Seifert preferir morar no interior de Ijuí e seguir no meio rural. “Na cidade é muita correria, os pais saem de manhã cedo, voltam à noite, enquanto os filhos ficam na creche ou com outra pessoa”, resume.

Tâmires é da terceira geração da família que trabalha na produção de leite, principal fonte de renda da propriedade, onde mora com o namorado, João Eduardo Reis; com os pais, Oldemar e Rosalete Seifert; a avó Cedi Seifert; o filho, Brian Seifert Fachin; e o irmão, Bruno Seifert. Ela procura mostrar às crianças, com 9 e 11 anos, respectivamente, as vantagens em morar no interior como forma de estimulá-los a permanecer no meio rural.

A rotina da família começa cedo, por volta das 4h30, com a ordenha mecanizada das vacas. A produção média gira em torno de 1.000 litros por dia. Após é preciso fazer a higienização do equipamento e do local, além de levar as vacas para o pasto. Os animais recebem suplementação de silagem e ração na alimentação. Paralelo a essas tarefas, é necessário organizar a casa e preparar os meninos para irem à escola. Eles têm participação na rotina, acompanhando algumas atividades. Na propriedade, há também plantio de soja e aveia, além de hortaliças, frutíferas e criação de gado de corte para consumo próprio.

Na avaliação de Oldemar Seifert, o cenário na produção de leite está melhorando. A propriedade é reconhecida com o prêmio Destaque em Sucessão Familiar, uma homenagem a produtores rurais em várias categorias, realizada pela Prefeitura de Ijuí. A entrega ocorreu durante o lançamento do Milk Summit Mercosul 2026, no dia 14 de julho.

Texto: Emater

Foto: Divulgação

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