Agricultura como resposta aos desafios do clima, Brasil protagonista

Roberto Azevêdo

O Brasil, com sua matriz energética limpa e práticas agrícolas sustentáveis, se destaca na produção de alimentos, bioenergia e fibras, alinhando o agronegócio com a preservação ambiental. Este papel de liderança se intensifica com a iminente realização da COP 30 em Belém, evento crucial para discutir a mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a contribuição do setor brasileiro para o mundo.

As emissões crescentes estão elevando as temperaturas globais e acentuando eventos climáticos extremos. Presenciamos mudanças nos padrões de chuva, intervalos mais curtos de plantio e colheita, proliferação de pragas e doenças, entre outros fatores negativos que afetam globalmente a segurança alimentar e energética, bem como o sustento dos mais vulneráveis.

O Acordo de Paris, assinado por 195 nações na COP21, visa limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, com a redução das emissões e o desenvolvimento sustentável. Porém, o grande desafio humano de manter as temperaturas em níveis aceitáveis depende do êxito em cinco grandes frentes:

1. Redução das emissões de GEE
2. Aumento da biomassa global e seu poder de fotossíntese
3. Substituição de produtos de origem fóssil por naturais
4. Combate à desertificação
5. Assegurar a circularidade

Essas ações exigem abordagens específicas para cada região, levando em conta a realidade geográfica, econômica e social de cada território. A agricultura, muitas vezes negligenciada nas discussões sobre mudanças climáticas, desempenha um papel central em alcançar esses objetivos.

A agricultura é essencial para reduzir as emissões de GEEs. Embora o setor de energia seja o maior responsável pelas emissões, práticas agrícolas inadequadas também contribuem significativamente, por meio do desmatamento, uso de insumos e materiais sintéticos, e queima  de resíduos. No entanto, a adoção de métodos sustentáveis, como agrossilvicultura (cultivar árvores em conjunto com culturas agrícolas), agricultura regenerativa e agricultura de precisão, pode reduzir as emissões, sequestrar carbono no solo e aumentar a biodiversidade. A meta deve ser um setor agrícola de zero carbono ou até carbono negativo, ou seja, remover da atmosfera mais do que se emite, eliminando emissões adicionais.

Expandir o poder de sequestrar carbono, por meio da biomassa, é outro desafio importante. As áreas tropicais têm grande potencial para essa produção. A cobertura verde proporcionada pela agricultura tropical é crucial no combate às mudanças climáticas, pois as plantas não apenas armazenam carbono, da mesma forma, reduzem as temperaturas por meio da fotossíntese.

A substituição de produtos de origem fóssil por naturais é uma prioridade. Bens de consumo humano, como plásticos e fertilizantes sintéticos, podem ser substituídos por materiais de origem vegetal ou animal. Essa transição precisa ser escalada, com custos competitivos e desempenho adequado.

O combate à desertificação refere-se a uma megatendência pouco óbvia: a desertificação do nosso planeta. De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, o mundo perde pelo menos 100 milhões de hectares/ano de terras saudáveis e produtivas devido à desertificação. Isso afetará mais de 3,2 bilhões de pessoas até 2050. Reflorestamento, florestamento, conservação do solo, agricultura sustentável, conservação da água, entre outras práticas, garantiriam grandes avanços. A recuperação de pastagens degradadas é um exemplo de como podemos combater as mudanças climáticas, promovendo também o desenvolvimento econômico e social de forma direta e imediata.

A promoção de uma economia circular no setor agrícola pode ser decisiva para a mitigação das mudanças climáticas. A produção de biocombustíveis a partir de resíduos agrícolas, compostagem, uso de fertilizantes orgânicos, insumos verdes e reciclagem de embalagens são exemplos de práticas circulares que reduzem desperdícios, geram energia renovável e melhoram a qualidade do solo.

Para que essas transformações ocorram, são necessários incentivos e estrutura de financiamento adequados. A COP29 em Baku destacou os mercados de crédito de carbono como uma nova unidade monetária climática. Porém, para garantir o sucesso dessa estratégia, é necessário um debate mais amplo sobre sua rastreabilidade, transparência, auditabilidade e equidade. Também são necessários aportes financeiros significativos, especialmente para economias emergentes a fim de viabilizar a transição para um setor agrícola negativo em carbono.

O papel da Agricultura na COP30

A COP30, que ocorrerá no Brasil, na cidade de Belém (PA), é uma oportunidade excepcional para esclarecer o papel fundamental do setor agrícola no combate às mudanças climáticas. As abordagens simplistas e ultrapassadas, que desconsideram as especificidades de cada região, não são suficientes. Precisamos de um conjunto de princípios que guiem as políticas climáticas no setor, promovendo a cooperação internacional e a eficácia das ações globais. Esses preceitos devem considerar as diferentes realidades e desafios de cada país, facilitando a colaboração entre governos, negociadores e demais partes interessadas.

A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB) promovem junto a outras associações representativas do setor uma verdadeira aliança do agronegócio sustentável e estão prontas para liderar essa discussão em conjunto com o governo e demais stakeholders. O objetivo é sair da COP30 com um plano claro para acelerar a transição do setor agrícola, consequentemente contribuindo ainda mais para a mitigação das mudanças climáticas e a garantia de uma transição justa para um futuro de baixo carbono. O agronegócio deve ser reconhecido como parte da solução para a questão climática, e não como problema.

Wordpress Social Share Plugin powered by Ultimatelysocial
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.