Exposição ao frio causa escurecimento da polpa da manga, comprova estudo

A pesquisa sobre o escurecimento da polpa da manga tem impacto direto sobre um dos principais produtos da fruticultura nacional

Pesquisa de três anos conduzida pela Embrapa Semiárido (PE) comprovou que a polpa escura da manga está diretamente relacionada à exposição de frutas suscetíveis ao frio. Também conhecido como corte negro (black flesh), esse distúrbio fisiológico impacta  produtores, exportadores e consumidores porque causa o escurecimento da polpa, principalmente na região próxima à semente, e compromete a qualidade dos frutos e sua aceitação pelo mercado.

Os cientistas constataram que o problema ocorre em frutos suscetíveis, colhidos em estágios menos avançados de maturação e submetidos a baixas temperaturas durante o armazenamento e o transporte refrigerado.

Além de confirmar essa relação, o trabalho apontou estratégias para limitar o surgimento do distúrbio e preservar a qualidade dos frutos durante o armazenamento e o transporte prolongados. Entre elas estão a escolha adequada do ponto de colheita, o manejo da cadeia de frio, o uso de atmosfera controlada e a aplicação do 1-metilciclopropeno (1-MCP), regulador de crescimento que inibe a ação do etileno, hormônio responsável por acelerar o amadurecimento dos frutos.

“O setor já suspeitava que havia uma relação entre a temperatura e o aparecimento dessa forma de escurecimento de polpa, mas ainda faltavam evidências científicas para comprovar essa associação. Demonstramos que esse distúrbio é uma forma de injúria por frio e que é possível adotar estratégias eficientes para reduzir sua ocorrência”, afirma o pesquisador Sérgio Tonetto, da Embrapa Semiárido, responsável pelo estudo.

Sérgio Tonetto de Freitas

Problema invisível afeta exportações

O trabalho tem impacto direto sobre um dos principais produtos da fruticultura nacional. O Brasil é o sexto maior produtor mundial de manga e mais de 90% das exportações da fruta são provenientes do Vale do São Francisco. Para chegar aos mercados da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia, os frutos permanecem várias semanas em contêineres refrigerados, condição que favorece o desenvolvimento do distúrbio.

Segundo Tonetto, o principal desafio é que o defeito não altera a aparência externa da fruta. “O consumidor compra uma manga aparentemente perfeita e o problema só é percebido quando ela é cortada. Isso compromete a experiência de consumo e a confiança do público, gerando prejuízos para toda a cadeia produtiva”, diz.

O escurecimento da polpa não ocorre no campo nem no momento da colheita. O problema se desenvolve durante o armazenamento e o transporte refrigerados, etapa em que ocorrem as maiores perdas para os exportadores.

Isso porque, ao chegarem ao país de destino, os contêineres passam por inspeções de qualidade que avaliam, entre outros aspectos, a firmeza da polpa e a presença de desordens fisiológicas internas. “Quando a ocorrência desses problemas ultrapassa o limite estabelecido pelos importadores (geralmente de 10% das frutas avaliadas), toda a carga pode ser rejeitada”, explica o pesquisador.

Esses impactos fazem parte da rotina de empresas como a Blue Skies, especializada na produção de fresh cut (frutas frescas cortadas e prontas para o consumo), que processa mangas no Brasil e em países da África para abastecer o mercado europeu. Segundo Daniel Petrovitch, gerente da empresa, o escurecimento da polpa representa um desafio para a operação. “Quando isso acontece, o consumidor rejeita o produto, os supermercados reclamam e, quando o problema é identificado dentro da fábrica, perdemos a fruta antes mesmo do processamento. Então, é um impacto alto para a empresa”, afirma.

Arquivo Agrodan

Estratégias contra perdas

Além de esclarecer a causa do distúrbio, a pesquisa definiu estratégias para minimizá-lo. Os experimentos foram conduzidos com mangas das variedades Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, produzidas em pomares comerciais com histórico desse distúrbio fisiológico.

A primeira estratégia consiste em colher os frutos em estágio mais avançado de maturação. Os experimentos mostraram que mangas colhidas ainda muito verdes apresentam maior sensibilidade às baixas temperaturas e, consequentemente, maior predisposição ao desenvolvimento do distúrbio.

A segunda é adequar a temperatura de armazenamento e de transporte. Os pesquisadores verificaram que temperaturas entre 8 °C e 10 °C favoreceram o aparecimento do problema, enquanto os frutos mantidos a 12,5 °C não apresentaram sintomas de escurecimento da polpa nos mesmos lotes.

As recomendações já vêm sendo adotadas por empresas do setor. Na Blue Skies, por exemplo, as mangas passaram a ser armazenadas acima de 10 °C e a colheita concentrou-se no segundo estágio de maturação, em vez da prática anterior de colher frutos no primeiro estágio. “O estudo trouxe respostas para um problema que o setor enfrentava há anos. Hoje a Embrapa deu uma base científica e técnica para definir o ponto de colheita e a temperatura de armazenamento, e isso ajudou a reduzir significativamente as perdas”, destaca Petrovitch.

Alexandre Justino

Tratamentos ampliam as opções de manejo

A terceira estratégia baseia-se no uso de contêineres de atmosfera controlada (AC). Essas unidades transportam as frutas para mercados distantes em baixos níveis de oxigênio com o fim de  restringir sua respiração e metabolismo, o que mantém sua qualidade e controla o escurecimento de sua polpa.

Por fim, uma quarta estratégia envolve a aplicação do 1-metilciclopropeno (1-MCP), composto amplamente utilizado para retardar o amadurecimento de frutas e que, pela primeira vez, foi avaliado cientificamente para o controle do escurecimento da polpa de manga.

Os experimentos mostraram que o tratamento com 1-MCP freou significativamente freou tanto a incidência quanto a severidade do distúrbio, ao mesmo tempo em que preservou a firmeza da polpa e a capacidade antioxidante dos frutos durante o armazenamento refrigerado.

Nas cultivares Tommy Atkins e Keitt, frutos não tratados apresentaram incidência de escurecimento de polpa próxima de 100% após 45 dias de armazenamento a 9 °C. Nos frutos tratados com 200 nanolitros por litro (nL/L ou ppb) de 1-MCP, esse índice caiu para menos de 60%.

De acordo com Tonetto, o 1-MCP bloqueia a ação do etileno, o hormônio responsável pelo amadurecimento dos frutos. Assim, também coíbe os efeitos fisiológicos desencadeados pelas baixas temperaturas.

“O resultado mais interessante foi constatar que a menor dose testada apresentou praticamente a mesma eficiência das concentrações mais elevadas. Isso reduz significativamente o custo da aplicação e aumenta a viabilidade econômica da tecnologia para o setor exportador”, destaca.

Para o pesquisador, os resultados ampliam as alternativas de manejo disponíveis aos produtores. “Dependendo do mercado de destino, do tempo de transporte e das características do lote, o produtor pode combinar diferentes estratégias para diminuir o risco de perdas”, afirma.

Fernanda Birolo

Mudanças em campo

Na Blue Skies, o 1-MCP não é utilizado na unidade brasileira porque o retardamento do amadurecimento não atende às necessidades da operação de frutas frescas cortadas. No entanto, como revela Petrovitch, o produto já é empregado nas mangas in natura enviadas do Brasil para a unidade da empresa em Gana.

Na Agrodan, empresa do Vale do São Francisco que produz e exporta mais de 32 milhões de quilos de manga por ano, os resultados da pesquisa também orientaram mudanças no manejo.

Segundo Priscilla Dantas, gerente de packing house (instalação agrícola especializada no processamento pós-colheita de frutas, legumes e hortaliças), o escurecimento da polpa sempre foi um dos principais desafios, sobretudo na cultivar Keitt e especialmente nas frutas colhidas a partir de setembro, período de temperaturas mais elevadas.

Com base nos resultados do estudo, a empresa passou a combinar diferentes estratégias, como ajustes no ponto e no horário de colheita, priorizando as horas mais frescas do dia; climatização do galpão de recepção; redução do intervalo entre a colheita e o embarque; aplicação de 1-MCP; e adequação das temperaturas de resfriamento e de transporte.

Segundo Dantas, o 1-MCP tem sido eficiente para conter o escurecimento da polpa. Entretanto, acrescenta cerca de 12 horas ao processo entre a embalagem e a expedição, criando alguns desafios logísticos para o cumprimento das janelas de embarque. Ainda assim, ela ressalta os benefícios da pesquisa.

“Antes de entendermos melhor as causas do escurecimento de polpa e as formas de controlá-lo, a exportação da cultivar Keitt era cercada de incertezas quanto à qualidade que chegaria aos clientes. Pesquisas como essa permitiram desenvolver estratégias para reduzir o problema, preservar a qualidade dos frutos e diminuir as perdas pós-colheita, fortalecendo a competitividade e a confiabilidade da manga brasileira no mercado internacional”, ressalta.

Alexandre Justino

 Ferramenta identifica lotes mais suscetíveis

Além das estratégias de manejo, a Embrapa também avança no desenvolvimento de uma ferramenta para identificar quais lotes apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do escurecimento de polpa antes mesmo da exportação.

Com o uso de espectrômetros portáteis que analisam a luz visível e o infravermelho próximo (Vis-NIR), os pesquisadores desenvolveram um algoritmo de aprendizado de máquina capaz de distinguir os frutos saudáveis dos frutos suscetíveis durante a colheita, antes do aparecimento dos sintomas, com precisão entre 80% e 90%.

“O equipamento funciona como um scanner. Ainda na colheita, antes do embarque, conseguimos detectar os lotes com maior risco e, com essa informação, o produtor pode decidir se mantém os frutos por mais tempo na planta, ajusta a temperatura de armazenamento e transporte ou utiliza atmosfera controlada, atmosfera modificada ou 1-MCP”, explica Tonetto.

Atualmente, a equipe trabalha em uma nova etapa da pesquisa para estimar não apenas a probabilidade do escurecimento da polpa ocorrer, mas também a intensidade do distúrbio em cada fruto de cada lote. Outras pesquisas buscam aumentar a eficiência e abreviar o tempo de aplicação do 1-MCP, com o objetivo de controlar o distúrbio com menor período de tratamento.

Texto: Embrapa

Foto: Fernanda Birolo

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