Um dos maiores sucessos da pesquisa agropecuária brasileira

BRS Capiaçu completa dez anos de lançamento. De capim para silagem à produção de energia, faz desta cultivar um fenômeno na pecuária nacional

Uma década se passou desde que a cultivar de capim-elefante BRS Capiaçu foi registrada no Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC). No ano seguinte, o material era lançado oficialmente durante um dia de campo no Campo Experimental José Henrique Bruschi, estação da Embrapa Gado de Leite, em Coronel Pacheco/MG. Cerca de 600 produtores de leite participaram do lançamento da cultivar e assistiram a palestras sobre o potencial de produção e qualidade da forrageira, as técnicas cultivo, plantio e ensilagem do material. 

Naquele evento, o que mais impressionou os produtores foi o tamanho do capim, que chega a ultrapassar quatro metros de altura e tem elevada produção de biomassa. Aliás, o aspecto gigante da cultivar está presente no nome da gramínea: “açu”, em tupi-guarani, significa “grande” e o nome “Capiaçu” é uma corruptela de capim-açu (capim grande).

Mas a BRS Capiaçu não tem apenas tamanho. Segundo o pesquisador da Embrapa, Antônio Vander Pereira, que coordenou o desenvolvimento da cultivar, o valor nutricional da gramínea ensilada é de boa qualidade e bem superior à cana-de-açúcar com adição de ureia, bastante utilizada até a década passada como forragem para o gado durante o período seco do ano. 

O pesquisador destaca que, além destas qualidades, o custo da silagem do capim é até três vezes menor do que a silagem de milho ou de sorgo. Tais vantagens fizeram da BRS Capiaçu um fenômeno na pecuária nacional, com adoção até em países da América Latina. “Embora não tenhamos dados confiáveis de área plantada com a cultivar, podemos afirmar que a BRS Capiaçu é um dos grandes sucessos da pesquisa agropecuária brasileira nas últimas décadas”, diz Pereira.

A produção de biomassa é o grande diferencial da BRS Capiaçu. A cultivar produz cerca de 50 toneladas de matéria seca por hectare/ano (30% maior do que outras cultivares disponíveis) e possui elevado teor de proteína.

Potencial de produção e valor nutritivo

A BRS Capiaçu se destaca pela alta produtividade e qualidade da forragem, quando comparada com outras cultivares de capim-elefante (plantas com 60 dias de crescimento):

A gramínea pode ser utilizada tanto na produção de silagem como fornecida picada verde para o gado. Segundo o pesquisador da Embrapa, Mirton Morenz, a vantagem da utilização do capim verde é o seu maior valor nutritivo. “Quando cortado aos cinquenta dias, o capim chega a ter 10% de proteína bruta, índice superior ao da silagem de milho, com cerca de 7%”, explica Morenz. 

O teor de proteína cai para 6,5%, com o corte aos 90 dias e 5,5%, cortado aos 110 dias. O processo de ensilagem também diminui a quantidade de proteína, que passa a ter um teor pouco acima de 5%.

Silagem de Capiaçu

A silagem do capim-elefante, cultivar BRS Capiaçu, apresenta valor nutritivo comparável ao do milho, com menor valor energético. É indicada para vacas secas e animais jovens. Quando utilizada para vacas em lactação, a alimentação deve ser suplementada com uma fonte de energia, de acordo com a produção do animal.

 Outras características positivas que podem ser atribuídas à cultivar são o porte ereto resistente ao tombamento pelo vento e a boa tolerância à geada e ao estresse hídrico. Embora haja uma redução do crescimento durante a seca, o capim não morre e retoma seu crescimento quando a seca termina. Um ponto negativo é a baixa tolerância às áreas alagadas. Para atender aos requerimentos energéticos e proteicos do rebanho, a suplementação concentrada é necessária. 

Comparando a silagem de milho com o capim na alimentação de vacas em lactação, a silagem de BRS Capiaçu exige maior quantidade de concentrado na dieta. Segundo Morenz, ainda assim o uso do capim é economicamente vantajoso em função do seu menor custo de produção.

Desde que foi lançada esta cultivar, a Embrapa Gado de Leite recebe elogios frequentes de produtores em relação à BRS Capiaçu. Victor Ventura, cuja propriedade, localizada em Santo Antônio do Aventureiro/MG, produz cerca de nove mil litros de leite/dia, tem um sistema de compost barn que abriga 300 vacas. 

A alimentação básica do rebanho é silagem de BRS Capiaçu e, para isso, possui uma área plantada com 30 hectares da cultivar. Ventura colhe em torno de 280 toneladas de capim por hectare ano, a um custo muito menor se comparado à silagem de milho, segundo ele mesmo diz. “A BRS Capiaçu representou um divisor de águas, trazendo maior segurança alimentar para o meu rebanho”, afirma Ventura.

Desenvolvimento da cultivar

De origem africana como grande parte das gramíneas tropicais utilizadas na pecuária, o capim-elefante era pouco utilizado na alimentação dos bovinos, embora a pesquisa agropecuária observasse nele um grande potencial. No ano de 1991, a Embrapa e parceiros da iniciativa privada criaram o Programa Nacional de Melhoramento do Capim-elefante, dando início às pesquisas de novas variedades, por meio de cruzamentos de variedades do Banco Ativo de Germoplasma de Capim-elefante (BAGCE). “O que nossos estudos buscavam era uma forrageira capaz de produzir silagem de qualidade, que pudesse ser acessível tanto para o grande quanto para o pequeno produtor de leite”, conta Pereira.

Dos milhares de cruzamentos realizados, os pesquisadores selecionaram 50 híbridos para serem testados em 21 estados do país. De todo esse material, um dos híbridos, a BRS Capiaçu, se destacou em praticamente todos os estados. Após 15 anos de pesquisas, a cultivar chegou ao mercado como o primeiro híbrido de capim-elefante lançado pela Embrapa. 

Para que o maior número de produtores tivessem acesso, foi montada uma rede de distribuição de mudas certificadas com o registro de diversos viveiristas. A Embrapa também realizou vários dias de campo divulgando o material, além de cursos de Ensino a Distância, publicação de livros, reportagens, vídeos e podcasts que podem ser encontrados no site da Embrapa Gado de Leite. Uma década depois do lançamento, a cultivar é adotada por produtores de leite de norte a sul do país.

Produção de Energia 

O capim já provou que é ótimo para produção de leite. No entanto, o que os pesquisadores não previam, há dez anos, foi sua utilização na geração de energia limpa. “A exigência premente de produção de energia renovável abriu uma nova oportunidade para a BRS Capiaçu”, afirma o pesquisador da Embrapa, Juarez Campolina Machado. 

O poder calorífico da biomassa do capim em altos-fornos tem se mostrado mais competitivo que outras fontes, como o coque de petróleo, que é um combustível fóssil. Em parceria com a CIPLAN/SA, a Embrapa desenvolveu um protótipo teórico em que concluiu “que a produção de BRS Capiaçu para uso energético na indústria cimenteira é viável do ponto de vista técnico e econômico”, afirma o pesquisador da Embrapa, Samuel Oliveira.

Os estudos nessa área estão apenas começando. A Embrapa possui parcerias com outras empresas e instituições para o uso da biomassa do capim não apenas em altos-fornos, mas também na produção de biogás, biometano e etanol de segunda geração. Um exemplo destas parcerias é o projeto Biograss (Arranjo tecnológico de culturas energéticas e resíduos da produção animal como agente mitigador de emissões de Gases de Efeito Estufa e indutor da economia circular). 

O Biograss é um projeto, em parceria com o CNPq, com a participação da empresa de instalação de biodigestores Bioköhler. Numa unidade experimental em Toledo/PR, a Embrapa avalia o potencial da produção de biogás e biometano utilizando as culturas de sorgo e capim-elefante em co-digestão com resíduos da produção de suínos.

A produção de etanol de segunda geração (E2G) também é uma oportunidade. Conforme explica Machado, o E2G é um biocombustível produzido a partir de polímeros como celulose, lignina e hemicelulose (materiais vegetais fibrosos). Tais polímeros são encontrados em resíduos agrícolas e florestais (palha, bagaço, serragem etc.) e nas culturas energéticas como o capim-elefante. 

Para o pesquisador, a vantagem da BRS Capiaçu na produção do etanol de segunda geração é seu ciclo curto e sua alta de produção de biomassa, superior às demais culturas energéticas.

Conteúdo exclusivo de empresas participantes do Anuário Brasileiro do Agronegócio e Agricultura Familiar – LEIA O ANUÁRIO GRATUITAMENTE

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