As novas variedades chegam ao mercado com identidade genética conhecida, padrão de qualidade definido e orientações de cultivo validadas cientificamente
A Embrapa lança as primeiras cultivares de hortaliças do grupo de plantas alimentícias não convencionais (Pancs). A bertalha ‘BRS Tereverde’ e o caruru ‘BRS Ilekalu’ foram obtidos a partir de materiais genéticos selecionados da coleção mantida há duas décadas pela Embrapa Hortaliças (DF). Após anos de pesquisa, as novas variedades chegam ao mercado com identidade genética conhecida, padrão de qualidade definido e orientações de cultivo validadas cientificamente.
Apesar do elevado valor nutricional e do potencial agronômico, as Pancs ainda têm participação limitada no mercado brasileiro e poucas cadeias produtivas estruturadas. Resultado de parceria público-privada entre a Embrapa Hortaliças e a Isla Sementes, as cultivares de bertalha e caruru buscam ampliar a oferta desses alimentos. Novos materiais desse grupo, como almeirão-roxo e vinagreira, deverão ser lançados nos próximos anos.
LançamentoAs cultivares serão lançadas durante a 31ª Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas (31ª Hortitec), que ocorrerá de 17 a 19 de junho de 2026, no Pavilhão de Exposições da Expoflora, em Holambra (SP). Trata-se de uma das principais feiras do setor na América Latina por reunir centenas de expositores focados em inovação, agronegócio e tecnologia para o campo. A Hortitec abrange toda a cadeia produtiva de hortaliças, além de flores, frutas e culturas intensivas. |
O pesquisador Nuno Madeira, responsável pelo trabalho, afirma que a oferta dessas cultivares, aliada à indicação de sistemas de produção, deve ampliar o cultivo, a comercialização e o consumo das hortaliças não convencionais. “A expectativa é fortalecer a presença das Pancs na agricultura familiar e no contexto da agricultura urbana, seja em quintais produtivos, hortas domésticas ou escolares, para além do extrativismo e dos cultivos ocasionais ou regionais, como é o caso da bertalha no Rio de Janeiro”, diz.
Madeira ressalta que, além da oferta de sementes de qualidade, o lançamento contribui para dar visibilidade a um grupo de plantas que reúne espécies de alto valor nutricional e grande potencial para diversificar a alimentação. “Vale evidenciar que esse trabalho científico também reconhece e valoriza os conhecimentos acumulados por comunidades tradicionais ao longo de gerações”, complementa.
O que são Pancs?As Pancs são espécies pouco conhecidas e com alto potencial alimentar que ainda não contam com uma cadeia produtiva amplamente estruturada. Além de nutritivas, apresentam resiliência frente aos efeitos das mudanças do clima, resistência a pragas e doenças e baixa necessidade de insumos. Essas propriedades foram desenvolvidas ao longo de séculos de evolução e seleção natural. “Essas plantas passaram por um longo processo natural de adaptação ao meio ambiente. A capacidade de resistir a pragas, doenças e outras condições adversas está relacionada à produção de metabólitos secundários, substâncias que ajudam na defesa da planta. Muitos desses metabólitos também atuam como compostos funcionais, associados a benefícios para a saúde humana”, explica Madeira. Nesse contexto, as Pancs oferecem vantagens para agricultores e consumidores. Para quem produz, representam culturas adaptadas a diferentes regiões e sistemas de cultivo, com manejo mais simples, menor demanda por insumos e produção durante boa parte do ano. Para o consumidor, essas espécies alimentares ampliam a diversidade de hortaliças disponíveis, oferecem alimentos nutritivos e facilitam o cultivo em espaços urbanos. As Pancs também estão associadas à culinária tradicional de diferentes regiões e grupos culturais, integrando receitas e preparações transmitidas entre gerações. Muitas dessas espécies ocorrem de forma espontânea ou possuem consumo restrito a determinadas localidades, embora apresentem elevado potencial alimentar e nutricional. |
Bertalha ‘BRS Tereverde’ mantém produção até 40° CA ‘BRS Tereverde’ é a primeira cultivar de bertalha (Basella alba L. e Basella rubra L.) com elevada produtividade e padrão visual. A cultivar foi obtida por meio da seleção massal de plantas de variedades locais cultivadas em Teresópolis (RJ), onde a espécie é cultivada há gerações e provavelmente foi introduzida da Índia durante o período da colonização portuguesa, e em Santa Isabel (PA). A nova cultivar surge como alternativa para a produção de hortaliças folhosas durante os meses mais quentes do ano. No Rio de Janeiro, estado responsável por cerca de 90% da produção nacional de bertalha, as lavouras comerciais concentram-se em municípios da Baixada Fluminense durante o inverno. Já na região serrana, a espécie é cultivada no verão. A bertalha apresenta boa adaptação a temperaturas de até 35 °C e até mesmo 40 °C.
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