Duas novas espécies de minhocas foram descobertas na fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste , em São Carlos (SP). A revelação foi feita em abril, no artigo “ Glossoscolex (Glossoscolex) canchim sp. nov. e Fimoscolex bernardii sp . nov., duas novas espécies de minhocas ( Oligochaeta: Glossoscolecidae ) do Estado de São Paulo, Brasil ”, publicado na revista internacional Zootaxa .
O artigo é assinado pelas pesquisadoras Marie Luise Carolina Bartz, do Programa de Pós-Graduação em Ecossistemas Agrícolas e Naturais da Universidade Federal de Santa Catarina ( UFSC ); George Brown, da Embrapa Florestas ; e Lilianne Maia Bruz, do programa de Pós-graduação em Solos da Universidade Federal do Paraná ( UFPR ).
As duas novas espécies da família de minhocas Glossoscolecidae — a Fimoscolex bernardii sp. novembro. Bartz e Glossoscolex (Glossoscolex) canchim sp. novembro. Bartz — pertence aos gêneros Glossoscolex e Fimoscolex e foram descobertas em sistemas integrados de produção agrícola e pecuária, em trabalhos sob plantio direto e pastagens na Fazenda.
Segundo os autores, esses novos táxons (organismos) enriquecem o inventário da fauna minhoca brasileira e são importantes para uma melhor compreensão da diversidade e da distribuição de espécies nativas na transição entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado. As minhocas estão entre os membros ecologicamente mais importantes da fauna do solo. Elas atuam como engenheiras do ecossistema e são consideradas bioindicadoras de qualidade ambiental e saúde do solo.
“Espécies nativas geralmente estão associadas a habitats menos perturbados, enquanto formas exóticas ou invasoras tendem a dominar solos manejados. Dessa forma, o registro da diversidade de minhocas em sistemas integrados de produção é essencial para relacionar as respostas biológicas do solo à intensidade do manejo e à sustentabilidade a longo prazo”, explica o pesquisador da Embrapa Florestas George Brown .
Para Bartz, encontrar novas espécies de minhocas em áreas produtivas que mostrem que é possível conciliar a produção agrícola com a conservação da vida no solo. “As minhocas são organismos-chave e sua presença indica que esses sistemas estão funcionando biologicamente. Isso reforça que práticas como o planejamento direto e os sistemas integrados não apenas produzem alimentos, mas também mantêm a biodiversidade nativa brasileira. Confirma ao produtor que práticas sustentáveis ajudam a manter os processos biológicos que sustentam a fertilidade do solo, trazendo benefícios no longo prazo para a produtividade e a resiliência do sistema”, destaca. “O impacto é muito positivo. Isso muda a forma como vemos a agricultura, ela deixa de ser apenas produtiva e passa a ser também conservacionista”, completa a pesquisadora.
Histórico
Em 2018, os pesquisadores Brown, Bartz, Bruz e equipe serviram na Embrapa Pecuária Sudeste para avaliar a influência de sistemas integrados sobre a qualidade do solo e a população de minhocas. De acordo com o pesquisador Alberto Bernardi , homenageado no nome de uma das espécies, o trabalho possibilitou a coleta de informações que subsidiaram projetos de sistemas de integração da Embrapa Pecuária Sudeste.
“Os dados agregaram mais conhecimento sobre a integração laboral-pecuária-floresta (ILPF), a integração laboral-pecuária (ILP) e a integração laboral-pecuária (IPF). Há ainda muitos que precisam ser dados. Para isso, procuramos especialistas que atuam em outros temas para ajudar a entender melhores esses sistemas, que são muito complexos”, ressalta Bernardi. Ainda segundo ele, esse esforço multidisciplinar contribui para a geração de informações que auxiliam técnicos e produtores na implantação de modelos integrados e sustentáveis.
Os resultados, que fizeram parte da tese de doutorado de Lilianne Bruz, mostraram que os sistemas integrados foram desenvolvidos para o aumento da abundância de minhocas de espécies nativas e exóticas. “Com os trabalhos pudemos constatar que esses sistemas de uso promovem ambientes específicos para a conservação dessas espécies. A ocorrência de espécies nativas e exóticas pode ser usada como indicador do estado de conservação. O fato de termos encontrados a presença de minhocas nativas em áreas amplamente perturbadas indica que os sistemas integrados de produção, usados nas áreas da Embrapa, têm possibilidade de conservação dessas espécies, que precisam ser monitoradas ao longo do tempo para garantir as disposições de suas populações”, diz o pesquisador.
Fertilidade do solo
As minhocas são utilizadas como bioindicadoras de qualidade e saúde do solo porque são sensíveis às mudanças no manejo e desempenham várias funções, como a abertura de canais no solo, a fragmentação de resíduos vegetais, o transporte de microrganismos e a mistura de matéria orgânica com minerais. Essas funções resultam em melhorias nas propriedades físicas, químicas e biológicas, bem como na fertilidade do solo e na produtividade agrícola.
A coleta das minhocas ocorreu em diversas áreas da Fazenda Canchim sob sistema ILPF, ILP, IPF (integração pecuária-floresta), pastagem extensiva, pastagem intensiva e cultura de milho irrigado sob plantio direto. As minhocas foram retiradas manualmente do solo, contadas, separadas e avaliadas quantitativa e qualitativamente para monitorar as alterações no solo decorrentes de diferentes tipos de manejo. Inicialmente, foram examinadas as características externas, seguidas de dissecção dorsal para observação das estruturas anatômicas internas.
Os espécimes estão depositados na Coleção Fritz Müller de Oligoquetas (COFM) da Embrapa Florestas, em Colombo, Paraná, com um parátipo de cada espécie enviado ao Museu de Zoologia de São Paulo (MZUSP), em São Paulo. Parátipo é um exemplar de referência usado por um pesquisador para descrever e dar nome a uma nova espécie.
Um aspecto relevante é que as novas espécies nativas foram encontradas tanto em sistemas integrados quanto em pastagens gerenciadas intensivamente. A espécie de Fimoscolex também foi encontrada na área de cultura anual sob plantio direto. Conforme Bernardi, a hipótese é que os sistemas conservacionistas, como a integração trabalho-pecuária, trabalho-pecuário-floresta e plantio direto, proporcionam maior porte de carbono, estimulam a diversidade de animais e melhoram as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, além de trazer outros benefícios ao ecossistema.
Homenagem
A Fimoscolex bernardii, recebeu o nome em homenagem ao pesquisador Alberto Bernardi, da Embrapa Pecuária Sudeste, um dos responsáveis, há mais de 20 anos, pelos experimentos e pesquisas sobre sistemas integrados de produção.
A Glossoscolex canchim tem o nome de uma árvore, a Canchim ( Pachystroma longifolium ), nativa da Mata Atlântica, comum na região de São Carlos. Essa árvore também deu nome à raça bovina Canchim e à Fazenda Canchim, onde a espécie foi encontrada.
Os gêneros Glossoscolex e Fimoscolex (Glossoscolecidae) são particularmente representativos nas regiões Sul e Sudeste, ocorrendo em uma ampla gama de ambientes, como florestas nativas, campos, lavouras e pastagens. São frequentemente simpátricos, ou seja, vivem e coexistem na mesma área geográfica, e podem ocupar nichos ecológicos semelhantes. A única diferença morfológica consistente entre eles é o número de poros masculinos e os bulbos copulatórios geralmente associados (estruturas usadas na reprodução, presentes em quase todas as espécies – um em Fimoscolex, dois em Glossoscolex).
Ampliar o conhecimento sobre esses organismos é crucial não apenas para a taxonomia, mas também para a compreensão das funções ecológicas dessas minhocas nativas em solos tropicais e subtropicais.
Minhocas no Brasil
O Brasil tem uma das faunas minhocas mais ricas do mundo, com cerca de 336 espécies descritas. No entanto, as sugestões sugerem que podem ocorrer mais de 1.400 espécies no País.São Paulo é um dos estados com o maior número de locais amostrados e de espécies registradas. São Carlos situa-se na transição entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado, região de grande heterogeneidade ambiental e de intenso uso para a produção agropecuária e florestal.
Contudo, a composição taxonômica das minhocas nativas permanece pouco documentada, especialmente no bioma Cerrado. A Fazenda Canchim tem sido um site de referência para experimentos de longo prazo em sistemas integrados há mais de duas décadas. Apesar da extensa documentação sobre a qualidade de apenas esses sistemas, suas comunidades zoológicas edáficas continuam pouco estudadas e merecem maior atenção.
Além de sua importância taxonômica, a descoberta dessas espécies destaca a necessidade de mais estudos ecológicos para compreender melhor a influência do uso da terra e das práticas de manejo do solo sobre a persistência das comunidades nativas de minhocas.
Fotos: Lilianne Maia Bruz
Gisele Rosso (MTB/3091/PR)
Embrapa Pecuária Sudeste


