Mel do Sertão impulsiona produção de mel orgânico no semiárido piauiense

Cooperativa de São Raimundo Nonato reúne mais de 400 produtores e transforma a apicultura em vetor de renda, preservação ambiental e valorização da agricultura familiar

Localizada a 576 quilômetros de Teresina, no município de São Raimundo Nonato (PI), a Cooperativa Mel do Sertão se consolidou como uma das principais referências em apicultura do Nordeste. Com sede no território da Serra da Capivara, região reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, a cooperativa é responsável por impulsionar o crescimento da produção de mel no estado e por associar a atividade à conservação ambiental.

O Piauí é hoje o segundo maior produtor de mel do Brasil, resultado direto do avanço do setor em municípios do semiárido. São Raimundo Nonato é o maior produtor do estado, respondendo por mais de 916 toneladas de mel em 2023, volume que representa crescimento superior a 4.000% em dez anos. A expansão está diretamente ligada à atuação da Cooperativa Mel do Sertão, que desde sua fundação, em 2007, tem promovido capacitação técnica, estruturação produtiva e organização dos apicultores locais.

Segundo o presidente Henrique José Neri Júnior, a cooperativa nasceu da necessidade de dar suporte aos produtores da região e garantir melhores condições de comercialização. “A apicultura começou no fim dos anos 1990, mas de forma desorganizada. A partir dos anos 2000, com orientação técnica e a criação da cooperativa, conseguimos mudar o cenário”, explica.

Sede da Cooperativa Mel do Sertão, em São Raimundo Nonato (PI). Créditos: Divulgação/OCB

Em 2021, a Mel do Sertão passou por uma reestruturação que marcou uma nova fase do empreendimento. Em apenas quatro anos, o número de cooperados saltou de 22 para 420, e a produção passou a alcançar de 800 a 1.000 toneladas anuais.

Grande parte do mel produzido é destinada à exportação, em razão da alta qualidade e da certificação orgânica. A região da Serra da Capivara é uma das poucas do país em que o mel é 100% livre de agrotóxicos, característica que valoriza o produto no mercado internacional. “Aqui não se usa agrotóxico. A apicultura depende de uma natureza equilibrada, por isso preservamos a caatinga, que é essencial para as abelhas e para a produção”, destaca Henrique.

Além da geração de renda, a atividade provocou mudanças significativas no meio ambiente e na economia local. Antes da expansão da apicultura, as queimadas eram frequentes na região, em razão do uso do fogo na agricultura de subsistência. Com a conscientização ambiental dos cooperados, houve redução estimada de 95% nos incêndios rurais. Hoje, as propriedades mantêm grandes áreas de reserva ambiental, garantindo a preservação da flora nativa da caatinga.

Capacitações promovidas pela cooperativa fortalecem o cooperativismo e aprimoram as técnicas de manejo e produtividade entre os associados. Créditos: Divulgação

O cooperado Raimundo Ferreira, que iniciou na apicultura em 1998 com apenas quatro colmeias, é um dos exemplos da transformação social promovida pela atividade. Atualmente, ele e os filhos administram 600 colmeias e têm na produção de mel sua principal fonte de renda. “Antes, vivíamos da roça e da caça. Era difícil. Hoje, o mel trouxe sustento e qualidade de vida”, conta.


A mudança também representou uma nova relação com o território. “Antes desmatávamos para plantar. Agora, restauramos a caatinga e cuidamos das áreas degradadas. As abelhas nos ensinaram a trabalhar em grupo e preservar”, acrescenta Raimundo.

O cooperativismo foi determinante para essa evolução. Antes da organização coletiva, os apicultores vendiam individualmente e enfrentavam dificuldade para negociar preços. Com a cooperativa, o produto passou a ter padrão de qualidade, escala de produção e poder de negociação no mercado. “A cooperativa nos uniu e valorizou o trabalho do grupo. Hoje conseguimos preços melhores e reconhecimento”, relata o produtor.

A nova geração tem seguido o mesmo caminho. Daniel Ferreira, filho de Raimundo, optou por permanecer no campo e seguir o ofício do pai. “Meu futuro é aqui, trabalhando com a apicultura. É uma honra continuar esse trabalho que mudou nossa vida”, afirma.

Produtores familiares transformaram a apicultura em principal fonte de renda, preservando a vegetação nativa e reduzindo as queimadas na região. Créditos: Divulgação

Com atuação baseada em sustentabilidade, inclusão produtiva e preservação ambiental, a Cooperativa Mel do Sertão mostra que é possível gerar desenvolvimento econômico em harmonia com a natureza. O modelo adotado em São Raimundo Nonato tornou-se referência para o semiárido nordestino, comprovando que o cooperativismo é instrumento eficaz para fortalecer a agricultura familiar e consolidar cadeias produtivas sustentáveis.

Informações: OCB – vídeo: O doce impacto do cooperativismo.

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