A agricultura familiar precisa de sindicatos fortes e políticas públicas integradas

Primeira mulher a assumir a presidência da CONTAG em mais de 60 anos, Vânia Marques Pinto fala sobre os desafios e perspectivas da agricultura familiar no Brasil

Eleita em 2023 como a primeira mulher presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), Vânia Marques Pinto carrega consigo o simbolismo da luta feminina por espaços de liderança e a responsabilidade de representar milhões de agricultores e agricultoras familiares do país. À frente da entidade que tem mais de seis décadas de história, ela destaca a importância de fortalecer os sindicatos, ampliar o acesso a políticas públicas e garantir a transição ecológica com dignidade no campo. 

Em entrevista ao Anuário Brasileiro do Agronegócio e Agricultura Familiar, Vânia fala sobre prioridades de sua gestão, a relevância do cooperativismo, o papel da juventude rural, os avanços e retrocessos da última década e as expectativas para o futuro da agricultura familiar no Brasil.

Anuário: A senhora foi eleita como a primeira mulher presidente da CONTAG em seus mais de 60 anos de história. O que essa conquista representa para a luta dos trabalhadores rurais e para a equidade de gênero no campo?

Vânia: Vivemos em uma sociedade que tem o machismo e o patriarcado como parte estruturante. Ser mulher numa sociedade assim é entender que as mulheres têm condições diferentes das que os homens têm, e que, portanto, a mulher sempre tem que trabalhar mais, do mesmo modo leva muito tempo para que mulheres ocupem espaços que historicamente foram ocupados por homens. A conquista de ter uma mulher na presidência da CONTAG representa a luta e a organização das mulheres pelo direito de participar. Ter mais mulheres em espaços como esses também significa que políticas públicas e ações que beneficiam as mulheres cheguem nos territórios, podendo diminuir as disparidades entre homens e mulheres, garantindo mais oportunidades para as mulheres.

Anuário: Quais são as principais prioridades da sua gestão à frente da CONTAG, especialmente diante dos desafios atuais enfrentados pela agricultura familiar no Brasil?

Vânia: Tenho pelo menos duas prioridades para a atual gestão, a primeira é fortalecer o movimento sindical de trabalhadores rurais agricultores e agricultoras familiares organizados no sistema CONTAG, a agricultura familiar precisa de sindicatos organizados para fazer a representação de sua categoria e na atual conjuntura em que querem criminalizar os sindicatos, ampliar o trabalho de base e a atuação sindical é fundamental; segundo é fazer um trabalho focado para que a agricultura familiar tenha acesso a reforma agrária, as políticas públicas, principalmente as que colaborem para transição ecológica e o bem estar social, o campo é lugar de gente e as pessoas que vivem e trabalham no campo, nas florestas e nas águas merecem ter vida digna.

Anuário: A agricultura familiar responde por uma parcela significativa da produção de alimentos no país. Quais políticas públicas a senhora considera essenciais para fortalecer esse segmento nos próximos anos?

Vânia: Para fortalecer a agricultura familiar as políticas públicas precisam estar interligadas. Acesso à terra e a água são fundamentais. E num cenário de mudanças climáticas as políticas precisam ter também esse viés da conservação ambiental. Portanto, políticas de crédito, de assistência técnica e extensão rural e de comercialização, e de proteção precisam estar muito bem articuladas. Garantindo a organização da produção e seu escoamento para a população.

Anuário: Como a CONTAG tem atuado para garantir melhores condições de trabalho, renda e acesso à terra para agricultores familiares, especialmente em tempos de instabilidade econômica e climática?

Vânia: A Contag tem papel fundamental na conquista dos direitos da população do campo, das florestas e das águas, todas as políticas públicas até então teve contribuições significativas da CONTAG, desde o Pronaf que completou esse ano 30 anos, até as mais recentes como os quintais produtivos. Anualmente a CONTAG realiza o Grito da Terra Brasil incidindo principalmente nos Planos Safras, a cada quatro anos realizamos Festival da Juventude e Marcha das Margaridas, fora a atuação cotidiana que dialoga e pauta os governos frente aos principais problemas enfrentados pelas agricultoras e agricultores familiares e suas demandas.

Anuário: Quais os principais avanços e retrocessos que a agricultura familiar enfrentou na última década, na sua visão?

Vânia: Foi uma década cheia de altos e baixos, saímos de um governo que tinha orçamento para agricultura familiar para um que excluiu o ministério que cuidava da agricultura familiar, mudando nomes de programas, mas sem colocar orçamento, como por exemplo a mudança do Programa minha casa minha vida, para minha casa verde e amarela, não tendo nenhuma casa construída em quatro anos. Na atualidade enfrentamos o grande desafio de ter um orçamento pífio para a Assistência Técnica e Extensão Rural-ATER, algo que se camufla por termos tido os maiores planos safra da agricultura familiar nos últimos dez anos.

Anuário: A sucessão rural é um dos grandes desafios do campo. O que pode ser feito para manter os jovens no meio rural com qualidade de vida, acesso à educação e oportunidades de trabalho?

Vânia: A permanência das Juventudes no campo é um grande desafio principalmente pela falta de oportunidades, na área da educação e da geração renda e do trabalho. Por isso é fundamental a Educação do Campo que não exclui e tem princípios e concepções que fortalecem a agricultura familiar, mas somente a educação não é suficiente, é também necessário acesso às políticas que geram renda, como crédito, ATER, o cooperativismo e as agroindústrias familiares. Muitos jovens não têm terra, não conseguem acessar ao crédito, e acabam sendo expulsos para a periferia das cidades.

Anuário: Como a CONTAG tem se posicionado frente às questões ambientais e às novas demandas por produção sustentável no campo? É possível equilibrar preservação ambiental com crescimento da agricultura familiar?

Vânia: A CONTAG já vinha há muito tempo defendendo a bandeira da conservação ambiental, da sustentabilidade, isso é possível ver nos motes dos gritos da terra, no Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural, Sustentável e Solidário. Porém nesses últimos quatro anos a CONTAG tem se aprofundado mais nesse tema, ocupando espaços de diálogos como câmaras temáticas, conselhos dentre outros, esteve em várias conferências do Clima e esteve na COP 30. Além disso, faz um trabalho com as suas bases, lançando o Será que vai Chover que foi um material extraordinário, pois evidencia que se tem alguém que pode fazer a mudança e conservar o meio ambiente, esse povo é a agricultura familiar.

Anuário: Quais expectativas a senhora tem em relação ao futuro do cooperativismo e da organização sindical rural no Brasil, e como isso impacta diretamente os agricultores familiares?

Vânia: Carrego comigo um sonho de ver a agricultura familiar brasileira muito bem estruturada, produzindo e beneficiando seus produtos, saindo da roça direto para as gôndolas dos supermercados. E para isso tem que ter cooperativa e sindicato forte, atuando conjuntamente. Tenho expectativa de que esse sonho se realizará, e por isso confio que sindicato e cooperativa tenham um capítulo novo, de enraizamento e superação dos desafios.

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