Experiência acompanhada pela FETRAF em Aratiba/RS mostra como o acamamento de plantas de cobertura pode proteger o solo, conservar umidade e favorecer a cultura seguinte
O plantio no verde é uma das práticas trabalhadas no processo de transição para um modelo de produção baseado nos princípios do Método SPDH+ (Sistema de Plantio Direto de Hortaliças). A proposta é manter o solo coberto e biologicamente ativo entre os cultivos, utilizando a biomassa produzida pelas próprias plantas como parte do funcionamento da lavoura.
Em Aratiba/RS, essa estratégia vem sendo experimentada pelo agricultor Altair Lunkes, que está no segundo ano de manejo com plantas de cobertura. A experiência integra o processo acompanhado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (FETRAF-RS) e permite observar, na prática, como o acamamento da biomassa e o plantio no verde se comportam no campo.
No primeiro ciclo, Altair implantou um mix de plantas de cobertura. Quando a biomassa atingiu o estágio adequado, realizou o acamamento e, no mesmo dia, fez o plantio do milho sobre a cobertura ainda verde. Em uma área próxima, manteve o cultivo sem o mesmo manejo, o que permitiu comparar as condições das duas áreas. “Quando a gente derrubou o mix, fez o acamamento e, no mesmo dia, plantou. Não teve problema nenhum, foi bem tranquilo e a semente germinou perfeitamente”, relata.
Segundo o agricultor, a diferença foi percebida principalmente na proteção do solo e na conservação da umidade. Na área com cobertura, ele observou menor ocorrência de erosão e de plantas espontâneas. “Deu um bom resultado onde a gente plantou o mix, comparando com outra parte da propriedade onde plantei sem o mix. Vi um resultado bom de recuperação do solo, menos erosão e menos plantas daninhas por causa da cobertura do solo”, afirma.
A percepção também se estendeu ao desenvolvimento do milho. “Na outra área, onde não tinha a cobertura, produziu menos. Por isso estou contente. Vou seguir, vou continuar este ano de novo.” projeta. A experiência levou Altair a ampliar a área manejada no segundo ano. Parte segue acompanhada pelo projeto, enquanto outra foi implantada por iniciativa própria. “Eu vi que dá resultado”, resume.
Uma mudança na forma de manejar o solo
No método SPDH+, o manejo das plantas de cobertura não é tratado apenas como uma etapa para proteger a terra entre uma cultura e outra. A produção de biomassa passa a integrar a estratégia de construção e manutenção do agroecossistema. Para o engenheiro agrônomo, educador popular e doutor em Agroecologia Valdemar Arl, a mudança está relacionada à compreensão do papel das plantas no sistema produtivo. “As plantas são precursoras e propulsoras de toda sucessão e evolução ecológica nos ecossistemas e agroecossistemas. As plantas alimentam todos os seres vivos do planeta Terra. Todos dependem das plantas para viverem”, explica.
Nesse entendimento, a biomassa produzida pelas plantas de cobertura permanece no sistema e participa de processos como proteção do solo, ciclagem de nutrientes e manutenção da atividade biológica. “As plantas fazem o solo, sustentam todos os microorganismos e macroorganismos, liberam oxigênio e fixam carbono, e ajudam a regular a temperatura”, afirma Arl.
A proposta é aproximar o funcionamento da lavoura dos processos observados em ambientes naturais, mantendo plantas, raízes, biomassa e organismos do solo de forma contínua.
Acamar sem interromper a cobertura
Para que o sistema funcione, o momento do acamamento é uma etapa importante. O objetivo é deitar as plantas sobre o solo, preservando a biomassa e evitando que elas voltem a crescer de maneira significativa.
Segundo Arl, o manejo deve ser realizado no estágio adequado de desenvolvimento, quando a planta apresenta elevada produção de fitomassa. O equipamento deve acamar a vegetação, e não triturá-la completamente.
Altair também destaca a necessidade de acertar o momento da operação. “É importante acompanhar para a derrubada do mix no período certo, para ele não voltar. Tem que ser no período certo, com o grão já meio que pronto”, explica.
Depois do acamamento, o plantio da cultura seguinte é realizado sobre a cobertura. No caso observado em Aratiba, o milho foi semeado no mesmo dia da operação, quando a biomassa ainda estava verde.
O que acontece depois do plantio
A cobertura permanece sobre o solo durante o estabelecimento da nova cultura. A camada de material vegetal reduz a exposição direta da terra ao sol e à chuva e contribui para a conservação da umidade. “A terra não fica muito exposta ao sol, então segura mais umidade”, observa Altair.
A biomassa também dificulta a emergência de plantas espontâneas e reduz a exposição do solo à ação da chuva, um dos fatores associados à erosão. Ao mesmo tempo, as raízes das plantas de cobertura e da cultura seguinte participam da manutenção da atividade biológica do solo. Conforme a biomassa se decompõe, seus nutrientes retornam ao sistema e passam a integrar os processos de ciclagem de nutrientes.
É esse conjunto de efeitos que o agricultor relaciona ao desempenho observado na área. “Aquele material que foi derrubado, que saiu dessa plantação, retribuiu na planta. Então a planta usou isso”, relata.
A experiência acompanhada pela FETRAF em Aratiba/RS mostra, na prática, como uma mudança no manejo das plantas de cobertura pode alterar a relação entre uma cultura e outra. Em vez de considerar a biomassa apenas como proteção temporária, o método SPDH+ propõe utilizá-la como parte da dinâmica da propriedade, mantendo o solo coberto e os processos biológicos ativos.
Para Arl, a continuidade desses processos está diretamente relacionada ao funcionamento do agroecossistema. “A saúde do ambiente depende da biodiversidade permanentemente ativa de plantas e microrganismos que cooperam entre si para regular e evoluir o ecossistema ou agroecossistema”, conclui.
Texto: Fetraf
Foto: Divulgação


